A riqueza do Cinema Fantástico Brasileiro, que produz filmes recheados de fantasia, ficção-científica e horror, acaba de ser reunida em uma lista que destaca 100 deles como os melhores do ramo. A seleção feita pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine), que vai virar livro, traz no topo “À Meia Noite Levarei sua Alma”, do icônico José Mojica Marins, o Zé do Caixão, morto em 2020.

Essa produção de Zé do Caixão inaugurou o gênero de horror no Brasil, em 1964, apresentando o personagem Zé do Caixão. “Mojica sempre lutou muito com a falta de recursos, “À meia noite levarei sua alma” foi o primeiro longa de horror dele. Antes, já havia feito um faroeste e um melodrama religioso”, conta o crítico de cinema Gabriel Carneiro, um dos organizadores do levantamento e do livro – ao lado do jornalista Paulo Henrique Silva.

“Muita coisa se queimou, muita coisa foi vendida. Os cineastas vendiam a película para fazer esmalte, por exemplo. Como o filme já havia rodado o circuito e não rendeu dinheiro suficiente, não tinham onde preservar. Poucas coisas dessa época sobreviveram”, lamenta Gabriel Carneiro

A pesquisa que confirma Mojica com o mais importante ator e cineasta do gênero traz ainda, dele, “Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver” (1967), na segunda posição; “Ritual dos Sádicos” (1969), em décima; “O Estranho Mundo de Zé do Caixão” (1968), na 11ª; “Encarnação do Demônio” (2008), o último longa de Marins, em 17ª; e “Exorcismo Negro” (1974), em 30ª.

A lista também inclui episódios dirigidos por Marins em filmes coletivos, como “Trilogia do Terror” (1968), dividido com Luiz Sergio Person e Ozualdo Candeias, na 25ª posição, e “As Fábulas Negras” (2015), com Joel Caetano, Petter Baiestorf e Rodrigão Aragão, na 57ª.

Filme Trabalhar cansaFilmes como "Trabalhar Cansa", dos cineastas Juliana Rojas e Marco Dutra, são destaques do Cinema Fantástico Brasileiro contemporâneo

A dupla Juliana Rojas e Marco Dutra, que, na última década, vem se especializando no horror ligado a tensões sociais, emplacou dois filmes no top cinco, com “As Boas Maneiras” (2017), na terceira colocação, e “Trabalhar Cansa” (2011), na quinta. Rojas e Dutra tiveram outros longas e curtas na lista: “O Duplo” (2012), em 14º lugar; “Quando Eu Era Vivo” (2014), em 16º; “Sinfonia da Necrópole” (2014), em 50º; e “Um Ramo” (2007), em 69º.

Surgimento
Há indícios de que o Cinema Fantástico Brasileiro tenha surgido no início dos anos 1900, desde o cinema silencioso, informa Carneiro. A preservação dos filmes, explica, é algo que dificulta o mapeamento da história do cinema brasileiro, de maneira geral.

“Muita coisa se queimou, muita coisa foi vendida. Os cineastas vendiam a película para fazer esmalte, por exemplo. Como o filme já havia rodado o circuito e não rendeu dinheiro suficiente, não tinham onde preservar. Poucas coisas dessa época sobreviveram”, lamenta Carneiro.

Mesmo com esses sinais de que o Cinema Fantástico Brasileiro venha do começo dos anos 1900, o crítico frisa que ele começa a ser pensado no meio de 1930 para 1940. “O mais antigo preservado é ‘O jovem tataravô’, comédia sobre invocação de um espírito, dirigida por Luiz de Barros”, informa.