Elza Soares tem certeza de que Deus é mulher porque “só uma mulher é capaz de sofrer tanto e colocar o mundo pra frente ao mesmo tempo, sem ‘arregar’”. É o que diz, sem meias palavras, ao Hoje em Dia. Aos 88 anos — faz 89 em 23 de julho —, a cantora mantém a voz rouca afinadíssima e reforça o discurso feminista no mais recente disco, “Deus é Mulher”, que tem show apresentado pela primeira vez em Belo Horizonte, neste sábado (11) à noite, no Sesc Palladium.

Na capital mineira, Elza recebeu o título de cidadã honorária nessa sexta-feira (10), em cerimônia na Câmara Municipal, a pedido do vereador Gilson Reis (PCdoB). Cercada de artistas e amigos mineiros, como Toninho Horta e Maurício Tizumba, a cantora carioca fez jus à própria família, que tem fortes raízes nas Alterosas. 

“Na minha casa, até a comida é mineira, todo mundo é mineiro. Minha avó é de Montes Claros e, recebendo esse título, me sinto vingada. Porque eu nasci carioca por acaso, uai”, brinca.

“Deus é mulher” está longe de ser apenas uma frase de efeito. O álbum lançado em 2018 é uma espécie de continuidade do aclamado “A Mulher do Fim do Mundo” (2015), o primeiro disco de inéditas de Elza Soares em mais de meio século de carreira, consagrado com o Grammy Latino de melhor disco de Música Popular Brasileira em 2016.

No novo trabalho, a voz rouca de Elza é projetada para denunciar sobretudo as subjugações impostas às mulheres, o preconceito com religiões de matrizes africanas e os feminismos que cercam o discurso de uma artista que ficou conhecida como cantora da fome, teve a casa metralhada pela ditadura militar e assistiu à morte de quatro filhos —incluindo o bebê que teve com o jogador Garrincha, com quem Elza viveu um relacionamento conturbado.

“Eu só estou aqui, viva, por causa de uma mulher. Todos nós. Então, depois de tudo que passei na vida, da fome às mortes quase insuportáveis, reconheço que a força da mulher é incomparável à de um homem”, atesta.

No novo show, Elza Soares trocou o visual dark e o cabelo roxo dos últimos anos por um figurino branco, abarcado por uma cabeleira loira, “mais solar e positiva”, em sua própria definição. Mas continua com uma “atitude punk”, como ela pontua a atual fase da carreira.

“Em ‘A Mulher do Fim do Mundo’ eu precisava de algo mais pesado, precisava chamar a atenção de um jeito sombrio mesmo porque o feminismo estava entrando em pauta de uma forma avassaladora. Agora, quis uma leveza maior, algo mais solar, mas ao mesmo tempo falando sobre coisas duras, sobre opressões que nem deveriam existir contra as mulheres, os negros, as minorias, mas persistem nas nossa sociedade. Por isso continuo cantando”, justifica Elza.

Espetáculo

Por causa de problemas na coluna — a cantora passou por três cirurgias desde que caiu no palco do Metropolitan, atual Citibank Hall, no Rio, em 1999 — se mantém sentada em uma espécie de trono durante toda a apresentação, um simbolismo que reforça o pedestal incontestavelmente ocupado por uma artista que não pensa em parar. O próximo disco, inclusive – que ela mantém em segredo, mas em que pretende repassar toda a carreira, de Ary Barroso a Vander Lee – terá uma prévia no Rock in Rio, que acontece em setembro, na capital carioca.

“O único problema que tenho é levantar. Porque de cantar eu não paro nunca. A voz continua querendo gritar pra caramba. E eu continuo eufórica pelos shows. Tanto que não quis esperar o ano que vem para mostrar meu novo projeto. Vai ser no Rock in Rio”, adianta Elza.

No palco, misturando guitarradas de rock com samba e até música eletrônica, a cantora apresenta canções que falam sobre o Brasil oprimido (“O que se cala”), intolerância religiosa com as crianças (“Exu nas escolas”) e a força das mulheres em “Banho”, que tem letra da cantora e compositora Tulipa Ruiz. 

Ao lado de um time de peso, Elza vem acompanhada do baterista Guilherme Kastrup, que produziu o novo disco, e os músicos Mestre DaLua (percussão), Rafa Barreto (guitarra e sintetizadores), Luque Barros (baixo e sintetizadores) e Rodrigo Campos (cavaquinho e guitarra). “Os músicos são todos homens, mas à serviço das mulheres”, completa Elza, no costumeiro tom provocativo e espirituoso que mantém a fama da deusa da MPB.

Serviço

Elza Soares apresenta o show “Deus é mulher” no Sesc Palladium (avenida Augusto de Lima, 420, Centro), a partir das 21h30. Os ingressos variam de R$ 150 (inteira para Plateia I) até R$ 45 (meia para Plateia III).