Ela serve para registrar momentos, histórias, mas, principalmente, para construir e trazer à tona memórias. Criada oficialmente há mais de 200 anos, a fotografia é instrumento valioso na concretização de vínculos afetivos. É por meio dela, sobretudo a despretensiosa, espontânea, captada no cotidiano – documental, como os profissionais chamam –, que somos capazes de rememorar e eternizar passagens importantes da nossa vida.

Há quem mergulhe tão profundamente numa foto, impressa ou não, que até a sensação experimentada no momento captado pelas lentes vem à tona. A pesquisadora e escritora Ana Paula Rubert Alves de Azevedo, de 38 anos, tem usado uma “caixinha de memórias” para acalentar corações, dela e de familiares, nesses tempos de isolamento social.

“Duas a três vezes por semana, a Alice (filha única, de 1 ano e 8 meses) pede para ver as fotos. Conseguimos acessar esse lugar de encontro com o passado – com pessoas e momentos felizes – e que esperamos reencontrar lá na frente, passada a pandemia”, reflete, referindo-se ao distanciamento imposto pela emergência em saúde colocada pelo novo coronavírus.

Fotografia documentalAna Paula Rubert tem o hábito de registrar momentos do cotidiano, como o aniversário de 1 ano da filha, Alice, na captura feita pela fotógrafa de BH Adriana Costa; imagem foi premiada

Na casa dela, até fotógrafa profissional já foi contratada parar registrar momentos do dia a dia. “Estava vivendo um puerpério complicado, porque apesar da grande felicidade que é ter um filho, vivenciamos muitas outras sensações. Tinha perdido um pouco o colorido da vida, e lembro que quando recebi as fotos, pensei: ‘nossa, como minha vida é linda’. Parece que, ali, retomei a alegria de viver”, recorda.

Responsável pelos registros a que se refere Ana Paula, a fotógrafa Adriana Costa, que atua profissionalmente com fotografia documental de família e parto há dez anos, acredita que clicar momentos significa resguardar memórias. Para ela, é em situações corriqueiras que estão as melhores lembranças.

“A bagunça da família, o jeito como cada um se comportava, como se relacionavam, o que sentiam ao fazer uma viagem... Conhecer nossa história é importante para compreender nossa realidade. Para as crianças, principalmente, é importante ter memórias palpáveis da infância e dos familiares. E a fotografia é uma das melhores maneiras de se fazer isso”, diz. 

"É nos momentos corriqueiros que está a morada de nossas melhores lembranças” - Adriana Costa, fotógrafa especialista em fotografia documental de famílias e partos

A psicóloga Ariane Vasconcelos de Barros, de 37 anos, também guarda relação parecida com as fotos que faz questão de ter com a família – o marido, um casal de gêmeos de 5 anos e uma bebê de 5 meses. Recentemente, ela teve, inclusive, a prova do quão importante é registrar fragmentos do cotidiano.

“Contratamos uma profissional para passar o dia conosco e o mais interessante é que a gente nem percebe que ela está ali. Era uma casa muito especial, que construímos no lugar que escolhemos, e de onde acabamos nos mudando muito rapidamente. Até hoje me emociono quando vejo aquelas fotos. Estava tudo ali: o jeito como as crianças subiam na janela, a toalha de mesa, os meninos que não ficavam quietos durante as refeições, o parquinho onde iam... É muito gostoso. Parece que tem cheiro e som. É um presente”. 

Fotografia documental

psicóloga Ariane Vasconcelos de Barros contratou a fotógrafa Luciana Castro para registrar um dia dela com a família na casa de onde mudaram rapidamente: "Estava tudo ali: o jeito como as crianças subiam na janela, a toalha de mesa, os meninos que não ficavam quietos durante as refeições... Um presente!"

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Registros ajudam a concretizar a imaginação, diz psicóloga

Psicóloga sistêmica familiar com atuação em Belo Horizonte, Daniela Salum acredita que as imagens que capturamos ao longo da vida, sobretudo no nosso cotidiano, são capazes mais do que de evocar memórias, possibilitam também construí-las. “Concretizam a imaginação. Às vezes, nos contam histórias de quando éramos pequenos, das quais não nos lembramos. Mas, quando vemos a fotografia daquele momento, automaticamente construímos a história, aquela situação”, exemplifica a profissional.

Para ela, é fundamental, entretanto, que a memória retratada, esteja ela impressa ou disponível somente na nuvem – hábito cada vez mais comum nos dias de hoje – seja compatível com a realidade. “Poses a gente faz sempre, inclusive naquelas fotos tradicionais da família toda reunida. As fotos trabalhadas (editadas) é que vão trazer uma ideia errada da imagem da pessoa, uma ilusão momentânea, que, no futuro, poderá trazer inclusive questionamentos emocionais”, explica.

Especialista em registro documental, a fotógrafa Luciana Castro, que costuma acompanhar famílias por até um dia inteiro em busca de cliques do cotidiano, conta que nunca pede um sorriso, um abraço ou um tipo específico de roupa, por exemplo. O objetivo é que as “cenas” retratadas sejam fiéis à história por trás daquele contexto. 

“Não é um ensaio posado, em que instigo algo baseado no olhar do outro ou no meu olhar. Coisas acontecem no dia a dia – olhar, afeto, carinho, brigas, discussões. Tudo são memórias, repletas de detalhes, e vai passar”, coloca a fotógrafa, que traduz o próprio trabalho, ao qual se dedica há cerca de cinco anos, como um “olhar poético sobre cenas corriqueiras”.

Confira cliques das fotógrafas Adriana Costa e Luciana Castro, especialista em registros documentais. Inspire-se nas capturas do cotidiano feitas por elas para registrar sua vida também: