Aos 16 anos, minha meta era acumular R$ 2 mil até os 18 anos e comprar um Fusca. Boa parte do tempo ocioso, no escritório de advocacia onde eu trabalhava, era dedicado a pesquisar os “besouros” nos classificados. E a quem interessar, o Fusca só se materializou aos 21. Nada de errado com o projeto, mas ao conhecer Isabelle Christina senti-me um verdadeiro idiota. 

Isabelle é uma adolescente que cresceu no Grajaú, uma das regiões mais pobres de São Paulo. Negra, criada só pela mãe, poderia ser mais uma menina a passar despercebida pelo mundo. Mas Isabelle decidiu ainda pequena que queria mais do que ser vista: queria mudar o mundo. Tem conseguido. 

Apesar da pouca idade, deu passos gigantescos, como apresentar um projeto social por meio de uma plataforma digital na ONU e participar de outro divulgado aos jurados do Prêmio Nobel. Como chegou até lá?

Estudo, muito estudo. Isabelle foi uma das palestrantes de um encontro promovido pelo Google em Belo Horizonte que reuniu garotas do ensino médio de todo o país. Foi lá para contar a própria história e dar um recado que pode mudar a vida de muitas outras moças: a tecnologia precisa de garotas para pensar e desenvolver soluções para um futuro permeado por máquinas inteligentes.

Para Isabelle e o Google, é preciso combater o preconceito contra mulheres na área de TI. Segundo a jovem, 82% das profissionais do setor já sofreram algum tipo de discriminação. “Apenas 20% dos profissionais são mulheres. E negras são minoria”, comenta.

Essa percepção fez com que ela desenvolvesse o projeto “Meninas Negras”, que busca empoderar jovens por meio da tecnologia. O projeto já ajudou a fazer com que jovens em situação de risco conseguissem postos em gigantes da tecnologia, como a IBM.

Enredo de filme 
A jovem conta que para chegar aonde chegou, a mãe foi fundamental. “Ela sofreu muito preconceito por ser negra. Decidiu que eu não teria uma vida como a que ela teve, e que a educação seria a base do sucesso. Iniciou minha alfabetização. Nunca me deu bonecas, me dava livros. E como lia muito, aos oito anos, folheando uma revista, li que a melhor idade para fazer intercâmbio era 13 anos. E disse a ela que iria fazer meu intercâmbio”, conta Isabelle, relembrando que a mãe acumulava jornada de trabalho com faculdade, mas que, mesmo tarde da noite, preparava as lições extras e corrigia as que menina tinha feito. 

A odisséia de Isabelle parece enredo de cinema. Ao oito anos, ela viu a mãe cair na cama devido a uma forte depressão. Para chegar ao intercâmbio, ela precisaria estudar inglês e ir para um colégio de alto padrão. Isabelle e a mãe tiveram de se mudar de Mogi das Cruzes para a capital paulista em busca da bolsa de estudos em um dos colégios mais exigentes e caros da cidade, onde a mensalidade chega aos R$ 5 mil. 

“Essas dificuldades me ajudaram a crescer. Sei que ainda passarei por dificuldades maiores, mas sempre tenho uma frase que minha mãe sempre me diz: estude e seja um valor humano”.

Apesar de ter feito tanta coisa em tão pouco tempo, ela sabe que ainda é uma menina. “Eu sou muito organizada com minhas tarefas, mas sei que só tenho 16 anos e não posso abraçar o mundo. Eu tenho meus momentos de lazer, mas sei que preciso mudar a realidade das pessoas que vêm do mesmo ponto de partida que eu”, diz a jovem. 

Assim, entre o trabalho na Oracle, estudos, projetos com Facebook e alguns dedos de prosa com a turma no Nobel, Isabelle vem mudando o mundo, de menina em menina.