Se me pedissem para fazer uma lista com os 10 melhores games que já joguei, é certo que "Fallout 3" estaria nessa listagem. O game está para a franquia da Bethesda, assim com "GTA 3" está para série da Rockstar. Isso porque mudou a estrutura de jogabilidade, com a fusão do RPG, mundo aberto e tiro. Daí, se derreter por "New Vegas" e "Fallout 4" foi bastante natural. O problema é que a mesma empatia não aconteceu como "Fallout 76".

E a razão é simples: a Bethesda resolveu expandir o universo pós-apocalíptico da série para um RPG online, aos moldes de "World of Warcraft" e "GTA Online". A ideia era que se formassem grandes comunidades, imbuídas na construção de um mundo novo, pegando como gancho a criação de vilarejos em "Fallout 4". 

Mas, como na humanidade, o que se viu foi o conhecido "cada um por si". Topar com jogadores não raro, mas também nunca foi algo corriqueiro. Além disso, que está no jogo quer saber é de matar criaturas bizarras como necróticos e mutantes. Ninguém está interessado numa amizade duradoura e muito menos inaugurar um condomínio.

Deixa para depois

E se não bastasse, faltava propósito ao jogador. Neste game, o jogador não tem uma jornada heróica. Nele, você é o último habitante do Vault 76, e quando você deixa o abrigo, ele é selado. A partir daí, o jogador deve se virar para sobreviver. Assim, basicamente sua vida em "Fallout 76" se resume a encontrar sobras, construir um muquifo e procurar sucatas. As poucas tarefas, muitas vezes ficavam longe demais para encorajar o jogador a sair perambulando pelo mapa. 

Outra falha foi o "olho grande" nas transações internas. A Bethesda ganhou muito dinheiro vendendo miudezas em "Fallout Shelter". Ela viu que poderia expandir isso em "76". E como vender vantagens poderia arrasar o jogo, ela investiu pesado em cosméticos. Assim, fez do game uma respeitada loja de departamentos, com mobílias, roupas, enfeites e tudo mais para transformar seu barraco numa propriedade moderna. 

No entanto, se fossem só esses problemas, seria bom. "Fallout 76" estreou com incontáveis falhas de jogabilidade, gráficos, física, problemas constantes de servidores, que levou o estúdio a reembolsar quem se sentiu lesado com o game. De lá para cá foram várias atualizações, que corrigiram as falhas técnicas, mas não foram capazes de resgatar a comunidade.

Ação emergencial

Assim, vendo que poderia afundar de vez sua franquia a Bethesta desenvolveu uma gigantesca atualização "Wastelanders", um pacote de quase 80 GB que incluiu o que deveria ter adicionado no lançamento. NPC's (personagens não controláveis) e suas dores, que se traduzem em missões. 

A inclusão de novos conteúdos e tarefas deu vida nova ao game. Agora o jogador interage com os com esses personagens e pode abrir um leque imenso de oportunidades, como acontece nos três episódios anteriores. São missões que se arrastam pelo grande mapa, e que permitem que o jogador descubra novas localidades, encontre outros personagens e tarefas que estavam perdidos na vastidão dos Apalaches. 

Preços

O conteúdo é gratuito e não exige passe de temporada e outras cobranças que fazem parte do universo do jogo. No entanto, com a chegada da atualização, algumas versões acabaram encarecendo. A versão para PS4 custa R$ 249, na PSN, bem acima do que é cobrado na Steam (PC) e na Xbox Live (Xbox One), em que são oferecidos por R$ 155. 

A boa dica é que a edição original de "Fallout 76" encalhou na praça. Em sites de varejistas, a cópia para PS4 varia de R$ 45 a R$ 70. E mesmo que o frete salgue a conta, ainda sim é muito mais barato que comprar na PSN.

Palavra final

O grande erro da Bethesda foi criar um produto com foco em transações internas. "Fallout 76" parece um shopping abarrotado de inutilidades como trajes, abajures, penteados, gestos, tatuagens e uma infinidade de quinquilharia para decorar seu abrigo. Afinal, quando alguém se dispõe a jogar um game pós-apocalíptico, com mutantes, escopetas de dois canos e armaduras pesadas, você não quer saber se o papel de parede vai combinar com sua cadeira Petit Modèle, o uma confortável poltrona Renzo Frau. Você apena munição! 

Ou seja, agora dá vontade de jogar "Fallout 76", pois não existem mutantes radioativos e nem armaduras potentes na Leroy Merlin ou na C&A.