
Durante muito tempo, o professor ocupou o centro da sala e do conhecimento. Era por meio dele que o mundo chegava aos alunos: os livros, as informações, as interpretações e até parte da formação moral. Aos poucos, esse lugar começou a mudar com a ampliação do acesso à informação, a chegada da internet, dos celulares e da lógica do imediatismo.
O problema não está na tecnologia. Ela democratizou acessos, encurtou distâncias e ampliou possibilidades. O problema é o modo como a sociedade passou a enxergar o processo educativo. Em algum momento, confundiu-se informação com conhecimento. Saber o resultado de uma fórmula não significa compreender o raciocínio que leva até ela. Decorar uma data histórica não é entender os movimentos sociais, econômicos e humanos que transformaram uma época. A escola é um espaço de construção do pensamento, da socialização e da crítica.
Quando uma criança aprende português, ela não está apenas decorando regras gramaticais. Está aprendendo a compreender notícias, perceber manipulações em discursos e se comunicar no mundo. A matemática não serve apenas para resolver exercícios em provas. Ela ajuda alguém a entender juros, planejar gastos, interpretar estatísticas e não ser enganado por números apresentados com má-fé, para citar o básico.
A biologia permite compreender vacinas, alimentação, doenças e o funcionamento do próprio corpo. A geografia ajuda a entender migrações, mudanças climáticas, desigualdades sociais e conflitos territoriais. A história mostra que decisões tomadas séculos atrás continuam interferindo na vida atual.
Disciplinas frequentemente tratadas como secundárias, o que já é um erro, possuem impactos profundos. A arte amplia repertórios sensíveis; a educação física ensina convivência, disciplina e percepção corporal. Filosofia e sociologia ajudam jovens a formular perguntas num tempo em que quase todos apenas repetem respostas prontas.
Mas esse trabalho exige tempo, estrutura e confiança. E justamente aí mora parte do desgaste atual.
Nenhuma sociedade constrói presente e futuro tratando seus professores como peças acessórias.
Jon Hatami, promotor norte-americano, disse certa vez que conhecemos uma nação pelo valor que ela dá às suas crianças, idosos e animais. Eu acrescentaria os professores nessa lista. Muitos extrapolam aquilo que a profissão exige. Escutam dramas familiares, acolhem crises emocionais, percebem sinais de violência doméstica, mediam conflitos e oferecem alimento emocional para crianças que chegam vazias de atenção. Fazem isso porque acreditam no que fazem. Mas acreditar não impede o cansaço.
O professor de hoje vive cercado por cobranças. Precisa ensinar, motivar, acolher, preencher relatórios, lidar com excesso de burocracia e ainda enfrentar famílias que enxergam qualquer frustração da criança como um ataque pessoal. Existe uma dificuldade crescente em aceitar limites. Muitas famílias parecem mais preocupadas em proteger os filhos de desconfortos do que prepará-los para a vida.
Enquanto isso, casos isolados ganham destaque desproporcional. Um vídeo recortado circula nas redes sociais e rapidamente transforma professores em suspeitos permanentes. Já as pequenas conquistas cotidianas da educação quase nunca viram notícia. Quase ninguém registra o instante em que uma criança finalmente consegue ler uma sílaba.
O mais grave não é apenas o insulto, mas a naturalização dele. Enquanto profissionais da educação enfrentam salas lotadas, adoecimento emocional, violência verbal e jornadas que continuam dentro de casa, surgem figuras públicas transformando o desprezo em estratégia de engajamento.
Vídeos agressivos rendem curtidas, cortes circulam nas redes sociais e a humilhação vira espetáculo. Aos poucos, a imagem do professor vai sendo corroída não pela realidade do seu trabalho, mas pela caricatura conveniente criada por quem lucra politicamente com a desinformação.