Colocar um pedacinho de chocolate na boca e, de olhos fechados, esperar que ele derreta até se desmanchar por completo pode parecer uma experiência impensada para muita gente, pelo menos no dia a dia. Mas a prática, que traduz muito bem o comer com consciência e atenção plena, vem sendo utilizada para nos ensinar a desligar o piloto automático, modificar a relação que temos com a comida e até superar distúrbios alimentares.

Mindful Eating é o nome da técnica, ferramenta ou mesmo filosofia de vida, como muitos a classificam, que preconiza o comer com intenção e atenção, cultivando equilíbrio sem julgamentos nem culpa. Na prática, é o que propõe também o Mindfulness (de onde deriva. Leia mais no fim da matéria) –estado de consciência plena sobre o momento, a ação presente, seja caminhar, conversar ao telefone ou até tomar um banho.

Experiências

Nutricionista e especialista na ferramenta, Patrícia Coelho, que atende em Belo Horizonte, onde também ministra cursos, diz que o método envolve desfrutar da comida, valorizando as diversas experiências que ela proporciona, desde a cor, passando pela textura, até chegar ao sabor, num tempo que seja destinado somente a ela, sem interferências. 

“As pessoas foram perdendo isso (a atenção plena) em função da tecnologia, da pressa. Comem acessando o celular, vendo TV. Quando não se tem atenção plena na comida, o nível de satisfação (saciedade) é menor, a fome emocional aumenta e nos leva a desejar sabores diferentes e a comer mais”, explica.

O próximo curso intensido de Mindful Eating em BH acontece nos dias 8 e 9 de dezembro, no espaço Viva Bem, no bairro Serra (Zona Sul). Inscrições e informações podem ser obtidas pelo telefone (31) 98778-4072, com Patrícia Coelho

Não se trata de uma dieta, de um plano alimentar nem de uma prescrição sobre o que, quando e quanto comer, mas de um método que ensina a focar nas sensações proporcionadas por cada alimento a partir das necessidades apresentadas pelo corpo.

"É entrar em contato consigo mesmo e com o que o corpo pede e com o nível de prazer que alcançamos ao nos alimentar”, reforça. 

Gerenciamento

Ao desenvolver tais habilidades, nos tornamos aptos não só a identificar como a gerenciar os nove tipos existentes de fome (conheça cada uma delas na infografia no fim da matéria) e a escolher, literalmente, alimentá-las ou não. 

“Não há certo e errado, mas decisões conscientes. É sair do piloto automático e ter consciência para identificar o desejo, seja ele pela estética (fome dos olhos), por exemplo, ou não”, reforça o médico especialista em Mindfulness Marcelo Demarzo, coordenador do Mente Aberta – Centro Brasileiro de Mindfulness e Promoção da Saúde, vinculado à Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Neuroplasticidade

Mais do que as mudanças sensoriais experimentadas ao escolher e levar um alimento à boca e aos reflexos que a prática, mais lúcida, promove na mente e no corpo, Mindful Eating é capaz de mudar a fisiologia do cérebro. Neuroplasticidade é o nome dado à capacidade de a massa cinzenta se adaptar a novos estímulos e situações.

Patrícia Coelho explica que, ao longo de oito semanas (tempo de duração dos treinamentos que ela ministra), pode ocorrer um aumento do córtex pré-frontal –área responsável pela tomada de decisões, pelas escolhas, manutenção da atenção, do foco e da concentração e pelo controle do comportamento emocional.

“Isso favorece o planejamento e a persistência na tomada de atitudes para uma finalidade desejada, como ter mais saúde, se cuidar ou até emagrecer. Além disso, o córtex pré-frontal esquerdo fica mais ativo que o direito durante o estado meditativo. A ele estão relacionados pensamentos mais positivos”, detalha.

Mindful eating Patrícia Coelho

EXPERIÊNCIA SENSORIAL - Atenção plena no alimento inclui sentir os aromas exalados antes de levá-lo à boca, ensina Patrícia Coelho (no centro da foto), especialista em Mindful Eating

Ferramenta ajuda no tratamento de transtornos alimentares e incentiva aceitação do corpo

Alimentar-se de maneira consciente, desfrutando de cada segundo diante da refeição e de todas as sensações prazerosas proporcionadas por ela tem sido uma experiência positiva também para o tratamento de transtornos alimentares e para incentivar a aceitação do corpo. 

Ao se desligar do piloto automático e abrir mão de todos os julgamentos que envolvem o ato de comer, pacientes com doenças resultantes da relação conflituosa com a comida passam a ficar mais atentos às necessidade do corpo e, consequentemente, tendem a se nutrir e se aceitar melhor.

