Espinha dorsal da personalidade humana, a autoestima é construída ao longo da vida. Para identificar gatilhos que a tornam baixa, frágil ou que dificultam a percepção do que podemos mudar para nos sentir bem, terapias convencionais podem ser caminhos por vezes demorados e caros. Para o médico psiquiatra, PhD em neurociência, professor, palestrante e escritor Diogo Lara, ferramentas holísticas podem significar um salto no processo de cura. Na última semana, ele esteve em Belo Horizonte para autografar o recém-lançado “Imersão”, romance terapêutico focado na autoestima. Além da ficção como ferramenta de apoio, Diogo Lara cita o Cíngulo, aplicativo de autoconhecimento para promover a saúde emocional.

A autoestima é sempre ponto nevrálgico na construção e no desenvolvimento do ser?
Com certeza. É o eixo da personalidade, a maneira como me concebo, como me relaciono, como me sinto. É quem sou.

E de que forma acontece? Como lapidar ou relapidar a autoestima?
Pelos processos de autoconhecimento. O mais importante é a pessoa se dar conta das características que tem e não se defender das mudanças. Psicoterapia é o processo mais clássico, mas no território de autoconhecimento sem apoio de um terapeuta, o Cíngulo e o livro seriam os mais indicados.

O app Cíngulo, desenvolvido pelo senhor, veio dessa ideia de encurtar caminhos, municiando as pessoas com ferramentas para perceber-se e curar-se?
A intenção é fazer com que as pessoas usufruam das melhores ferramentas e técnicas da psicologia moderna com privacidade, conforto, segurança e preço acessível. Sou fã de terapia, acho experiência muito rica, mas precisamos entender que nem todo mundo tem dinheiro suficiente, tempo ou acesso. No app, essas barreiras vão embora e é possível usufruir de toda a evolução da psicologia, das neurociências e da consciência por conta própria. A pessoa deixa de ser refém de si mesma para ser protagonista da melhora. O Cíngulo promove autoconhecimento e ajuda na conquista de bem-estar emocional, de uma vida mais plena e adaptada.

“A maneira madura e saudável de lidar com emoções negativas é dando espaço a elas, deixando-as acontecerem, percebendo-as no nosso corpo de maneira não julgadora”

O processo de reconhecimento de quem se é, da reconstrução da autoestima, leva tempo?
É constante. Diria que, no geral, ao longo da vida, vamos passando por um processo de autoestima. Pesquisas mostram que o ápice da autoestima é aos 60 anos, quando abrimos mão de uma série de bobagens onde ancorávamos valores e questões como beleza, performance, popularidade, passando a ancorar valor em nós mesmos.

Mulheres têm autoestima mais facilmente abalada ou esse é mais um mito da guerra entre os sexos? 
Sim. Das questões básicas de personalidade, essa é a única em que há certa diferença entre homens e mulheres, que tendem a ser mais sensíveis a críticas, ofensas, se magoam facilmente e se preocupam mais com a opinião alheia.

Por que isso acontece?
A mulher, em geral, tem sensibilidade social e afetiva maior, repara mais, consegue perceber emoções com mais sofisticação. O homem tende a se voltar mais para o mundo material. Homens têm a autoestima bastante abalável quando se fala em performance, mas talvez consigam separar um pouco mais a crítica ao comportamento da que é feita a si como pessoa. Mulheres são 10% mais sensíveis.

Diogo Lara
Recém-lançado, Imersão é um romance terapêutico que utiliza a ficção para promover o autoconhecimento

É possível que uma mesma pessoa tenha autoestima baixa e frágil?
Sim, ambas podem coexistir, pois são eixos diferentes da autoestima. Existe o eixo, digamos, da altura; se é muito alta, muito baixa ou moderada. E outro, da qualidade, que tem a ver com o quanto ela é saudável, com o quanto a pessoa consegue ser segura de si e menos dependente do outro. Somadas, as duas características são mais complicadas. 

