O mercado de games tem uma peculiaridade que não se vê nos demais segmentos da indústria do entretenimento. Trata-se da perecibilidade acelerada dos produtos. Não que games sejam comparados a laticínios, mas eles envelhecem muito rápido e muitas vezes perdem o encanto e interesse do público. No cinema, na música, no teatro, na literatura e na TV a idade não é um fardo. 

Pelo contrário, na maioria das vezes esses produtos se tornam atemporais. Como dizer que “Dark Side of the Moon” é um disco velho? Ou afirmar que “Cidadão Kane” é um filme menor por ter sido rodado há quase 80 anos? Tente apontar que “Hamlet” é inocente, pelo simples fato de ter sido escrito no século 16? Pior, tente convencer a qualquer um que “Édipo Rei” é um livro inferior a porcarias, como “O Crepúsculo”, pelo fato de ter sido composto por Sóflocles em 427 a.C, quando se grafava em pergaminhos? São obras atemporais, assim como “O Bem-Amado”, que a cada dia nos convence de que Dias Gomes era um vidente da teledramaturgia.

No caso dos games, a qualidade gráfica, as mecânicas de jogo são elementos que podem condenar um game a curto prazo. Por exemplo: “Red Dead Revolver”. O game de estreia da bem-sucedida franquia da Rockstar tem uma história fascinante, mas com gráficos repulsivos para os dias de hoje. A jogabilidade também é pouco atraente para os padrões atuais e não se compara com o impecável “Red Dead Redemption 2”.

Mas há games que vencem a barreira do tempo. E um deles é “Doom 3”, título que completa 15 anos hoje, 3 de agosto, e que acabou de receber uma reedição para PS4 e Xbox One. Desenvolvido por nomes como Tim Willits e John Carmack, recebeu diversos prêmios em 2004 e notas elevadas em diversas publicações. No Metacritic, que agrega notas de publicações e usuários, anota 87 pontos (PC) e 88 pontos (Xbox). 

O monstro

“Doom 3” foi um game tão importante naquela época que, em 2006, quando a Intel apresentou os processadores Core 2 Duo e Core 2 Extreme, “Doom 3” foi utilizado para demonstrar o poder de fogo dos chips. Ele era um game pesado, que demandava máquinas robustas, com 512 MB de RAM, um processador Pentium 4. Hoje são peças de museu, mas eram sonhos de consumo na primeira metade dos anos 2000. E quem quisesse explorar todo potencial gráfico do game precisava ir além e investir em placas gráficas, o que poderia significar até a troca do placa mãe e novos pentes de RAM. 

Mas toda essa exigência tinha razão. “Doom 3” ainda é um game que prima pela qualidade gráfica. Desenvolvido com o motor gráfico id Tech 4, oferecia excelentes gráficos, física muito bem reproduzida e ótima sonoridade.

A história

O game se passa num futuro não muito distante, em que a humanidade estabeleceu colônia em Marte. As instalações eram exploradas pela Aerospace Corporation (UAC). O jogador assume o papel de um fuzileiro colonial que é destacado para servir na base marciana. 

Acontece que os engenheiros tinham encontrado um artefato alienígena que, segundo as transcrições, permitia teletransportar matéria. A UAC então decidiu construir uma máquina que faria uma ponte entre Marte e a Terra. Pouco depois que o protagonista se instala no planeta vermelho, os cientistas realizam o primeiro teste. E foi nesse momento que a coisa fedeu. Ao invés de transportar os colonos para a Terra, a máquina abriu o portal do inferno e infestou as instalações com criaturas demoníacas. Aí a brincadeira começa.

No breu

Em 2004, “Doom 3” era um game assustador e hoje ainda é. Cenários fechados e escuros praticamente obrigam o jogador a apagar as luzes para poder enxergar. Para auxiliar na visão, o jogador pode utilizar uma lanterna, que tem bateria “viciada” e descarrega em poucos segundos. E se não bastasse, brotam capetas a todo tempo.

“Doom 3” combina o melhor dos games de tiro da velha guarda com exploração e um enredo fantástico. Para entendê-lo, o jogador precisa ficar atento a monitores e assistentes de pessoas (PDAs) dos colonos. Nesses dispositivos há informações sobre o que aconteceu na base e informações úteis – direções para armários de armas, códigos de acesso, dentre outros dados que podem facilitar a vida do jogador.

Armas

Matar demônios não é fácil e o jogador tem à mão armas como escopeta, metralhadora, rifle de plasma, lança foguetes e até a poderosa BFG 9000, um canhão desenhado no primeiro episódio da série que é capaz de dizimar tudo o que estiver no cenário. Tê-las é fundamental para dar conta das criaturas que parecem ficar maiores e mais fortes a cada setor concluído.

Grande, “Doom 3” se espalha por uma imensa instalação repleta de corredores, galpões e linhas industriais, mas há cenários externos e até mesmo uma voltinha no inferno. É um game que garante dezenas de horas de imersão. 

Para quem quiser conferir, vale a pena apostar em uma das edições de PS4 ou Xbox One, que custam apenas R$ 30. Uma verdadeira ninharia para um game que se nega a se curvar diante do tempo, como o álbum branco dos Beatles.