Um mergulho em memórias, traumas e dramas do passado que impedem o presente de fluir naturalmente. É essa a premissa de uma ferramenta que promove uma espécie de limpeza dos resíduos emocionais armazenados no nosso inconsciente. Batizada de Abordagem Integrada da Mente (AIM), foi criada pelo psiquiatra e neurocientista gaúcho Diogo Lara. No fim deste mês, ele dará um curso em Belo Horizonte.

O método é uma combinação de 15 linhas da psicologia e da meditação. Qualquer pessoa pode ser submetida a ele, que deve ser aplicado por médicos, psicólogos, coaches e todo tipo de profissional que atue com cura. Em sessões que, inicialmente, duram cerca de 1h30, é possível detectar memórias a serem acessadas e, a partir de um mergulho sutil, mas profundo, processá-las. Os resultados são duradouros.

“Muitos não têm transtornos, mas carregam mágoas. Quando mais inconsciente estiver o passado e quanto mais sofrido ele for, pior será o presente. A ideia é ficar somente com os aprendizados. Limpar memórias restaura o equilíbrio emocional perdido em situações traumáticas e dramáticas”, explica Diogo, PhD em neurociência, professor, palestrante e escritor.

Consciência no comando

Diferentemente do que acontece em outros métodos, como hipnose e regressão, por exemplo, na AIM não são feitas sugestões de que momentos do passado ou em quais memórias seja preciso mergulhar em cada etapa. “Quem fica no comando é a consciência em conexão com corpo e sentimentos do paciente. Aos poucos, as histórias vão brotando, sendo descortinadas espontaneamente por ele mesmo”, detalha.

Diogo conta que a ferramenta surgiu a partir de uma experiência pessoal, nove anos atrás. “Passei por um episódio traumático muito forte. Depois de três meses estando semimorto, ou semivivo, passei por um atendimento de EMDR (Dessensibilização e Reprocessamento por Movimentos Oculares – na tradução da sigla para o português) e foi realmente transformador. Saí das cinzas em 1h30”, lembra. EMDR é um dos métodos que fazem parte da Abordagem Integrada da Mente.

Resiliência

Ao longo do tempo, quem se submete às sessões da ferramenta – voltada também para o autoconhecimento – torna-se capaz de processar com mais naturalidade e facilidade os acontecimentos do dia a dia. “Chama-se resiliência. É a capacidade de a pessoa lidar com adversidades e não ficar tão abalada, incomodada”, resume. 

Outras duas técnicas desenvolvidas por ele – o livro Imersão e o aplicativo Cíngulo – auxiliam nessa jornada. “Quando a gente lê um romance, diferentemente de um livro de autoajuda, mergulha naquela história e o processamento ocorre naturalmente. No Cíngulo, também há ferramentas para que a pessoa passe por esse processo e alcance um nível de autoconhecimento profundo por conta própria”.

Diogo Lara

Diogo Lara reuniu 15 linhas da psicologia e meditação para criar método difundido entre profissionais que lidam com a cura; qualquer pessoa pode passar pelas sessões de AIM

Método é mais confortável e rápido que os convencionais

Embora acesse com suavidade as memórias traumáticas guardadas no nosso inconsciente, o método faz um processamento mais rápido, portanto mais eficaz, em relação a ferramentas convencionais. Na AIM, um paciente com estresse pós-traumático, por exemplo, pode se ver livre do transtorno em até duas sessões – um terço do tempo empregado em métodos com a EMDR, ferramenta psicoterapêutica. 

“Muitas pessoas ficam desanimadas, pois alegam ter feito anos de terapia. A grande diferença é que as linhas convencionais recorrem ao passado para compreender o problema. A AIM só vai até ele se, assim, for possível resolver o presente. Terapias convencionais, de fala, ajudam muito. Mas as de processamento de memórias não só ajudam, resolvem”, explica a psicóloga Aline Banchieri.

Há cerca de um ano, ela teve o primeiro contato com a abordagem desenvolvida pelo psiquiatra gaúcho. Não bastassem os casos que solucionou em consultório, é prova do quão profundo a ferramenta consegue ir. Em uma das experiências – com o próprio Diogo – descobriu o gatilho das crises de depressão e ansiedade que sofreu após uma demissão. 

“Guardei a sensação de ter sido rejeitada, excluída, abandonada. Mergulhando na lembrança daquele dia, naquela dor, chorei como um bebê solitário. Natural e incrivelmente, relembrei sensações do meu nascimento, que foi complicado. Precisei me separar da minha mãe para ficar na incubadora”, conta.

Vinte anos depois, as memórias da infância voltaram à tona. “Ao abrir espaço para que meu organismo processasse o abandono do passado, consegui lidar com a demissão e com pequenas rejeições do dia a dia de forma mais tranquila. Os sintomas de depressão e ansiedade diminuíram e abandonei a medicação depois daquela sessão”, comenta a psicóloga.

Um paciente dela de 52 anos também livrou-se da fobia de altura após cinco sessões de AIM – uma a duas vezes por mês. Do inconsciente, capturou uma lembrança de infância quando, aos 3 anos, perdeu-se do pai próximo a uma ponte.

"O cérebro associou a ponte, a altura, ao abandono dos cuidadores. Ao mergulhar na memória e em outras situações semelhantes, o medo dele desapareceu”, explica a profissional. Para Aline, visitar o passado não é simplesmente mexer em memórias, mas colocá-las no lugar adequado para que não persigam o presente. 

BH receberá de 31 de maio a 2 de junho o curso de formação de terapeutas em AIM; as inscrições podem ser feitas no site acuradamente.com. Brasília, Curitiba e São Paulo também terão turmas entre junho e agosto deste ano

Entrevista:

1- Qual é de fato o objetivo das experiências com AIM? Abrir caminhos para resolver variadas questões, curar traumas, servir como suporte para outros métodos? Poderia compartilhar conosco alguma experiência positiva vivenciada em consultório?

