Tio FlávioPalestrante, professor e criador do movimento voluntário Tio Flávio Cultural.

Quando o eu vira nós

Publicado em 28/08/2026 às 06:00.


No dia 28 de agosto, quando o Brasil celebra o Dia Nacional do Voluntariado, gosto de lembrar que existem gestos que parecem pequenos para quem os faz, mas que podem ocupar um espaço enorme na vida de quem os recebe. O voluntariado nasce quando alguém percebe que o próprio tempo pode servir para construir um pedaço de tempo melhor na vida de outra pessoa. Nasce muitas vezes assim, sem barulho, sem a necessidade de contar ao mundo que alguma coisa foi feita. É lógico que entendo a necessidade de prestar contas, dar visibilidade ao que está sendo construído e abrir a porta para que mais pessoas descubram que também podem participar.

É por isso que uma pintura de Émile Renouf, de 1881, sempre me vem à cabeça quando penso em voluntariado. A obra se chama Un coup de main, algo como “Uma mão amiga”, e mostra um pescador dentro de um pequeno barco, com uma menina ao seu lado segurando o mesmo grande remo que ele maneja. O homem conhece o mar, conhece o barco, conhece o esforço necessário para fazê-lo avançar. A menina é pequena diante daquele remo e ainda está aprendendo. Ela está séria, mostrando que está empenhada em fazer o seu melhor. Quando olho para a tela, não consigo enxergar apenas uma criança ajudando um adulto, mas vejo duas pessoas que precisam uma da outra.

A criança precisa do pescador para aprender o caminho, para descobrir como se conduz uma embarcação, para entender os movimentos do mar e, principalmente, para aprender a convivência. Mas o pescador também precisa daquela criança: das suas mãos pequenas sobre o remo, de sua presença, de seu olhar diante do horizonte, daquilo que ela representa para quem já viveu tanto: a possibilidade de continuar acreditando. Ele tem a experiência para ensinar o caminho, mas ela pode ajudá-lo a não perder a esperança. E isso nos convida a mudar a maneira de olhar para aquela cena. Quem está ajudando quem?

Essa pergunta mora no voluntariado. A gente entra em um lugar imaginando que vai oferecer alguma coisa e descobre, depois de algum tempo, que também recebeu. Quem visita uma pessoa idosa que vive sozinha pode oferecer companhia e voltar para casa acompanhado de uma história que não conhecia, de um afeto que nasceu da presença. Quem entra em uma sala para ensinar pode sair de lá tendo aprendido uma maneira diferente de olhar para a vida. As pessoas que se dispõem a ouvir uma dor podem descobrir que também precisavam escutar.

O voluntariado não coloca uma pessoa de um lado e outra do outro. Ele aproxima. Não é alguém que sabe tudo ensinando alguém que não sabe nada, nem alguém que tem muito entregando alguma coisa a quem tem pouco. É uma relação em que cada um leva para o barco aquilo que possui. O remo continua sendo grande, o mar continua sendo imenso, mas a travessia deixa de pertencer a uma única pessoa.

Lembrei de Muhammad Ali, o boxeador que, em 1975, durante um discurso em Harvard, recebeu um pedido para que dissesse um poema. Ali respondeu: “Me. We.” Eu. Nós. Duas palavras que parecem simples, mas que carregam uma mudança inteira de perspectiva. O eu existe, claro, e cada pessoa precisa reconhecer aquilo que é capaz de fazer, aquilo que sabe, aquilo que pode oferecer. Mas a vida ganha outro sentido quando esse eu percebe que não foi feito para viver fechado em si mesmo.

É isso que celebramos quando chega o Dia do Voluntariado. Celebramos quem decidiu colocar um pouco de si à disposição da vida de outras pessoas e, sem perceber, acabou descobrindo que ninguém oferece alguma coisa sem também ser tocado pelo encontro. Celebramos quem doa tempo, mas também quem doa escuta, paciência, conhecimento, presença, cuidado e disposição.

Em 2026, quando a Organização das Nações Unidas nomeia este ano como Ano Internacional dos Voluntários para o Desenvolvimento Sustentável, falar de voluntariado é falar de futuro, mas também é falar do presente de uma maneira muito concreta: o mundo que queremos construir começa nas relações que escolhemos construir hoje. E essa pode ser a razão pela qual aquela pintura continue tão viva depois de tantos anos. Não é apenas um pescador ensinando uma criança a remar. É uma criança lembrando a um pescador que ainda existe horizonte.

Entre o “Me” e o “We”, existe justamente esse gesto: colocar as mãos juntas. E, quando isso acontece, o eu não deixa de existir, ele só encontra um sentido maior. O barco segue porque há mais de uma mão no remo.

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