Vemos, hoje, a propaganda e a sociedade dos likes vinculando cada vez mais autoestima ao consumo daquilo que supostamente nos deixaria mais belos, poderosos e que, pretensamente, nos faria pertencer a determinado grupo. São de fato armadilhas que deixam o ser humano viciado em altos e baixos de bem-estar e autoaceitação? 
É uma situação muito delicada. Somos sociais e afetivos e, por isso, temos certo grau de dependência da opinião alheia. Outro aspecto é que temos instinto de ranqueamento. Com as redes sociais, em função de ganhar um certo status e de ter a recompensa de ser aprovado, cool, as pessoas estão ficando viciadas nisso. Em várias características da nossa personalidade, a imagem perante o outro está sendo muito inflacionada. Isso deixa as pessoas reféns e altamente sensíveis, pois passam a depender da aprovação alheia. A questão é que isso também as deixa vulneráveis à desaprovação.

“O ápice da autoestima é aos 60 anos, quando abrimos mão de uma série de bobagens e passamos a ancorar nosso valor em nós mesmos”

Quais são os principais sintomas de uma pessoa com dificuldade para estimar a si mesma?
Um é a pessoa querer se afirmar, ser mais que os outros e isso tem a ver com autoestima alta. É tentar colocar os outros para baixo e se enganar querendo achar que é mais do que é. Outro é a autoestima frágil, é ser muito sensível a críticas e rejeições, criticar-se demais, querer agradar e não poder desagradar quando necessário. E tem a autoestima baixa, a não valorização de si mesmo, o sentimento de inferioridade. E importante entender que para todas elas o caminho de resolução é o mesmo: procurar desenvolver os pilares da autoestima.

Quais pilares são esses? 
Existe a autoaceitação, o quanto a gente lida bem com nossos defeitos. O autorrespeito, como zelo por mim frente a uma pessoa em particular que tenta me explorar. A autoempatia, o quanto consigo me perdoar quando erro. O auto-merecimento, o quanto me sinto merecedor de receber coisas boas e perceber minhas qualidades. A autoeficácia, a confiança que tenho de que vou conseguir fazer as coisas que preciso. E a autenticidade, o quanto sou verdadeiro na relação comigo e com as outras pessoas. 

No livro “Imersão”, o senhor fala da importância de dar espaço às emoções negativas, sem defesas, como parte do processo de cura, e oferece técnicas que podem ser usadas pelo leitor. Como fazer esse mergulho em si mesmo de forma, digamos, segura, para construir ou reconstruir a autoestima? 
As emoções negativas têm papel fundamental na nossa vida. A evolução as preservou porque são úteis, do contrário tudo seria um mar de rosas. Mas a vida tem perigos, sofrimentos, dilemas, problemas. E precisamos ficar em paz com essas emoções negativas. Tendemos a lidar com as questões difíceis evitando o contato com elas ou suprimindo as emoções, tentando não senti-las ou compensando-as – comendo demais, comprando demais. Ou seja, desviando a atenção.

Como lidar com isso de maneira saudável? 
A maneira madura, adaptativa e saudável de lidar com emoções negativas é dando espaço a elas, reconhecendo, permitindo, deixando-as acontecerem, percebendo-as no nosso corpo de maneira não julgadora. Não é preciso dramatizar, mas observar essas emoções e o que elas querem nos dizer, para que estão servindo. Isso acontece no dia a dia.

Como geralmente nos defendemos, evitando certas emoções, quais são as estratégias de fuga mais recorrentes e como percebê-las?
As defesas são evitar, suprimir sentimentos em relação a uma situação e também as fugas por compensação, por meio de comida, de compras, drogas, festas. São coisas que nos desconectam da questão que incomoda. A pessoa tende a usar uma ou duas dessas estratégias como padrão.

