“As vidas não podem ser guardadas nos fundos das gavetas, as vidas precisam ser vividas”. Assim termina uma das muitas cartas enviadas por Mário de Andrade a Carlos Drummond de Andrade. Entusiasta do escritor modernista, Ronaldo Fraga decidiu tatuar o texto nos dois braços, copiando a caligrafia original. Foi a primeira tatuagem de uma série que o estilista mineiro pretende registrar no corpo, com outras cartas escritas pelo icônico autor paulistano. 

“Digo sempre que Mário de Andrade é meu mentor intelectual. Sua obra tem algo de caro aos tempos que estamos vivendo. A relação que Mário mantinha com as pessoas é algo fundamental para os dias de hoje. Era um amigo leal, que criava correntes e tecia teias”, afirma Ronaldo Fraga. 

“Eu ia tatuar outra carta, mas decidi abrir o livro e me deparei com essa. Nela, Mário brinca com Drummond, dizendo que tem demorado muito para responder, porque, além de seu trabalho no jornal e na prefeitura, andava muito ocupado com coisas que não dão dinheiro algum, como estar entre amigos e caminhar pelas ruas. E termina com essa frase linda, que acho um bom registro para se ter na pele”, diz.

Fraga conta que já queria tatuar literatura, mas não pensava em poemas. “Eu decidi tatuar cartas. Fico pensando se Mário imaginaria que um dia suas cartas fossem ser vistas como obras”, reflete. “O homem moderno se esquece da morte. Mas eu acredito na morte, por isso nunca deixei a vida na gaveta. Tudo é transitório, tudo é passageiro. A pele envelhece, registrando nossa história. A pele é como a escrita”.

Palavra no corpo

Para o poeta Ricardo Aleixo, a relação entre palavra e pele é indissociável. “Eu entendo que palavra é pele, e pele, por ser tecido, é texto. Me parece quase óbvia essa relação entre pele e palavra, que se dá também no plano sonoro”, afirma o autor mineiro. “A operação da tatuagem, em si, pode ser dolorosa, mas a rede de simbolismos presente nesse gesto é da esfera do prazer”, diz Aleixo, que tatuou no braço, em 2017, um poema escrito por ele mesmo. “Quero fazer outras nove tatuagens, para me ver como uma espécie de homem-livro”, revela.

Para a jornalista Luiza de Sá, a máxima de “uma imagem vale mais que mil palavras” nem sempre é verdadeira. “Muitas imagens não cabem na imensidão de certas palavras. Acredito que a palavra em estado bruto ultrapassa a simbologia. É uma mensagem direta, mais direta impossível”, reflete. “Ter palavras tatuadas na pele, para mim, é ter sempre uma voz ressonante, mesmo que estejamos em silêncio. É dizer o que se quer dito”.