A humanidade é marcada por polarizações: Guerra Fria, Fla Flu, Deus e o diabo, Beatles e Rolling Stones e por aí vai. Na década de 2000 o mercado de games também vivia uma polarização “Medal of Honor” (Electronic Arts) e “Call of Duty” (Activsion). As franquias tiveram início na Segunda Guerra, mas em 2007 a Activision publicou a obra-prima “Call of Duty 4: Modern Warfare”, que riscou a Segunda Guerra dos games.

Apesar de “CoD4” ser apontado como o melhor game da série, foi “Call of Duty: Modern Warfare 2” que entrou para história, pelo excesso de violência. Não que os demais jogos sejam livres de brutalidade, mas “MW2”, publicado na primeira quinzena de novembro de 2009, trazia a mais explícita e covarde passagem da série, a missão “No Russian”.

A fase gerou polêmica em todo o mundo, pois colocava o jogador como um dos protagonistas de um massacre de civis em um aeroporto. Segundo a produtora Infinity Ward, a ideia era mostrar a atrocidade de um atentado, algo executado por seres humanos. Argumento que não foi engolido por autoridades e nem por grande parte da mídia.

Pano de fundo
No game, há uma tensão entre Estados Unidos e Rússia, e essa missão é o estopim para um crise bélica, que levaria a uma invasão aos EUA. Nela o jogador assume o papel de um agente da CIA infiltrado. Ele acompanha um grupo terrorista comandado pelo vilão Makarov, que orienta aos companheiros não falar russo. Daí “No Russian”, para criar um cenário como se os americanos tivessem cometido o atentado.

Assim, Makarov e sua turma invadem o terminal e abrem fogo contra civis. O jogador pode ficar apenas observando ou participar da matança. Caso tente conter os comparsas, será executado</CW>. 

Na época, a fase gerou polêmica (e com toda razão), principalmente na Rússia, onde o conteúdo foi considerado desrespeitoso e a fase foi retirada da versão para aquele país. 

Diversas entidades consideraram o trecho do game excessivo, como a British Board of Film Classification (BBFC), que classifica a faixa etária das produções em vídeos no Reino Unido. Segundo ela, “No Russian” é: “A brutalidade evidente nesta missão concentra-se na ‘inflição de dor ou lesão’ que, juntamente com a natureza perturbadora do cenário que ela cria, foi considerada mais apropriada na categoria adulta”, elevando a classificação do game para maiores de 18 anos. 

Na Austrália, o órgão de classificação etária considerou que a fase transforma o jogador em “terrorista virtual”. Na época, a Infinity Ward disse que a fase era necessária para criar um vínculo do jogador com o vilão. Para amenizar a polêmica, o game contava com um aviso de “conteúdo perturbador”, que permite bloquear a fase. Aliás, pular a fase não muda em nada a experiência de jogo, o que prova que o conteúdo sempre teve um caráter sensacionalista, bem além do narrativo.</CW> 

Mesmo assim, a fase foi mantida em nome da estética. Em 2011, um norueguês, Anders Behring Breivik, que na época tinha 31 anos, cometeu dois atentados que deixaram 77 mortos em Oslo e na ilha de Utoya. Em depoimento, o terrorista afirmou que tinha se inspirado na fase “No Russian” de “MW2”. 

Após 10 anos do lançamento de “Call of Duty: Modern Warfare 2”, “No Russian” mantém aberta a discussão sobre quando a espetacularização ultrapassa a barreira do bom senso.