Se um dia nos pedirem para dizer, em duas palavras, o que fazemos como voluntários, talvez a resposta não caiba na boca. Porque o que fazemos não cabe em duas palavras, nem em frases rápidas, nem nos formulários que insistem em reduzir a vida a campos obrigatórios. O que fazemos, na verdade, cabe na respiração de quem encontra, no outro, uma chance de se reconhecer vivo.
A gente assiste o sorriso no olhar de uma criança, numa casa de acolhimento, que tirada do convívio dos pais, encontra na nossa presença a possibilidade de suprir o mínimo de carinho que ela precisa. É um sorriso que rasga o silêncio com uma pergunta: “Tia, você volta?”. E mesmo quando não podemos ficar, aquele sorriso fica com a gente, guardado em algum lugar que insiste em lembrar que infância não deveria rimar com ruptura.
Nós conversamos com homens que estão em situação de rua. Mas não conversamos como homens que vivem nas ruas. Conversamos como gente, humanos, iguais, com seus atropelos, seus percalços e também suas vitórias. Há nos olhos deles uma lucidez sobre a vida que não se aprende nos livros. Eles nos contam histórias que o mundo tem passado rápido demais para ouvir. E é nesse momento que entendemos que escutar é, muitas vezes, o maior presente que alguém pode receber.
Há aqueles dias em que a fragilidade do corpo manda toda a força para o olhar de um idoso numa cadeira de rodas de uma instituição. Ele pode não levantar, mas o olhar dele levanta. E enquanto isso acontece, outros idosos se levantam do sofá para dançar conosco. Uma dança simples, sem coreografia, sem técnica. Uma dança que diz: “enquanto posso, eu vivo”. Ali entendemos que a alegria não tem idade, mas tem urgência.
A gente presencia o choro de uma mãe presa no sistema, que encontra o choro da filha que a visita. E, nesse encontro, algo em nós também se rompe. Porque não há como assistir duas saudades se reconhecendo sem sentir que pertencemos a essa dor de algum modo. A lágrima que escapa é só a confirmação de que ainda somos capazes de nos sensibilizar, e isso, por si só, já é um privilégio.
E tem aqueles dias em que as crianças chegam para a gente, chamando de tio ou tia, perguntando abertamente: “você pode me adotar?”. A pergunta é uma pequena faca no peito, abrindo caminho para a responsabilidade que temos quando nos deixamos amar por alguém que também quer ser amado. Não sabemos o que responder, mas nos comprometemos a voltar, e essa promessa tem peso.
A gente percebe adolescentes de escolas e programas de jovens aprendizes encontrando, na nossa fala ou na nossa presença, um tipo de esperança e reconhecimento que pensavam que não mereciam. No final de uma palestra, eles vêm nos abraçar, emocionados por descobrirem que não estão sozinhos nas angústias. E, naquele abraço, há uma espécie de certeza: ninguém atravessa a juventude sem apoio, sem referência, sem alguém que diga “eu também já me senti assim”.
Nós conversamos com mulheres que se prostituem e nelas não encontramos “a prostituta”. Encontramos mulheres. Encontramos humanidade. Encontramos histórias que nunca caberão em rótulos. E entendemos, mais uma vez, que a vida sempre escapa das caixas que tentam aprisioná-la.
Nós defendemos pessoas, pelos seus direitos de serem quem são, numa relação respeitosa entre todos. Às vezes, a única coisa que alguém precisa é de um olhar que diga “você pertence”.
Mas tem aqueles dias em que a gente entra em creches e projetos sociais voltados à infância e ali viramos crianças ou deixamos a nossa própria criança, escondida há anos, sair para tomar um ar. É ali que lembramos que brincar não é fuga; brincar é forma legítima de permanecer vivo.
Presenciamos momentos em que levamos instrumentos musicais para um albergue e os homens que vivem nas ruas libertam a voz. Cantam como quem lembra quem sempre foram, e, naquele instante, ninguém é invisível. Ali, a dignidade se apresenta como música.
E tem as crianças que nos olham, tendo perdido todo o seu cabelinho numa quimioterapia, com a cor pálida no corpo, e mesmo assim nos chamam para brincar. Brincar? Sim. Porque para elas brincar é a forma mais verdadeira de dizer que a vida insiste, que a vida quer continuar. Esses talvez sejam os dias mais difíceis e, ao mesmo tempo, os mais bonitos que alguém pode viver.
Tem dia que a gente não sabe quem somos nós ou quem são todos eles. Pessoas tão diferentes de nós e tão iguais na essência. Sonhos que se tocam, dores que se reconhecem, perguntas que se repetem. Há dias em que percebemos que boa parte dessas pessoas não nos conhecem e nem nós as conhecemos de verdade. Às vezes, nem nós a nós mesmos. Mas, paradoxalmente, é nelas que encontramos respostas para as perguntas que mais nos atravessam: o que fazemos aqui? Para que tudo isso? Por que seguimos nessa busca desesperada pela felicidade e pelo sentido?
E então, num gesto simples, num toque de mão, num sorriso tímido, num canto improvisado, a resposta aparece sem fazer barulho: fazemos viver.
No Dia Internacional do Voluntariado, é isso que celebramos. Não celebramos feitos heroicos. Não celebramos medalhas. Celebramos encontros. Celebramos a coragem de continuar sensível num mundo que insiste em nos endurecer. Celebramos essa parte da humanidade que, em vez de se perguntar “o que eu ganho com isso?”, se pergunta “o que eu posso oferecer?”.
Ser voluntário não é doar tempo. É doar presença. É permitir que a vida do outro entre na nossa vida e a transforme. É descobrir que ninguém salva ninguém, mas todos podemos, de alguma forma, sustentar a esperança um do outro.