Se o corpo é a impressora da mente, enquanto não somos capazes de identificar onde exatamente registramos certo trauma não conseguimos avançar na cura?
Nosso corpo regula tudo, é por onde as emoções se expressam. Algumas pessoas não conseguem perceber o corpo mesmo em situações emocionais mais fortes. Diria que quando começamos a nos abrir para essa possibilidade, passamos a perceber os sinais. O mais comum é que o corpo fale demais, reaja fortemente, e isso às vezes é muito desconfortável.

App Cíngulo de Diogo Lara
Aplicativo Cíngulo é uma ferramenta que auxilia na busca por autoconhecimento e autoaceitação

A tendência a se culpar, se criticar demais e se sentir carente, características que tanto abalam a autoestima, são heranças apenas da religião?
A culpa é um sentimento normal nosso, assim como a tendência a se criticar. Mas vem muito da interação entre as pessoas, é uma emoção que nos protege de não sermos malvados com os outros. Muito disso tem a ver também com a infância. Até os 6 anos, elas se culpam por coisas que não têm a ver com ela. Tem muito de fisiológico, de natural na culpa, na origem dela, e que está nas nossas primeiras relações. A religião pode exacerbar essas questões. Mas existem ganhos no sentido de estabelecer a moral da sociedade. 

Quer dizer que existe o lado bom da culpa?
Em situações pontuais, no contexto certo, a culpa tem seu papel. Se ninguém tivesse culpa de nada, não sentisse vergonha de nada, o mundo seria muito mais caótico, mais complicado. O problema é quando há um padrão de se sentir culpado por qualquer coisa, até por atos neutros. 

No livro há certa crítica ao tempo e ao custo das terapias convencionais. Hoje, podemos ir mais rápido e até de forma menos indolor com as chamadas terapias alternativas? Quais as diferenças entre métodos convencionais e não convencionais?
Em relação às terapias convencionais, houve uma série de aprendizados desde a psicanálise. Freud inventou esse processo terapêutico e houve uma série de terapeutas, pensadores e linhas que avançaram e que são importantes. O que chamo de abordagem integrada da mente é poder tirar o melhor de cada uma delas sem comprar a ideia de que há uma única que funciona. Estamos passando por uma revolução no campo da psicologia e das neuroci-ências e no que chamo de consciência e das técnicas que nos dão acesso a ela de forma muito mais rápida, profunda e direta. Essas técnicas e abordagens têm apresentado resultados mais contundentes, profundos, consistentes e persistentes com menos sessões. Algumas são mais indolores, outras, mais fortes, como uma cirurgia emocional.

Quais as principais diferenças entre as duas abordagens? 
Métodos convencionais se apoiam no pensamento, enquanto os não convencionais entendem que o pensamento é muito limitado. A neurociência tem vários estudos mostrando que o pensamento brota das nossas emoções, memórias e também da nossa sensação corporal. Ou seja, nosso estado de humor, nosso emocional e nossas memórias influenciam enormemente nosso pensamento. As técnicas modernas exploram outros canais de acesso ao nosso conteúdo psíquico, o próprio corpo, emoções, memórias e o acesso à consciência. Os métodos clássicos levam tempo, mas conseguem chegar a alguma clareza do que aconteceu. Porém, têm pouco impacto na mudança emocional, de personalidade e comportamento.

Seu curso Abordagem Integrada da Mente é destinado a diferentes profissionais, psicólogos ou não. De que maneira assuntos que fazem parte do universo da psicologia são abordados com terapeutas que não têm a formação acadêmica? 
Percebi que não há muita diferença entre ter ou não formação em psicologia, que depende muito mais do talento e da capacidade de se criar uma sintonia com o paciente. Precisamos de mais pessoas usando esse tipo de técnicas, tão efetivas e que, ao meu ver, são revolucionárias na área da psicologia e da neurociência.

"Em várias características da nossa personalidade, a imagem perante o outro está sendo muito inflacionada, o que deixa as pessoas reféns e altamente sensíveis”

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