Comecei o ano fazendo uma necessária faxina em casa. Gavetas lotadas, papéis acumulados, objetos guardados sem função alguma. Coisas que ficaram ali por inércia, por apego ou pelo medo de que, um dia, fossem necessárias e viessem a faltar. Enquanto organizava esse excesso material, fui percebendo que toda limpeza externa costuma puxar outra, mais profunda, menos visível e muito mais trabalhosa.
Existem gavetas internas que também ficam cheias demais. São crenças, julgamentos, medos aprendidos e preconceitos herdados que seguimos carregando, mesmo quando já sabemos que fazem mal. Quando tudo isso não é revisitado para ser repensado e eliminado, tanto no pensamento quanto nas atitudes, acabamos vivendo uma vida fechada em si mesma, sem luz. Afinal, o que são a ignorância e o preconceito senão a ausência de luz sobre o outro, sobre a realidade e sobre nós mesmos?
Temos suportado uma sociedade em processo de adoecimento, mas de um modo perigoso, no qual vamos nos acostumando e normalizando aquilo que nunca deveria ser aceito. Racismo, xenofobia, LGBTfobia e tantas outras formas de discriminação continuam presentes no cotidiano, apesar de os atos que delas decorrem serem reconhecidos e punidos pela lei (ao menos espera-se que sejam). Elas aparecem nas falas disfarçadas de opinião, nas piadas tratadas como inofensivas, nos silêncios cúmplices e nas escolhas que afastam, excluem e ferem.
Enquanto isso, as histórias reais seguem acontecendo. Histórias que não cabem em estatísticas frias. Jovens expulsos de casa por serem quem são, pessoas negras que continuam sendo abordadas, vigiadas e violentadas por existirem em corpos que incomodam, imigrantes tratados como problema e não como gente, pessoas LGBTQIAPN+ que aprendem cedo que o mundo nem sempre é um lugar seguro para caminhar, amar ou simplesmente existir, pessoas idosas que são apagadas ou sofrem violências de todos os tipos.
Racismo, xenofobia, etarismo e LGBTfobia não são conceitos abstratos nem temas distantes, relegados a debates acadêmicos. São violências concretas, praticadas por pessoas, sustentadas por estruturas e repetidas. O crime não está nas identidades. O crime está nos atos, nas agressões, nas exclusões e também nas narrativas que ferem, distorcem e desumanizam.
Recentemente eu li uma publicação sobre a morte do professor João Emanuel, em Sobradinho, no Distrito Federal. Antes que qualquer apuração cuidadosa fosse concluída, parte da mídia se adiantou e afirmou, de forma equivocada, que ele teria marcado um encontro por aplicativo. Uma informação falsa. Uma escolha editorial grave. Ao fazer isso, o foco foi deslocado da violência sofrida para a insinuação de promiscuidade, como se isso explicasse, atenuasse ou contextualizasse o crime.
Quando profissionais erram dessa forma, o impacto é profundo. A palavra publicada não se dissolve depois da leitura. Ela molda percepções, reforça estigmas e pode legitimar agressões. Ao desqualificar a vítima, a narrativa ajuda a construir um ambiente em que a violência parece compreensível, quase aceitável. No caso do professor João Emanuel, essa irresponsabilidade colaborou para a naturalização de um ódio que já estava à espreita.
O que estamos fazendo enquanto sociedade quando transformamos o afeto em risco? Quando a orientação sexual passa a funcionar como marcador de perigo? Criminalizamos a vítima duas vezes: primeiro, pela violência sofrida; depois, pela forma como contamos a história. Criamos, silenciosamente, a ideia de que existir fora da “norma” é provocar o próprio sofrimento.
Outro episódio, também amplamente divulgado, mostra como os preconceitos se acumulam e se potencializam. Israel Júnior, médico e pesquisador mineiro, foi abordado em um shopping no bairro Buritis, em Belo Horizonte. Um segurança acreditou que ele e a mãe estavam dando comida a uma pessoa em situação de rua. Essa pessoa era o pai de Israel, um homem negro e surdo, que estava ali com a esposa e o filho, numa pausa para o almoço, em um dia que haviam separado para realizar pequenos reparos no apartamento da família.
Quando o pai se levantou para pegar a comida, ouviu que não poderia permanecer ali, que teria que se retirar e que não deveria ficar pedindo comida na praça de alimentação. Ao tentar proteger o pai, Israel foi agredido física e verbalmente. Não foi um equívoco isolado; foi o resultado de uma sequência de julgamentos automáticos. O corpo negro foi visto como deslocado. A deficiência foi ignorada. O vínculo familiar foi desconsiderado. A reação de defesa foi punida.
Essas histórias não são exceções. Elas revelam uma lógica que insiste em operar no cotidiano. Mesmo com leis, campanhas e discursos públicos, o preconceito segue encontrando brechas para se manifestar. Ele aparece na abordagem enviesada, no olhar desconfiado, na palavra mal colocada e no silêncio de quem poderia intervir e não intervém.
Nesse cenário, o trabalho do coletivo Mães pela Liberdade ganha uma força que ultrapassa o acolhimento individual. São mães que decidiram não abandonar seus filhos quando o mundo apontava para o desprezo. Mães que acolhem famílias inteiras atravessadas pelo medo, pela culpa e pela solidão. As histórias dessas mulheres mostram que o amor não elimina o conflito, mas oferece chão.
Elas enfrentam rupturas familiares, pressões religiosas e julgamentos sociais. Precisam rever crenças profundas e lidar com perdas reais. Ainda assim, permanecem ao lado dos filhos. Não por heroísmo, mas por responsabilidade afetiva. Ao acolher, desafiam uma cultura que insiste em tratar a diferença como ameaça e o amor como exceção.
Diante desses cenários, o alerta precisa ser dito com clareza. Pais precisam se educar para que seus filhos não aprendam a ferir. Empresas precisam assumir responsabilidade pelo que acontece dentro de seus espaços. Não importa se o funcionário é terceirizado, ele representa o comércio e age em nome dele. Treinar equipes, revisar protocolos e escutar denúncias não é gentileza. É dever.
Descredibilizar clientes, constranger famílias e tratar a violência como excesso isolado não resolve nada. Preconceito não é opinião divergente, é prática que exclui, humilha e mata.