Simone DemolinariPsicanalista com Mestrado e dissertação em Anomalias Comportamentais, apresentadora na 102,9 e 98 FM

Eu sou um blefe

Publicado em 12/05/2022 às 06:00.

É conhecido popularmente como “Síndrome do Impostor” o comportamento de quem se julga inferior ao que é. Quem sente isso carrega consigo a sensação de que “engana bem”, mas que no fundo não é tudo aquilo que as pessoas acreditam que ele seja. Se acha uma farsa e pensa que a qualquer momento será “descoberto” em seu blefe. 

Não importa quão reconhecida seja sua carreira profissional, a pessoa sempre terá a sensação de ser uma espécie de farsa. E mesmo sabendo que trabalhara exaustivamente para chegar onde está, no íntimo atribui seu sucesso ao acaso.

Não são poucas as pessoas que sofrem dessa síndrome, e a razão disso se atribui basicamente a duas questões: perfeccionismo e sentimento de inferioridade. 

Os perfeccionistas são aqueles que, não admitindo seus próprios erros, se veem obrigados a atingir o nível máximo de perfeição em tudo que fazem. Querem alcançar o céu. Seu comportamento se assemelha ao transtorno obsessivo, onde há uma repetição constante da tarefa como um ritual para atenuar a insegurança. São indivíduos rígidos, com um nível de autocrítica elevada e uma alta capacidade punitiva em caso de erro. Toleram mal a frustração pois a interpretam como um fracasso ou incompetência que poderiam ser evitados. 

Sofrem com esse jeito de ser, e não raramente, se tornam invejosos daqueles que lidam melhor com a possibilidade de errar e vivem de forma mais leve. Ficam em constante comparação, e fazem da vida do outro um termômetro para medirem a si próprios. 
São reféns da própria exigência, que sempre os joga para baixo. Eis a ideia de que estão aquém da percepção alheia. 

Já o complexo de inferioridade pode ocorrer como uma consequência do perfeccionismo ou também dos estímulos que recebemos ao longo da vida. Essa “menos valia” alimenta a insegurança, vergonha, timidez, medo e é o principal componente da síndrome do impostor.

É possível que todos nós sintamos um pouco desse sentimento de inferioridade em alguma intensidade. O problema é quando ele é sentido de forma constante, chegando a interferir na vida do indivíduo, na sua autoestima. 

A solução disso está em fazermos um mapeamento honesto das nossas competências e fragilidades. Não devemos nos iludir acreditando que somos superiores ao que realmente somos, pois isso seria outro problema; o transtorno narcisista. Mas, igualmente ruim é nos sentirmos impostores. Assim como na tecnologia, precisamos fazer de tempos em tempos uma “atualização” do nosso sistema psíquico. Como dizia Freud: “Atualize-se, você não é mais uma criança indefesa”. Precisamos adequar nossas neuroses ao contexto real e não aos nossos medos. Se somos profissionais reconhecidos, elogiados e admirados, precisamos entender que isso é o que realmente somos, e pronto. 

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