
O primeiro dia da minha aula no curso de Comunicação Social seguia um roteiro que quase sempre deixava a turma desconcertada. Depois de me apresentar e explicar a disciplina, eu testava os alunos, dando a eles uma notícia falsa. O fato era o seguinte: eu passava uma extensa lista de leitura para o semestre. Eram mais de uma dezena de livros, muitos com mais de oitocentas páginas.
Bastavam alguns minutos para surgirem as reações mais diversas: uns reclamavam, outros imploravam por uma redução da bibliografia, alguns aceitavam a tarefa sem questionar, e poucos começavam a argumentar que aquela proposta simplesmente não fazia sentido. Era exatamente esse o ponto da experiência: a lista havia sido construída para ser impossível. Eu queria que eles percebessem isso e me confrontassem com argumentos, entendendo que mesmo uma informação vinda de alguém investido de autoridade, quando se tem conhecimento, pode e precisa ser discutida. O que me interessava era a construção da consciência crítica, argumentativa, não baseada em achismos ou melindres.
As redes sociais ampliaram o acesso à informação de maneira extraordinária, mas também criaram uma urgência permanente por opiniões instantâneas. Parece existir uma disputa para descobrir quem comenta primeiro ou, simplesmente, uma maneira de expurgar os próprios demônios, compartilhando-os com uma massa. Aos poucos, impressões pessoais passaram a ocupar o espaço das evidências, recortes substituíram contextos e frases isoladas ganharam força suficiente para moldar reputações. Nunca foi tão fácil publicar um julgamento. Nunca foi tão difícil esperar pelos fatos.
Tempos depois, novos exames e novas perícias mostraram que as acusações não se sustentavam. Só que a verdade só apareceu quando a escola já havia sido depredada, incendiada e fechada. Os acusados carregaram, ao longo e pelo restante da vida, as marcas da depressão, do uso contínuo de medicamentos e de um sofrimento impossível de reparar. Tudo isso aconteceu numa época em que não havia redes sociais. Imagine se houvesse!
Nesta semana, em Belo Horizonte, um casal foi encontrado morto dentro do próprio apartamento, sem sinais de invasão ou arrombamento. Bastaram as primeiras notícias para que milhares de “investigadores de wi-fi” ocupassem as redes sociais. Primeiro apareceram comentários dizendo que o caso era estranho. Depois vieram as certezas de que existia algo escondido. Em seguida, começaram as insinuações envolvendo vizinhos, amigos, familiares e, pouco tempo depois, até o filho do casal passou a ser citado como possível responsável.
O caso acabara de ser noticiado, e a polícia estava iniciando o seu trabalho. Mesmo assim, muita gente se sentiu confortável para preencher as lacunas da investigação com a própria imaginação. Algumas pessoas, nos comentários maldosos, lembraram outros casos em que um familiar realmente era culpado e usaram isso para justificar sua vil suspeita. Estas pessoas acham que acertar um “palpite”, como se algo tão sério fosse um jogo, não transforma irresponsabilidade em inteligência. E se estiverem erradas? Quem devolverá a paz de uma família que, além de enfrentar uma perda devastadora, ainda precisa conviver com acusações espalhadas por desconhecidos vazios e sedentos da dor alheia?
Existe polícia, perícia e investigação justamente para impedir que conclusões sejam tiradas antes da análise das evidências. Quando alguém ignora esse trabalho para publicar uma acusação baseada apenas em intuição, não ajuda a esclarecer os fatos. Apenas aumenta a dor de quem já perdeu quase tudo. O tempo de despedida se transforma na obrigação de provar inocência diante de pessoas que nunca responderão pelo dano que causam.
O verdadeiro senso crítico não aparece quando alguém aprende a desconfiar de tudo, mas quando também aprende a desconfiar das próprias certezas antes de transformá-las em acusação.