São 16h de um sábado, dia 24 de maio, e a pequena, atenta e animada Elis, de 3 anos – completará 4 em julho –, está de frente para uma tela. Do outro lado, o motivo do olhar compenetrado, das risadas e dos gestos da garota: a live do espetáculo infantil “Os Saltimbancos”. “Acho de extrema importância a criança ter contato com as artes desde cedo”, comenta a mãe dela, Sílvia Vasconcelos Maia. “Sempre levamos a Elis a exposições, peças de teatro, shows... Atualmente, nessas circunstâncias mundiais, isolados em casa, as lives ajudam a nos manter em contato com as artes”, complementa a dentista, que acompanha as transmissões ao lado da filha.

Assim como Elis, tantas outras crianças absorvem cultura por meio de lives de artistas durante o período de pandemia. “É o ideal? Claro que não. O ideal é que a criança tenha contato com o espaço do teatro, do museu... Mas neste momento não é possível. Acredito que seja uma situação transitória, então as lives estão sendo muito úteis nesse sentido. Não posso negar que a tecnologia tem ajudado. Ela adora, e eu assumo que curto também”, diz Sílvia.

A dentista, apesar de ser a favor das lives para crianças, faz um alerta: “Tudo tem que ser em doses homeopáticas, não dá para colocar a criança na tela direto. Mas eu gosto de assistir com a Elis, a família como um todo acaba se envolvendo”.
Preocupação esta que se faz acertada, como destaca Liubiana Arantes, PHD em neuropediatria e presidente do departamento científico de pediatria do desenvolvimento e comportamento da Sociedade Brasileira de Pediatria. “Antes preconizávamos um tempo mais restritivo de tela, diante de estudos científicos que mostram que o tempo em excesso de exposição às telas pode prejudicar a formação do cérebro das crianças. A orientação é que crianças até 2 anos não sejam expostas à tela; que as de 2 a 5 anos fiquem no máximo uma hora por dia; e a partir de 5 anos, no máximo duas horas por dia. E sempre com conteúdo pedagogicamente adequado, evitando conteúdos que possam ter violência, bullying ou sexualidade. Um controle parental é fundamental nessa abordagem”, afirma.

A duração das lives é algo que está no radar de Fernando Bustamante, ator, diretor e produtor da Cyntilante Produções, uma das companhias de teatro engajadas em lives. “Nós temos um cuidado de adaptar nossos espetáculos, e tudo que a gente já tem de repertório, da forma mais adequada para a plataforma digital. Porque, num primeiro momento, o excesso de eletrônicos na vida das pessoas acaba sendo nocivo. Então a gente tenta dentro desse conteúdo não exagerar no tempo de duração, tentar condensar em 40 minutos, tempo razoável para que as crianças fiquem de frente para as telas”, explica.

Mãe e filha

Elis e Sílvia

Flexibilização e equilíbrio

Por outro lado, a doutora admite que, durante esse período de pandemia, pode-se abrir uma ou outra exceção, no sentido de flexibilização das horas, mas também nada exagerado. “Esse período de pandemia exigiu modificação abrupta da rotina das crianças. Pode-se lançar mão, sim, de uma flexibilização, porque as crianças estão confinadas em casa, e isso restringe o acesso ao mundo externo. Lives culturais são sempre bem vindas. Só que o equilíbrio de tempo de tela é importante, até porque há crianças que também ficam expostas à tela para assistir aulas e fazer tarefas online. É preciso bom senso”, salienta. “Outra forma (de passar cultura a uma criança) é associar uma live cultural a algum projeto dentro de casa. Depois de assistir a uma live, tentar fazer um projeto de teatrinho com a criança, tentando imitar o que viu. Ou, após ver uma live de museu, tentar fazer uma obra de arte...”, completa.

A flexibilização, aliada ao equilíbrio citado pela doutora, é algo adotado por Rafael Andrade, pai de Marcelo, de 2 anos, e João, de 12. “Minha esposa é médica, então eu fico boa parte da semana sozinho em casa com meus filhos, enquanto ela está na linha de frente trabalhando”, conta. “Trabalho o tempo todo em casa, porque tenho meu próprio negócio. Então, não trabalho oito horas, mas sim o dia inteiro. Então, se eu não flexibilizar um pouco as regras, eu não trabalho. O mais novo pede minha atenção o tempo todo. Então, nesse sentido, as lives e os conteúdos de streaming são grandes aliados. Mas estou sempre ali presente vendo o que ele está assistindo”, relata Rafa, criador do portal Sem Choro, surgido em 2014 e que reúne dicas e informações úteis para pais e mães.

Pai

Rafael Andrade e os filhos

Andrade, inclusive, se mostra a favor desse conteúdo artístico disponível para os jovens, sobretudo neste momento de pandemia. “Vejo as lives e os conteúdos de streaming como aliados. São doses de arte e entretenimento. Meu filho de 2 anos não se adaptou muito às lives, mas gosta de vídeos, é algo individual dele, temos que entender isso. Tem coleguinhas dele que estão adorando as lives, então creio sim que são coisas positivas”, ressalta.

Chapeuzinho Vermelho feminista

Preocupação dos artistas

Sócio fundador da companhia O Trem, responsável pela adaptação de clássicos como Chapeuzinho Vermelho versão feminista, Marcelo Carrusca percebe que as crianças têm recebido as lives de braços abertos. “O feedback tem sido muito interessante, através de hashtags que a gente coloca. Se você jogar no Instagram, vai ver que é muito legal como as crianças participam e os pais estão engajados. Os comentários no Instagram e no Facebook durante a live são também uma métrica para a gente ver o que está dando certo. Acho que a live é um formato que vai permanecer um tempo. Um caminho interessante para o futuro”, destaca.

Carrusca é também produtor e curador da live do Tiquequê, que terá transmissão neste domingo, a partir 16h, pelo Instagram. Aliás, durante as lives, será disponibilizado um QR Code do movimento Arte Salva dedicado a artistas e profissionais da cultura e turismo, que tem sentido bastante os efeitos da pandemia.

Saltimbancos

Os Saltimbancos

Nesta live do Tiquequê estará Diana Tatit, atriz e uma das fundadoras do grupo. “A arte é muito importante, não só para crianças, como também a adultos, e isso ficou bem evidente agora na pandemia, do quanto precisamos da arte com forma de compreensão. Ter uma boa produção artística para criança faz toda diferença, sobretudo por ser uma linguagem mais próxima da linguagem infantil, que não é tão racional quanto do adulto. A construção da fala é sempre permeada pela racionalidade e lógica. E a arte não segue a mesma estrutura lógica, então é muito próxima da criança que tem como linguagem fundamental a brincadeira, o poder fazer de conta, a imaginação...”, comenta.

Em suma, para Rafael Andrade, as lives se tornam um fator importante para a formação das crianças neste período de pandemia. “A maior preocupação, acredito, é nossa saúde mental. E a cultura e o entretenimento são grandes aliados, estão mostrando seu valor neste momento. Os pais deveriam se preocupar muito mais como seus filhos vão sair desse cenário enquanto cidadãos, aprendendo mais sobre arte e tendo criatividade”, finaliza Rafael Andrade.

Tiqueque

Tiquequê