"É uma experiência sensacional, pois proporciona à pessoa, pela primeira vez, acessar emoções que nunca havia experimentado e se libertar para o comer sem culpa, sem regras. A tendência é ingerir alimentos mais naturais, saudáveis, justamente pela percepção que desenvolve do próprio corpo”, explica a nutricionista Patrícia Coelho, especialista em Mindful Eating/alimentação consciente. 

Aceitação

Adepta da ferramenta, após fazer um curso em BH, Isabela Machado Cunha Ribeiro, de 24 anos, diz que se surpreendeu com os resultados obtidos. A servidora pública conta que a técnica a levou não só a uma mudança de consciência em relação a si mesma e ao que come, mas a uma maior aceitação do próprio corpo. 

“Sempre tive muitos problemas com alimentação e aceitação corporal, questões que começaram na adolescência e que, ao longo do tempo, me levaram a desenvolver anorexia e ortorexia leves e episódios de compulsão alimentar, ansiedade extrema e não aceitação do corpo”, detalha.

Atualmente, Isabela faz exercícios diários de meditação guiada, de 20 a 30 minutos, com foco na observação de todas as partes do corpo, inclusive das “gordurinhas”. “Não perdi peso, mas minha principal realização foi conseguir melhorar muito a relação que tenho com meu corpo. Aceito-me melhor hoje”, comemora. 

Técnicas

Nos cursos, profissionais capacitados em Mindful Eating ensinam técnicas que podem ser aplicadas no dia a dia. “A sensação de saciedade leva em torno de 20 minutos até chegar ao cérebro, o que significa que deveríamos gastar esse mesmo tempo no almoço, no jantar e no café da manhã, do início ao fim da refeição”, ensina Patrícia Coelho. 

Outro método ensinado pela profissional é descansar o garfo e/ou as mãos (quando talheres não estiverem sendo usados) e mastigar o alimento que já estiver na boca da forma mais consciente possível. 

“É uma técnica que integra um pacote de intervenções voltadas para tratamento de transtornos alimentares. Sozinha, tem ação preventiva” - Marcelo Demarzo, Médico especialista em Mindfulness, coordenador do Mente Aberta – Centro Brasileiro de Mindfulness e Promoção da Saúde, vinculado à Unifesp

Leia mais:

Parar, sentar, respirar: estimular a criançada a meditar tem efeito positivo até no boletim escolar

 

Ponto a ponto:

Um dos exercícios clássicos propostos nos cursos de Mindful Eating e que pode ser feito em casa para estimular a prática da alimentação com atenção plena é a técnica da uva-passa. É possível fazê-lo com outro alimento, um pedacinho de chocolate, por exemplo, ou algo que desperte em você, normalmente, um sentimento de culpa e que, nesse contexto, será apreciado de forma diferente da habitual.

  1. Antes de levar o alimento à boca, observe-o na embalagem, sem tocar, exercitando o primeiro sentido que usamos ao nos alimentar, a visão. Perceba as cores, as diferentes tonalidades e texturas. Escolha um pedacinho. 
  2. Feche os olhos, aproxime o pedaço escolhido do nariz e sinta todos os aromas que ele exala. Perceba a que emoções o alimento remete, se são boas ou ruins, mas mantenha o foco no alimento e no momento presente. 
  3. Abra os olhos, corte um pedaço e coloque-o no centro da língua, sem mastigar. Deixe dissolver aos poucos e perceba as sensações que causa ao se espalhar por cada canto. Perceba como é possível prolongar aquele gosto mesmo quando o alimento já tiver sido desfeito. 
  4. Aprecie o momento presente e perceba a diferença de degustar um alimento, muitas vezes consumido no dia a dia, de uma forma diferente, com atenção plena e sem julgamentos. Não se culpe.

Além disso:

Encontradas em diversas tradições culturais, religiosas e filosóficas, as técnicas e práticas de Mindfulness têm sido cada vez mais integradas na prática clínica contemporânea, principalmente na psicologia e na medicina. Traduzido no português para Atenção Plena, Mindfulness é usado para designar um estado mental, conjunto de técnicas ou exercícios mentais ou ainda um conceito psicológico. 

O estado mental de Mindfulness pode ser induzido ao focarmos a atenção intencionalmente na experiência do momento presente ou numa atitude não julgadora. Segundo Jon Kabat-Zinn, um dos responsáveis pela “ocidentalização” das práticas com foco na saúde, “Mindfulness é a simplicidade em si mesmo. Trata-se de parar e estar presente. Isso é tudo”.

Arte Mindful Eating

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Onde procurar:

Patrícia Coelho, nutricionista especialista em Mindful Eating
patriciacoelhonutricao.com.br
Telefone: (31) 98778-4072
Instagram: @patriciacoelhonutricao

Mente Aberta Mindfulness Brasil
mindfulnessbrasil.com
Telefone: (11) 3062-0659