Tio FlávioPalestrante, professor e criador do movimento voluntário Tio Flávio Cultural.

Mães que lutam, mães que amam!

Tio Flávio
Publicado em 05/08/2022 às 06:00.

Um amigo me mandou uma mensagem pelo celular dizendo que a empresa dele havia realizado um trabalho numa pequena cidade do interior de Minas Gerais. Era um município bem aconchegante e acolhedor, com poucos moradores.

Como esta história já tem algum tempo, não consigo lembrar-me direito dos detalhes, mas o motivo da mensagem era bem específico e vivo ainda na minha memória: um residente local, jovem, cheio de sonhos, mereceu a atenção da equipe da empresa pela disposição para o trabalho, vontade de continuar seus estudos e o interesse em deixar aquela cidade, que apesar de ser onde ele nasceu e que tão bem recebeu a equipe de profissionais da empresa do meu amigo, não era a mais promissora para ele. 

Este jovem gay queria viver a sua sexualidade com respeito, mas se sentia mal pelas cobranças de algumas pessoas que culpavam seus pais por terem um filho “daquele jeito”.

As falas, os olhares, os julgamentos eram muito fortes e pesavam sobre o rapaz, que queria ir para algum lugar onde pudesse estudar, mas, também, não ser o motivo de comentários maldosos. Numa cidade maior, as chances de ser aceito seriam maiores, imaginava ele, que queria conseguir a mudança do nome masculino para o feminino e, também, fazer tratamentos hormonais.

O jovem rapaz queria ser visto e respeitado pelo nome e identidade femininos que há tempos sonhou.

Ela sonhava em ser feliz. Ela só queria isto. Conversei com ela por mensagens e comentei a respeito de um grupo de pessoas em quem eu confiava e que poderia ajudá-la de alguma forma.

Assim, acionei imediatamente uma amiga, que atua no movimento Mães pela Liberdade, formado por familiares de pessoas LGBTQIAP+, que buscam nos ensinar, com muito afeto e conhecimento, a viver numa sociedade inclusiva e pacífica. Na ajuda para ter seu nome social reconhecido e no acolhimento desta jovem, este grupo de mães seria a indicação perfeita.

Tempos depois recebo outra mensagem do meu amigo. A pressão das pessoas foi grande demais, as cobranças eram constantes. A culpabilidade por ser algo que alguns não aceitavam, sob o manto do moralismo ou religiosidade, mas cobertos, na verdade, pela falsidade e pelo desamor, levaram esta jovem a encontrar no autoextermínio talvez a maneira possível de aliviar a sua dor ou não ser motivo de mais dor para a família.

Esta história mexeu muito comigo: pelas estatísticas de mortes violentas de pessoas trans, pelas estatísticas de morte de jovens por suicídio e por conhecer uma pessoa que unia ambas as estatísticas em si própria.
Procurei estar mais próximo das Mães pela Liberdade para aprender e para entender o que aquelas mulheres, mães, sentiam ao ter que fazer parte de um movimento que luta pelos direitos e reconhecimento das pessoas, violentadas e discriminadas simplesmente por elas serem quem são.

Ouvi histórias, conheci pessoas e um outro mundo se abriu. Famílias que buscavam amor e respeito para os seus e que nas dores e dúvidas se uniram para acolher a todos. Quantas famílias se culpam ou sentem vergonha, em pleno século 21, por um filho homossexual? Quantas pessoas, grupos, instituições criminalizam uma pessoa por sua orientação sexual? Quantos choros rolam escondidos, quantas agressões são cometidas, quantas famílias perdem a oportunidade de conhecerem e conviverem com os seus filhos?

Quanta dor ainda teremos que alimentar? Algo que não deveria nem ser a causa de um grupo organizado, mas sim uma premissa de convivência humana, ainda é necessário para nos alertar como sociedade o quanto que ainda temos a evoluir.

As Mães pela Liberdade hoje são minhas parceiras em vários projetos sociais. Escrevem cartas para pessoas LGBTs privadas de liberdade, conversam com mães que indico para um atendimento, pensam em soluções para “pedrinhas” que encontro no caminho e estão ali, prontas e dispostas para me levantar quando a dúvida e a incerteza da validade do que fazemos costumam me perturbar. 

Ao falarem dos seus filhos e filhas, elas falam de todos nós, pois respiram uma liberdade que ainda não existe, veem um mundo que ainda está no imaginário, sentem uma convivência social que ainda está sendo construída, falam de uma humanidade que precisa ser despertada e lutam pelo estreitamento do caminho entre a realidade e a utopia. Uma utopia que, conforme Eduardo Galeano, serve para que a gente não deixe de caminhar.

 Palestrante, professor e criador do movimento vonluntário Tio Flávio Cultural

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