Meu primeiro contato com um videogame foi a através da Renata, filha do seu Arnaldo. Era minha vizinha na Rua Pitangui e foi quem me aplicou nesse universo binário, amplificado por minha tia Sheila. Ambas tinham um Atari 2600, no alto de 1983. Mas os consoles não eram delas. 

O Atari que a Renata me mostrou pertencia ao irmão mais velho, assim como o console da tia Sheila era dela apenas para meu primo não monopolizar o brinquedo. Ganhei meu Atari em 1986, na condição de ser dividido com minha irmã. Mas ele ficava no meu quarto. Videogame era brinquedo de menino. 

Apesar de estatisticamente serem maioria (53%, de acordo com a edição 2020 da Pesquisa Videogame Brasil), mulheres ainda sofrem preconceito em sessões on-line, competições, redes sociais e demais ambientes frequentados por gamers. Trata-se de mais um reflexo vivido pela mulher num mundo predominantemente machista, que paga menores salários e onde elas ocupam menos cadeiras em parlamentos, dentre outras discrepâncias.

No entanto, elas não se deixam abalar por faniquitos e ofensas de marmanjos. E estão, cada vez mais, ocupando lugares de destaque nesse universo, que tem um histórico de “dominação” masculina. De acordo com Nyvi Estephan, influenciadora de eSports e apresentadora do HyperX Drive no YouTube, essas distorções têm um fator cultural.

“Essa predominância masculina é explicável. Como mulheres, não fomos encorajadas a jogar quando crianças e, na maioria dos casos, não ganhávamos videogames, já que essa era uma atividade vista como masculina. Entretanto, a grande prova de que gostamos tanto de jogos quanto os homens é que entre os jogadores mobile já somos maioria. Está muito claro que o problema era a falta de acesso, não é? Já que tanto uma mulher quanto um homem, com um celular, podem escolher o que fazer com ele”, analisa Nyvi.

Ocupação

Ela conta que já sofreu preconceito pelo fato de ser mulher. Mas entende que faz parte da construção de um cenário que precisa ser ocupado efetivamente por elas. 

“Muitas vezes ouvi comentários como ‘só conseguiu porque é bonita’. Mas por mais que já tenha passado por muitas situações constrangedoras, depois de quase sete anos de profissão as pessoas me respeitam muito mais. Porém, minha meta é que as mulheres não precisem passar anos se provando nesse mercado para conseguirem conquistar respeito. Não é fácil. As mulheres que atuam hoje nesse cenário estão na linha de frente, mas, quanto mais mulheres tivermos com a gente, menor será o impacto. Esse é o objetivo”, afirma. 

Com “vilões” parecidos, Esther Fonseca, de 19 anos, tenta construir sua carreira como pro-player em “CS:GO”. Mas para não ser perseguida e conseguir treinar, escolheu omitir que é mulher. 

“No começo eu sofria muito preconceito por ser mulher. Me mandaram lavar louça. Recebia cantadas, xingamentos ofensivos, pediam meu WhatsApp e tentavam me tirar do jogo fazendo votações ou coisas parecidas. Eu quis desistir de jogar, mas vi que não podia deixar algo de que gosto muito. Então decidi colocar um nome que ninguém saberia qual gênero. Hoje eu não sofro mais preconceito, porque não uso nome feminino, mas quando descobrem vira um furacão, isso é de entristecer qualquer uma”, conta a jovem, que já chegou a treinar sete horas por dia mantendo a verdadeira identidade em segredo.

Muito além de vontade de conquistar espaço e lutar para vencer o preconceito, elas também apontam que é preciso estrutura e suporte, como em qualquer outro esporte. É o que explica Gabriela Freindorfer, a Gabs, que integra a equipe de “CS:GO” do time Furia. 

“É fundamental ter o suporte de organizações, patrocinadores e realizadores de campeonatos. Depois, acredito que o toque final somos nós, jogadoras, que damos nosso sangue todos os dias no jogo e mostramos que podemos conquistar nosso lugar nesse cenário de eSports”, observa a pro-player.

“Nos esportes eletrônicos, enquanto formos minoria, estatisticamente, será natural termos mais homens se destacando do que mulheres e causarmos esse ‘incômodo’. Porém, creio que isso é questão de tempo para mudar. Estamos cada vez mais presentes e resistindo. As publicadoras e organizadores de campeonatos também têm papel fundamental no combate à toxicidade para ajudar a tornar esse ambiente mais diverso e inclusivo. Primeiro, repreendendo e punindo os agressores e então promovendo ambientes mais controlados, como campeonatos femininos que ajudem mulheres a se destacarem sem ter que esconder seu gênero”, afirma Nyvi Estephan.

Procuramos quem tem “bala na agulha” para bancar as garotas e fomos conversar com o gerente sênior de marketing da HyperX na América Latina (fabricante de componentes e acessórios para games), Fabio Bottallo, que patrocina times femininos. 

“Existe um crescimento importante de mulheres entre os gamers há quase uma década, em todo o mundo, e, apesar dos estereótipos e sexismo, as mulheres têm tomado um espaço cada vez mais relevante no setor. Há anos a HyperX apoia times femininos e streamers mulheres, e vemos que muitas delas se tornaram referências neste universo. Acredito, sim, que tivemos uma participação importante nesse sentido, principalmente entre os jogos ‘hardcore’, tradicionalmente mais jogados por homens”, afirma. 

No entanto, Botallo aponta que é preciso maior participação na indústria de games. 

“Além disso, é importante ver, cada vez mais, uma maior e mais importante participação feminina no meio gamer, não apenas como jogadoras, mas em áreas como criação de jogos, programação, desenvolvimento, produção etc. Não vemos o público feminino simplesmente como consumidor da marca, mas sim como co-criador desse universo gigantesco e que merece ocupar seu espaço e ganhar cada vez mais relevância e importância”, observa.

Na raça

Apesar de todas as dificuldades, críticas e agressões, as meninas vêm conquistando seu espaço. Gabs se orgulha das “fases” que já venceu em seu game da vida. “Primeiro queria ganhar campeonatos. Consegui. Depois, ganhar campeonatos presenciais. Feito. Jogar um campeonato mundial. Feito. Conseguir viver do jogo graças a uma organização de eSports boa. Feito. Se me perguntam qual meu maior sonho atualmente, digo que é ganhar um mundial, mas não quero parar por aí. Quero ganhar de times masculinos no Brasil e fora, quero um Major, quero o mundo. Porém, tenho consciência de que conquistamos uma coisa de cada vez, sempre”, reconhece.

Nyvi foi eleita em 2019 a melhor apresentadora de eSports da América Latina e 3ª do mundo pelo Esports Awards, dos Estados Unidos, e a primeira sul-americana a concorrer em qualquer uma das categorias. “Imagine só se eu tivesse desistido e deixado esses comentários me definirem?”, provoca.

Esther Fonseca conta que quando começou jogar percebeu que queria ser cada vez melhor e aperfeiçoar as táticas e movimentos. “Passei a entender o jogo, cada passo e cada jogador era um desafio. E isso me provoca adrenalina e força para ver até onde sou capaz. Percebi que não há limites de capacidade. Eu sou eu e continuarei a jogar” afirma, esperando não precisar de “máscara” para ser respeitada.