Mergulhar nessas memórias e restaurar o equilíbrio emocional que foi perdido em situações traumáticas, dramáticas que se viveu. Existem pessoas que passam por atrocidades ao longo da vida, mas que não têm entendimento para que essas memórias sejam processadas. No meu último curso, atendi uma paciente que tinha um histórico de abusos múltiplos por pessoas da família durante seis anos - dos 6 aos 12. Hoje, ela tem em torno de 40 anos, mas desde os 15 tinha insônia. Eles a atacavam enquanto ela dormia, momento em que acordava num sobressalto. Nesse período, o padrão de sono dela era de duas horas a cada três, quatro dias. Ao longo da vida, também usou mais de 40 remédios. O processamento dela foi feito em grupo. Em 1h45 restaurou uma carga de vergonha, de culpa, de mágoa e raiva dessas pessoas e restabeleceu as relações com pai e mãe. Desde então, passou a dormir de cinco a nove horas sem remédio.

2- Na prática, como se dão as sessões? Quanto tempo duram, para quem são indicadas, quem pode ser submetido? 

Sugiro uma primeira sessão de 1h30. O processamento dura de dez a 15 minutos até que as memórias mais importante sejam encontradas. A partir daí, é feita a imersão. Para questões mais pontuais, como depressão, enxaqueca, pânico, raramente são necessárias mais do que quatro, seis sessões. O intervalo entre uma e outra pode ser combinado com o terapeuta. Pessoalmente, gosto de fazer a cada duas, três semanas, pois é uma sessão profunda. Gosto que a pessoa tenha tempo para perceber a diferença, na prática, entre uma sessão e outra. Qualquer pessoa pode ser submetida. Talvez a exceção sejam algumas grávidas e pessoas em estado de psicose. 

3- Inicialmente, a formação em AIM era voltada para psicólogos, psiquiatras, médicos. Que contribuição espera ou já tem colhido a partir dessa abertura para "curadores em geral", como o senhor mesmo diz, profissionais das chamadas linhas integrativas?

A psicoterapia é, tradicionalmente, da seara dos psicólogos, mas fato é que problemas emocionais estão no consultório de muitas pessoas, além de somente eles. Muitas pessoas têm problemas emocionais ou psicossomáticos, mas não procuram terapia. E essa é uma das razões pelas quais resolvi abrir e ensinar para outros. Muitos psicólogos também não têm formação suficiente para lidar com memórias, com esses novos conceitos da neurociência e da psicologia. Também percebi que quem trabalha com terapias integrativas têm muito mais facilidade para entrar nesse espaço de consciência e confiar no que vai acontecer durante o AIM, têm mais facilidade em se conectar com os pacientes sem ficar na obrigação de fazer alguma coisa. O que vejo é que psicólogos que foram treinados em técnicas, como por exemplo Terapia Cognitivo-Comportamental, têm mais dificuldade em confiar na consciência, acabam muito presos em protocolos rígidos. Coaches também têm feito AIM, e isso é muito importante. 

4- Pela experiência com outras outras ferramentas já usadas em consultório para tratar, por exemplo, estresse pós-traumático, e pelos anos de pesquisa em neurociência, quando o senhor percebeu que era necessário ter uma abordagem diferenciada e, digamos, dar mais autonomia à consciência no processo de cura?

Em 2014, comecei a usar Brainspotting, alé de técnicas que mudaram totalmente o meu jeito de atender. Passei a identificar causas dos problemas dos pacientes que nem imaginava que existiam, pois a abordagem da psiquiatria é muito voltada para sintomas. Em 2015, 2016 já fazia certa mistura das técnicas de processamento - Brainspotting, experiência somática e EMDR. Mas, em 2017, quando tive contato com a meditação não dual, que dá acesso direto à consciência, foi quando realmente nasceu a AIM como disciplina, como abordagem diferenciada dessas outras técnicas. É como se essa fosse uma grande jornada para dentro de si, como se fosse um grande filme, em que vamos descobrindo nossos monstros, fantasmas, vencendo as batalhas internas. Tudo isso se dá num território desconhecido, no inconsciente.

5- No livro Imersão, o senhor afirma que o corpo é a impressora da mente. Significa que é possível curar toda dor, mal, no corpo ao descobrir a raiz emocional, a situação traumática que foi o gatilho do problema?

Muitos dos problemas crônicos corporais, principalmente em pessoas até 55 anos, têm origem emocional em situações estressantes, traumáticas antigas ou recentes. Digo 55 anos porque até essa idade a pessoa ainda não está na velhice, logo problemas de dor ou psicossomáticos geralmente têm alguma causa emocional. Isso não quer dizer que pessoas mais velhas não os tenham, mas é mais comum que já entre na parte física de fato. Muitos dos problemas corporais, das doenças psicossomáticas, têm sido curados com AIM.

6- Quais são os males que mais afetam o ser humano, até de forma mais prolongada, digamos?

De maneira geral, diria que vêm do ego e isso é algo cultural. A maioria das pessoas fica presa ao ego e isso gera grande parte os problemas de depressão, ansiedade, comportamentos, drogas, problemas físicos, enfim. As pessoas ficam muito identificadas com performance e aparência, como se o valor delas dependesse somente do quanto é boa em performance e aparência.

7- Diante de tudo isso, como é possível nos blindar contra futuros traumas e dramas?

Promovendo a resiliência a partir da consciência e dessa profunda conexão que temos com nosso organismo, descobrindo e usando os recursos que ele tem para processar as coisas ao longo do dia. Quando mais aumentamos essa capacidade, mais processamos as adversidades do dia a dia. 

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