No final dos anos 1970, George Lucas criou uma divisão de computação na LucasFilm para aprimorar a qualidade de efeitos da franquia “Star Wars”. Esse departamento tinha duas vertentes: uma para computação gráfica e outra para desenvolvimento de jogos. A primeira se desmembrou e se tornou a Pixar. E a segunda evoluiu para a LucasFilm Games, que mais tarde se chamaria LucasArts. E para desenvolver games, a equipe criou o motor gráfico Script Creation Utility para “Maniac Mansion”, o popular SCUMM. Esse motor deu origem a diversos games, entre eles “The Secret of Monkey Island” que completa 30 anos no dia 15 de outubro.

“Monkey Island”, como ficou conhecido, é um Point-and-Click Graphic Adventure Game, o famoso Adventure. Nele o jogador controla as ações usando o mouse para clicar nos elementos do cenário, assim como combinar elementos. Trata-se de um tipo de jogo que ganhou popularidade a partir da segunda metade dos anos 1980, com o surgimento do mouse. 

Lembro com muita clareza da primeira vez que vi, mas não joguei, “Monkey Island”. Foi na casa de um vizinho, em que o patriarca tinha comprado IBM PC AT, que rodava sistema operacional DOS. Foi entre 1991 e 1992. Na ocasião, quem jogava o game era filha mais velha e seu namorado. 

A gente podia assistir e dar uns pitacos, mas jamais tocar naquela coisa com uma bolota que direcionava a setinha. Era um jogo para gente grande. No dia seguinte, o computador tinha sido levado para a empresa e por lá ficou. 

Assim, “Monkey Island” se tornou uma obsessão, algo inatingível. Afinal, como teria acesso a um computador novamente? Era muito diferente de um videogame convencional, em que se comanda o bonequinho por uma tela que desliza lateralmente. Os cenários tinham profundidade e enquadramentos diferentes. Diálogos, itens coletáveis. Elementos triviais nos games de hoje, mas que eram revolucionários há 30 anos. Fato é que não demorou muito para jogar “Monkey” novamente. Mas isso é outra história.

O jogo

“The Secret of Monkey Island” conta a história de Guybrush Threepwood, um aspirante a pirata que aporta em Mêlée Island, num fictício arquipélago caribenho, onde perambulavam velhos marujos e toda sorte de bandidos. Numa taverna, ele é desafiado a cumprir três tarefas que o alçariam à condição de pirata. 

Threepwood precisava vencer uma luta de espadas, desenterrar um tesouro e roubar artefato valioso na residência do mandatário local. No meio dessa história, o protagonista se apaixona pela governadora Elaine, que é capturada pelo pirata fantasma LeChuck, que a mantém em seu navio amaldiçoado ancorado na Ilha dos Macacos. O game foi inspirado na atração da Disney, “Piratas do Caribe”, muito antes de virar um sucesso nos cinemas.

Tudo isso com charadas e quebra-cabeças a cada cenário. Por exemplo, para poder duelar, o jogador precisa conseguir uma espada. Mas para obter a arma é preciso cumprir outras tarefas. Atravessar uma ponte pode exigir pedágio. Ou seja, apesar de a história parecer simplista, o conjunto de elementos e tarefas fazem com que o game se expanda e que a campanha se arraste por dias. 

Genialidade

“The Secret of Monkey Island” foi dirigido por Ron Gilbert, que se tornou um dos grandes designers de games nos anos 1980 e 1990. Ele já tinha trabalhado em “Maniac Mansion” (1987), game que estreou o motor SCUMM, assim como em “Zak McKracken and the Alien Mindbenders”. 

A lógica de “Monkey” era exatamente a mesma de “Maniac Mansion” e “Zak”: explorar cada cenário e encontrar itens que interagem com outros nas demais telas. A diferença é que nos games de 1987 e 88 eram bem mais rudimentares no quesito gráfico. Mas nem por isso menos geniais. 

De certa forma, por terem cenários mais simples, era mais fácil visualizar os objetos escondidos. Em “Monkey” muitas vezes o detalhamento mais apurado tornava a busca mais difícil, fazendo com que o jogador varresse cada tela com o mouse em busca de elementos interativos. 

Diálogos

Todo adventure era repleto de conversas. O jogador precisava ficar atento na condução das falas. Nelas estão as instruções, mas são salpicadas em meio a diálogos ácidos, piadas, ofensas e agressões. São recursos adicionados para tornar o jogo mais difícil. Muitas vezes era preciso consultar diferentes personagens para ter uma informação exata. Para piorar, os produtores inseriram piadas sobre o motor gráfico SCUMM, assim como menções a outros games do estúdio, que faziam uma grande confusão na cabeça do jogador.

Pessoalmente, “Monkey Island”, “Maniac Mansion” e outros adventures foram bons professores de inglês. Para conseguir jogar esses games era necessário a presença constante do bom e velho Amadeu Marques. Hoje ficou tudo mais fácil. O game é dublado e quando não é tem legenda em português. E ainda sim, se for em inglês, basta apontar o celular que o Google Tradutor tira sua dúvida.

Edições

Em seus 30 anos de mercado, “Monkey Island” teve edições para diferentes plataformas, como Amiga, Mac OS, DOS, Windows. Ele também teve reedições em alta definição para PS3, Xbox One e iOS (iPhone e iPad). Atualmente é possível encontrar a versão “Special Edition”, de 2009 (pegando carona no game da Telltale), para Windows, na Steam e GoG.com, com preços que giram em torno dos R$ 20. Uma ninharia.

Joga e depois me conta