Tiago ReisInvestidor há mais de 15 anos, fundador e CEO da casa de análise financeira Suno Research.

O que ninguém sabe sobre o meu começo nos investimentos

28/06/2021 às 17:04.
Atualizado em 05/12/2021 às 05:16

Este ano completo minha “maioridade” como investidor de bolsa de valores. São 18 anos desde a primeira vez que investi no já longínquo 2003. Naquela época, no mundo, Estados Unidos dava início à Guerra contra o Iraque, o projeto genoma humano era finalizado, o último filme de Senhor dos Anéis chegava aos cinemas, Lula assumia a presidência do Brasil pela primeira vez, os mercados financeiros enfrentavam muita volatilidade e eu era um adolescente que estava no colégio e que assistia tudo isso pelo Jornal Nacional. 

Minha vontade de começar a investir surgiu por pura curiosidade. Assistindo às notícias na TV, me chamava muito atenção aqueles números: Ibovespa sobe, Ibovespa cai, risco país. Eu queria entender o que era aquilo tudo, aquele sobe e desce todo. 

Meu pai já era investidor de subsistência, ele não trabalhava para terceiros, mas tinha umas ações que investia para si e falei com ele, disse que queria iniciar nesse negócio também. Foi aí que ganhei um dos grandes presentes do meu pai: ele tinha um pequeno clube de investimentos, o Avante, que estava largado, e me deu para eu tocar. Lembro que não tinha muito dinheiro. Na época tinha o valor de um carro popular ou um pouco mais. Foi naquele momento que eu comecei a comprar ações, vender ações e nunca mais parei. Desde o começo, sempre com perspectiva de longo prazo. 

Eu tive muita sorte de ter começado pelo bom caminho. Hoje em dia existe o caminho das promessas de dinheiro rápido, mas por sorte adentrei o mercado conhecendo investimentos por meio dos livros e, o melhor, pelos livros do grande Warren Buffett. Eu estava tão interessado em estudar sobre investimentos que até fiz uma malandragem no colégio: colocava um livro do Buffett dentro do livro de física. Assim passava o tempo todo estudando investimentos. 

Uma pergunta muito comum que me fazem é se me recordo qual foi minha primeira ação. A verdade é que eu nem lembro, acho que foi um punhado de ações. Mas tem uma especial, que não me esqueço: a Alpargatas (ALPA4). Era a maior posição do clube que eu tocava. Investi nela de 2003 a 2007 e, neste período, o papel multiplicou por 10 ou 15 vezes. A sensação de valorização é muito boa! 

Considero também que, além de ter tido sorte de começar pelo bom caminho, também tive sorte de ter começado em 2003, porque foi um período que os anos seguintes foram muito positivos para bolsa. Talvez, se eu tivesse começado e perdido logo de cara, pode ser que eu tivesse desistido. Para se ter ideia do que estou falando, naquela época a bolsa saiu dos 10 mil pontos e chegou aos 70 mil pontos, em 2008, e eu tive quase 5 anos de investimentos sem nenhuma perda. Com as bolsas se valorizando no mundo todo e as minhas ações valorizando ainda mais que a média das ações. Claro que isso foi muito bom, mas até deseducativo de alguma forma, porque eu acabei achando que as bolsas só subiam - o que não é verdade. Por outro lado, foi motivador, afinal, deve ser muito ruim começar a investir e só perder dinheiro. 

Esse foi o meu começo, um começo investindo em empresas sólidas, empresas que pagavam dividendos, olhando muito para relação preço: preço/lucro, preço/valor patrimonial, tentando comprar empresas baratas. O que deu certo, tanto que o clube que eu tocava, o Avante, existe até hoje e se tornou um fundo. 

Claro que hoje minha visão também já se modificou. De uns tempos para cá tenho olhado cada vez mais para a qualidade do ativo, quanto ele tem de rentabilidade, qual o potencial de crescimento, quem são as pessoas que estão por trás - não somente para o preço.

Além disso, também tenho investido mais no exterior. Comecei a comprar ações fora do Brasil somente em 2011. Em meus primeiros 8 anos de bolsa eu não investia fora. Até porque, era muito distante da realidade brasileira: não existia BDR, não existia ETFs que investem fora, abrir uma conta no exterior era muito mais complexo que hoje. 

Fora que a realidade também mudou muito em termos de conhecimento. Não existia tanta informação quanto existe hoje. Em 2006, por exemplo, eu via as cotações por telefone, ligando para minha corretora no intervalo das aulas da faculdade. Não tinha cotação na internet, fechamento eu via pela TV Bloomberg ou só no jornal do dia seguinte. 

Os tempos mudaram bastante ao longo desses 18 anos. Hoje temos muito mais informação. Mas, ao mesmo tempo, temos também muito mais desinformação e muita picaretagem, muita promessa de dinheiro fácil. Isso não existia naquela época, o que é ótimo, porque eu era muito jovem e poderia cair numa dessas. Hoje estou calejado e sei ver de longe uma fraude.  E você, se lembra quando começou a investir? 

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