Quando falamos em ambiente familiar disfuncional, logo pensamos em padrão de violência, toxidade e agressões. Mas nem sempre é preciso tanta intensidade para caracterizar a disfuncionalidade.
Uma família disfuncional é aquela em cujo padrão prevalecem comportamentos prejudiciais como críticas, falta de afeto, demonstração de preferência por filhos, comunicação violenta, conflitos constantes, embates, pais que não conseguem gerir o lar com responsabilidade emocional e vários outros comportamentos que promovam a instabilidade. Não raro, muitos costumam até casar para sair de casa - uma fuga que parece mais segura que o ambiente familiar. Passado os anos, o indivíduo consegue elaborar que a motivação do casamento foi às avessas.
Sair de casa para preservar a saúde mental é a realidade de muitos que preferem se sacrificar financeiramente a permanecer próximos aos familiares.
Curioso perceber que os filhos tão desejados se tornam fontes de grande insatisfação e queixa por parte dos pais, gerando não só conflitos, mas também a dúvida se realmente deveriam tê-los. Um questionamento que, por vezes, é verbalizado aos próprios filhos, retroalimentando a disfuncionalidade familiar.
Num ambiente conturbado, os laços de amor são questionados: enquanto os pais dizem amar seus filhos, os mesmos não se sentem amados. Para entender melhor essa equação é preciso refletir a percepção do amor sob dois aspectos fundamentais: os objetivo e os subjetivos.
O primeiro tem a ver com a parte prática da vida: cuidados básicos, apoio financeiro, assistência, cuidados pessoais, financeiros, etc. Já o segundo aspecto é percebido de forma particular através do nível de acolhimento que recebemos. Nos sentimos acolhidos quando o outro nos compreende através da nossa ótica, conseguindo nos proporcionar sensação de aconchego, compreensão e segurança.
Os aspectos objetivos transmitem a sensação de segurança material, enquanto os subjetivos promovem a segurança emocional. Entretanto, é preciso que ambos existam para que sintamos a plenitude do amor. Na infância, ainda não temos a consciência dessa necessidade e só vamos nos dar conta dela na vida adulta, quando se manifesta nossa fragilidade.
Numa análise honesta conseguimos descortinar a santificação dos nossos pais e enxergá-los como criaturas faltantes. A cura implica em mapear as nossas dores, não com o objetivo de “caça as bruxas”, mas sim de conseguir curar as feridas, a transformando em cicatrizes que não sangram mais. Afinal, vêm da família as nossas melhores lembranças e por vezes nossas piores dores, nos resta saber como iremos direcionar nossa vida. À luz da filosofia podemos refletir na frase de Jean Paul Sartre: “O que você fez com o que te fizeram?”.