Uma das maiores marcas da revolução digital é alterar a forma como consumimos certos formatos midáticos, aliada à possibilidade de nós mesmos sermos produtores. Tomemos como exemplo o videoclipe: durante anos, era basicamente uma peça de propaganda das grandes gravadoras, que ofereciam, por diversas justificativas, a chance de termos algum contato visual com os artistas.

Mas em tempos de descentralização midiática, esta deixou de ser a única forma de unir áudio e visual. Sites como Vevo e YouTube são plataformas ideais para produções incríveis na base do “faça-você-mesmo”: de fãs até artistas, muitos podem compartilhar suas criações, independentes de grandes suportes e ainda assim ganharem um séquito de fãs.

Nathaniel Barlam

 

O artista visual norte-americano Nathaniel Barlam é um ótimo exemplo desta transformação no consumo de música atualmente. Se o espaço em que ele deposita suas criações (o YouTube) é um oceano de possibilidades audiovisuais, seu trabalho é um dos “peixes” mais bonitos a navegar por ali. Através do que ele chama de “musical comics”, seu canal no site encontra o apreço de milhares de fãs, em visualizações que beiram milhões de visitas.

Assim, ao unir duas paixões– música e quadrinhos– Barlam encontrou um belo projeto para si. “Quando entrei na faculdade, fiz uma aula sobre quadrinhos e graphic novels, na qual aprendi muito sobre o meio e comecei a desenhar meus próprios quadrinhos”, revela, em entrevista para o Hoje Em Dia. “Fiz meu primeiro musical comic em 2013, para ilustrar a canção ‘Song for Sharon’, de Joni Mitchell. Um amigo meu sugeriu que a história em quadrinhos se transformasse em um vídeo, com as imagens no tempo das letras, e isso levou ao meu primeiro vídeo no YouTube. Desde então, eu continuei fazendo isso no meu tempo livre, enquanto trabalhava em tempo integral como designer de sistemas arquitetônicos de fachada”, lembra.

 

 

Barlam transformou assim uma paixão em uma espécie de culto, já que suas obras são constantemente compartilhadas em redes sociais, especialmente aquelas dedicadas à artistas que ele elege para ilustrar. “Eu diria que muitas pessoas encontraram meus vídeos no YouTube, aleatoriamente, mas também os compartilham generosamente no Facebook, o que ajuda a obter mais visualizações.Estou sempre feliz em ver meu trabalho compartilhado on-line e ouvir dos fãs o quanto eles gostam do meu trabalho”, garante.

Visão

Uma das chaves para a atração do público ao seu trabalho é o que ele chama de “narrativa subjetiva”, um termo pleonástico, mas que possuí, para o artista, uma explicação importante. “Eu uso a frase para deixar claro que meu vídeo mostra minha interpretação subjetiva da música, e que eu não acredito que essa (ou qualquer outra) interpretação seja objetivamente verdadeira ou correta”, justifica, a respeito das incríveis ilustrações que ele cria em cima de obras épicas do mundo pop. “Eu encorajo cada espectador a compartilhar seus pensamentos sobre o seu significado. Minha esperança é que, através dos meus visuais, novos ouvintes descubram músicas que de outra forma poderiam ignorar e tirem suas próprias conclusões sobre cada música”, diz.

Artista tem Peter Gabriel e Genesis como maior inspiração

Como relatam os comentários de usuários no YouTube de Nathaniel Barlam, muitos conheceram seu trabalho através de comunciades virtuais dedicadas à fãs de rock progressivo– mais especificamente aos admiradores do Genesis. Não é a toa, como confessa o artista: “Muitos artistas, especialmente Peter Gabriel (ex-vocalista do grupo britânico), escrevem letras e narrativas que estão abertas à interpretação”.

Isso significa “viagens” dentro de “viagens”: o épico surrealista “Supper´s Ready”, do Genesis, teve seus mais de 23 minutos ilustrado por Barlam de forma fascinante; tanto que comoveu quase meio milhão de cliques em sua página. “Eu acho que ele tem um dom especial para as letras que é visual, e isso é mostrado em sua abordagem nos shows ao vivo, onde ele usaria muitos figurinos diferentes, quase uma performance teatral”, justifica.

 

 

Como ele revela, o Genesis é uma paixão especial, porque é “menos atraído pelo rock progressivo do que por músicos que pressionam seus limites e tentam coisas novas”. Ou seja: podemos esperar musical comics de aventureiros como Kate Bush e Beatles. Mas estes só devem sair depois que ele terminar seu atual projeto: desenhar o disco “The Lamb Lies Down On Broadway”, ópera rock do Genesis que já ganhou alguns capítulos online.

O trabalho de Barlam pode ser visto em youtube.com/NathanielBarlam. Para apoiá-lo, basta fazer uma busca com seu nome no site Patreon.