Tiago ReisInvestidor há mais de 15 anos, fundador e CEO da casa de análise financeira Suno Research.

Como analisar uma empresa?

03/05/2021 às 21:06.
Atualizado em 05/12/2021 às 04:50

Se tem algo que todo investidor sabe é que analisar uma empresa não é tarefa fácil. Afinal, ao decidir qual ação irá comprar, você está definindo qual negócio será sócio no  longo prazo. Fazer a escolha certa, neste momento, é, portanto, essencial para não sair no prejuízo. E já sabemos que seguir a manada e comprar um papel, sem fundamentos, só porque “todo mundo está comprando”, não é a melhor escolha. 

A boa notícia é que, apesar de não existir um caminho único, existem algumas métricas que você pode considerar para fazer sua análise e, assim, ter um norte ao construir sua carteira de ações. Confira as 4 principais métricas que utilizo na hora de escolher as empresas onde investir meu dinheiro. 

Rentabilidade

Quanto mais rentável uma empresa é, melhor. Mas a grande pergunta é: como mensurar a rentabilidade de uma empresa? O conceito básico por trás da rentabilidade é simples. Consideramos rentável empresas que lucram com os acionistas colocando o mínimo de capital possível. Existem dois grandes indicadores para analisar: o ROE (Return On Equity), que significa retorno sobre o patrimônio líquido, e o ROIC (Return On Invested Capital), que quer dizer retorno sobre o capital investido.

O ROE é uma métrica também simples de calcular. Lucro líquido (que é informado no balanço da empresa), dividido pelo patrimônio líquido (que é quanto os acionistas aportaram na empresa e está informado no balanço patrimonial). É muito importante estar atento sobre o que é o patrimônio líquido. Ele é calculado entre a diferença entre os ativos da empresa e o passivo, o que sobra é o patrimônio líquido. 

Em linhas gerais, é quanto os acionistas da empresa colocaram para financiar as atividades. Por exemplo, se você abre um negócio e investe 50 mil reais do seu bolso e pega outros 50 mil do banco, o patrimônio líquido é somente os seus 50 mil e o total de ativos é 100 mil. O ROE mensura quanto os acionistas conseguem lucrar em cima dos seus 50 mil iniciais. Então, se seu negócio, que você investiu 50 mil reais do seu bolso, lucrar 10 mil reais, o ROE é de 20%. Busco investir em empresas que tenham um ROE acima de 10% e geralmente negócios muito bons são aqueles que apresentam acima de 15%.

Já o ROIC é calculado de uma maneira diferente. Enquanto o ROE só considera o ponto de vista do acionista, o ROIC analisa a rentabilidade do negócio como um todo. No exemplo anterior, ele consideraria o total do capital investido, os 100 mil, observando quanto existe de lucro, depois do imposto, antes de pagar o banco, na operação toda. Então, se a empresa lucrar 20 mil, tendo 100 mil de capital, o ROIC é de 20%. Quanto maior o ROIC, melhor. 

Potencial de crescimento do negócio

Outro fator importante ao escolher quais empresas você vai se tornar sócio é o potencial de crescimento no negócio. É necessário avaliar três grandes frentes e fazer algumas perguntas: crescimento da economia (geograficamente onde aquele negócio está inserido? como é o mercado naquela região?), segmento (trata-se de um produto/serviço que tem potencial de crescer acima ou abaixo do PIB?) e potencial de crescimento de market share (qual a participação de mercado daquela empresa no mercado que ela está inserida?).

Outro ponto muito importante é que o crescimento da empresa esteja atrelado a uma rentabilidade elevada. É até comum uma empresa crescer sem necessariamente gerar valor para seu acionista. Nem sempre crescer é positivo sozinho, precisa vir de mãos dadas com a rentabilidade. 

Por fim, a gestão da companhia também é fundamental e diz muito sobre o potencial de crescimento do negócio. Afinal, as empresas são compostas por pessoas e uma gestão competente gera, como resultado, uma empresa que tem alta rentabilidade e uma empresa que cresce acima da média. No geral, as consequências de uma empresa bem gerida são visíveis em rentabilidade elevada e crescimento acima da média.

Riscos de investir naquele negócio

Ao investir em uma empresa, o risco vem de várias frentes. Pode ser, por exemplo, jurídico, regulatório, climático. Cada negócio tem seu próprio risco, e o investidor precisa entender isso claramente. A forma mais básica de compreender os riscos primários de uma empresa é recorrer ao formulário de referência que existe no site de relações com os investidores. Neste documento, as empresas costumam ser sinceras em relação aos riscos. Assim, minha sugestão é ler atentamente este formulário de referência antes de adquirir ações da companhia. 

Outra boa estratégia é buscar empresas que tenham baixa volatilidade de suas receitas e de seus lucros. Geralmente, uma empresa que tem muita volatilidade em receitas e lucros são empresas mais arriscadas. Além disso, investir em empresas que tenham balanço sólido, ou seja, que tenham caixa para honrar seus compromissos e não quebram por falta de dinheiro, é fundamental. Para analisar o endividamento de uma empresa é necessário ver o quanto existe de dívida líquida (dívida dos bancos, menos o caixa). É importante que isso seja compatível tanto com o patrimônio líquido quanto com o lucro operacional. Eu busco empresas que tenham endividamento líquido inferior a 3x o Ebitda (sigla em inglês para Earnings before interest, taxes, depreciation and amortization).

Valuation

Em português, valuation significa “avaliação de empresas”. Trata-se do processo de estimar o valor real de uma empresa, determinando seu preço justo e o retorno de um investimento em suas ações. Por melhor que seja uma empresa, um valuation equivocado leva o investidor a fazer um negócio não tão bom. Valuations esticados, por exemplo, dificultam retornos acima da inflação. 

Obviamente fazer valuation não é simples, mas existem alguns indicadores que ajudam no processo: analisar relação preço-lucro, o dividend yield (que é a relação entre o dividendo pago e o preço da ação), o preço valor patrimonial dentre outras métricas utilizadas. Saber como avaliar uma empresa é o primeiro passo para tomar uma decisão de investimentos certeira. 

Esses são apenas alguns dos fatores que utilizo para selecionar as companhias das quais quero me tornar sócio. Estudar para fazer boas escolhas é sempre o melhor caminho!

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