MOSCOU – Conhecer a história da Rússia é obrigatoriamente passar pelo Museu da Vodka, no singular Mercado Izmailovo, Leste de Moscou. Mas o destilado símbolo do país não entra em campo sozinho. Na Copa do Mundo, quem deu as cartas foi a cerveja. Não faltaram opções, tamanhos, sabores e preços na capital do futebol em 2018.

Acostumados a se embriagar no frio com a “aguinha” que tem até 60% de teor alcoólico, os russos enfrentaram problema de ordem governamental para consumir vodca, cujo preço tinha alta taxação de imposto. A cerveja foi o caminho natural, mesmo que só passasse a ser considerada bebida alcoólica a partir de 2011.

Em qualquer supermercado russo das grandes cidades é possível se perder nas prateleiras dedicadas à loira gelada. Além de decifrar o alfabeto cirílico, o consumidor leva horas para escolher a marca predileta. A bebida é comercializada em latinhas de 350 ml, latões de 500 ml e até em super-latas (inexistentes no Brasil) como um “pequeno” barril de 5 litros. Nem mesmo as garrafas de plástico escapam de armazenar cerveja. No país da Copa, a marca mais popular é a Baltika.

O mercado doméstico guarda semelhanças com o brasileiro. Há as multinacionais Heineken, Budweiser e Stella Artois. O fenômeno por aqui, entretanto, são as chamadas Craft Beers – cervejas produzidas por microempresas ou até mesmo de forma caseira. Com preço mais alto e teor alcoólico igualmente superior, conquistaram pelo sabor.

“São feitas por pequenas empresas, de forma artesanal. O percentual de álcool é maior e tem um sabor mais rico, natural”, diz Eugene Mishenin, ao Hoje em Dia. Empresário do segmento de bebidas na conexão Moscou-São Petersburgo, Mishenin explica que, ao contrário do Brasil, cervejas com ingredientes nada ortodoxos são bastante consumidas na Rússia.

“No Brasil, consumimos bastante as cervejas brancas, clássicas. Eu prefiro as escuras. Há também as que chamamos de mistas, pois contêm elementos como café ou chocolate”, explica o especialista, nos remetendo ao estilo dry stout, popular na Irlanda e que expressa sabor torrado semelhante ao do café. 

30 dias de “indulto”

Na Rússia, assim como em BH, não se pode sentar na arquibancada com cerveja. O cenário, entretanto, foi alterado por exigência da Fifa, que se coloca acima das leis federais nas sedes da Copa. A Budweiser, por exemplo, enquanto patrocinadora da entidade máxima do futebol, é quem oferece a bebida aos torcedores nas praças esportivas.

Assim que o Mundial se despedir da Rússia rumo ao Catar, Eugene Mishenin terá de voltar à realidade de acompanhar o Spartak Moscou. A novidade é que frequentará o estádio Otkritie Arena novinho em folha – foi usado em cinco jogos da Copa. Por outro lado, sem poder saborear a bebida preferida, a menos que esteja disposto a pagar multa. 

Muitas cidades fabricam as próprias cervejas, comercializadas em território restrito

A punição para quem desobedece à regra de não beber nos estádios vai de 500 a 1.500 rublos (R$ 30 a R$ 93). Valores bem inferiores aos R$ 1.500 cobrados no Independência ou no Mineirão, mas igualmente penosos ao bolso dos soviéticos, cujos salários médios giram em torno de R$ 2 mil.

Cervejas na Rússia

Bebida é apresentada em diferentes versões: lata, garrafa, barril e até embalagem plástica

Sanduíche e donuts jogam sopa de beterraba para escanteio 

Quando Mikhail Gorbachev anunciou a chegada do McDonald’s à União Soviética, em 1990, mais de 30 mil pessoas correram para experimentar o sabor do Big Mac no restaurante da Praça Vermelha. Era o sinal de novos tempos. Hoje, as filas são mais modestas. O que não falta em Moscou são redes de fast food.

A nova geração nascida no capitalismo russo deixa borscht (sopa de beterraba), khachapuri (espécie de esfirra com ovo e queijo) e o tradicional estrogonofe de lado para invadir os KFC’s (rede norte-americana famosa pelo frango frito), Burger King e o mais famoso M dourado dos Estados Unidos. As redes avançam, inclusive, em relação ao Brasil. 

Para o turista, é o jeito mais fácil e barato, ainda que não seja o mais saudável, de se alimentar em Moscou. O atendimento é feito em caixas eletrônicos com menu mais variado do que o brasileiro. Até o café da manhã ganha de goleada. Um latte (expresso com leite) com donuts de brigadeiro e panquecas de leite (da culinária local) sai por apenas R$ 15. Dá para comprar também os famosos combos de sanduíche, refrigerante e batata frita. 

A bebida, sozinha, já é novidade para brasileiros em terras russas. Marcas que deixaram de circular no Brasil, como a Mirinda laranja, da Pepsi, e 7UP de limão são servidas em copos de 800 ml. Os animados podem pedir até cerveja nas lojas do KFC. Opção para acompanhar um lanche no verão russo. 

Os sanduíches são os mesmos dos cardápios de BH. Elaborados com carne bovina, se destacam dos restaurantes moscovitas inundados por porco, frango e peixe. Quem quer só “forrar” o estômago e fazer jus ao estilo fast da refeição pode pedir palitinhos de frango ou “moedas” de queijo com jalapeño. Para adoçar a boca, inúmeras sobremesas, de pastéis recheados com geleia de morango a brownies, sundaes e cheesecakes.

Fast food na Rússia
Donut de chocolate e panqueca de leite são "atrativos" de fast food russo

Além disso:

Na Rússia, bebida alcoólica e comida andam de mãos dadas. O alto consumo de cerveja e vodca só perde para as refeições. Pesquisa do Instituto de Análise Social e Econômica do país, há dois anos, mostrou que os russos gastam 50,1% dos salários em alimentação. E os lanches rápidos se sobressaem pelo custo acessível. Com menos de R$ 30, dá para saborear um sanduíche de grande porte, refrigerante de 800 ml com batata frita e sobremesa.

Um dos fatores que justifica a voracidade estomacal da população é o rigoroso inverno. Além disso, tal porcentagem é reflexo da pobreza crescente no país, algo acobertado no período da Copa do Mundo.

E se o amigo resolver passear por terras russas, fica a dica: no fast food, não se assuste se ganhar um par de luvas da látex. É uma cortesia para saborear o lanche cheio de condimentos sem se preocupar com as mãos sujas. Outro produto distribuído pelas redes de restaurantes é o lenço umedecido. 

Leia mais:

O céu é lá embaixo: riqueza subterrânea é atrativo turístico na Rússia