Ao digitar a palavra no Google a definição pejorativa logo aparece: “mulher má, incapaz de sentimentos afetuosos e amigáveis”. Para ajudar a mudar estereótipos negativos comumente atribuídos ao papel, cada vez mais presente nas famílias, elas ganharam uma data especial. É possível que muita gente não saiba, mas no primeiro domingo de setembro é celebrado o Dia da Madrasta no Brasil. 

Fato que a relação entre madrastas e enteados é cercada de desafios, mas não precisa ser, necessariamente, ruim. Exemplos não faltam. 

A bancária Thais Lago Oliveira é casada há cinco anos com o analista de sistemas Lucas Oliveira. Conta que quando conheceu o marido ele já tinha dois filhos do primeiro casamento –o jovem Arthur, hoje com 19 anos, e Rafael, com 12, portador de Síndrome de Down. “Sempre tive uma relação muito boa com os dois, de muito amor e respeito”, confirma, cheia de orgulho, a bancária.

A história de Thais com o enteado Rafael tornou-se ainda mais intensa no início da pandemia e o isolamento social. O enteado passou a morar em tempo integral com Thais e o pai.

Thaís, casada com Lucas, tem recebido cuidados e carinho do enteado Rafael na gravidez

Thaís, casada com Lucas, tem recebido cuidados e carinho do enteado Rafael na gravidez

“Como a mãe do Rafael é proprietária de um restaurante, ela tinha contato diário com o público. Assim, todos acordamos que seria melhor para ele ficar conosco todo o tempo, já que, por ser portador da Síndrome de Down, faz parte do grupo de risco para a Covid-19”, lembra Thaís, que no mesmo período descobriu que estava grávida.

“Nós vivemos a gravidez em casa. Confesso que foi extremamente desafiador, mas acredito que se eu não estivesse grávida, talvez tivesse sido um período ainda mais difícil. O Rafael se envolveu muito com a gestação do irmãozinho, Felipe. Passamos a ter um assunto em comum e ele participou de todo o processo da gravidez, como na escolha do enxoval, do quartinho do bebê. Ele ficava preocupado se eu estava me alimentando bem, me encheu de cuidados e carinho”. 

Estigma e preconceito 

Thais concorda que existe muito estigma e preconceito com relação às madrastas, mas acha que é importante que todas tenham consciência de que são os adultos da relação. Assim, precisam impor limites e atuar para que o relacionamento com os enteados não se desgaste, sem, no entanto, assumirem o papel de mães dos filhos do marido.

“Com o tempo, as crianças acabam entendendo que as madrastas são apenas mais uma pessoa para gostar delas, cuidar, dar amor e atenção”, acredita.

No Censo de 2010, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) passou a levar em conta os enteados. À época, o levantamento apontou que, do total de 25 milhões de casais com filhos, 2,5 milhões tinham descendentes de apenas um dos cônjuges. E a tendência é de que esse número cresça, pois, segundo o próprio IBGE, o total de divórcios no país aumentou 75% em cinco anos. Em julho do ano passado, saltaram para 7,4 mil, aumento de 260% sobre a média dos meses anteriores. 

A delegada de Polícia Irene Angélica Franco e Silva Leroy tentou engravidar por oito anos e já tinha até desistido do sonho quando se separou do primeiro marido e saiu do Vale do Aço para trabalhar em Belo Horizonte. Na capital conheceu o atual marido, Thiago Leroy, pai da Maria Eduarda, à época com apenas 1 ano e 10 meses. 

“Eu já tinha abandonado o sonho de ser mãe, não tinha intenção de adotar, e, de repente, ganhei de presente a possibilidade de conviver com uma criança maravilhosa. Tenho uma relação de alma com minha enteada, e, mesmo a Maria Eduarda tendo uma excelente mãe, nós duas também temos uma relação de mãe e filha”, afirma.

Irene faz questão de ressaltar que Duda (como carinhosamente chama a enteada), hoje com 8 anos, sabe desde sempre quem é a mãe dela e quem é a madrasta. “Ela me vê como uma referência. Muitas vezes acabo sendo conselheira, desempenho meu papel com amor maternal, a acolho e a amo, mas sabemos que não sou a mãe, sou a madrasta da Duda e é por isso que temos uma relação tão boa. Sou madrasta e tenho certeza de que sou a melhor madrasta deste mundo”, brinca Irene. (Com Izamara Arcanjo, Especial para o Hoje em Dia)

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