Quem conhece a indústria da moda só pelas revistas e desfiles talvez nem imagine que a produção de alguns tecidos – como, por exemplo, algodão, poliéster e viscose – inclui o uso de produtos tóxicos.

Na expectativa de dialogar com a sociedade sobre essa questão e de impedir a aprovação do chamado PL do Veneno (Projeto de Lei 6.299/02), que tramita no Congresso Nacional, ativistas, empresas e entidades do setor lançaram a campanha #ModaSemVeneno.

“É uma petição setorial contra o PL, que une alguns atores da moda. A petição é um instrumento importante, mas, simbólico. Mais do que as assinaturas que estamos colhendo, é uma ferramenta para abrir diálogos. Para que a sociedade, no geral, enxergue as relações entre a indústria da moda e o agronegócio, qual a responsabilidade que a moda tem. O algodão, por exemplo, é uma das culturas que mais consomem agrotóxico no país”, alerta a diretora-executiva do Instituto Modifica, Marina Colerato.

O Modifica é um dos responsáveis da campanha, que, segundo Marina Colerato, reúne outras organizações, como o Fashion Revolution, que defende uma indústria da moda mais limpa e responsável. A diretora-executiva diz ainda que o movimento já mantém contato com o Congresso Nacional, através da Frente Ambientalista Parlamentar, à qual pretende entregar a lista de assinaturas, que pode ser acessada aqui, até 28 de maio.

Rede complexa
Na definição de Marina Colerato a moda é uma das redes produtivas mais complexas, relacionada à indústria química, à indústria do agrone-gócio, tingimento e lavagens, toda a indústria da publicidade. “A moda se relaciona com a sociedade em muitos momentos, olhando para a questão de resíduos, roupas descartadas. E precisa olhar mais para os agricultores ao redor, para a sustentabilidade de vida no campo, contra a evasão rural, para outras lógicas de produção”, aponta.

No caso dos agrotóxi-cos, mesmo sendo muito difícil eles cheguem à peça de roupa pronta, a diretora destaca que seu uso indiscriminado põe em risco, entre outras coisas, a saúde reprodutiva das mulheres, já que o glicosato, um dos venenos usado no país, é relacionado ao bordo espontâneo.

Argentina
Marina Colerato revela que a Argentina e outros atores internacionais se juntaram à campanha #ModaSemVeneno, porque a matéria prima produzida no país representa commodities globais. “A manutenção dessa despolítica ambiental pode ser uma sinalização de que o Brasil deixará de fazer acordos comerciais”.

Ronaldo Fraga
Um dos mais proeminentes estilistas do país, o mineiro Ronaldo Fraga critica com veemência a indústria na qual atua: “A moda brasileira sempre fez papel de morta. Fica de olho na próxima elite vigente, para não perder cliente. Quantas marcas cresceram nos anos 2000 com o auxílio de governos e usaram o artifício da sustentabilidade para apoiar o governo atual”, questiona.

Fraga diz que o problema vai muito além do PL do Veneno. “Por trás desse PL do Veneno tem outras questões que estão passando junto. Para esse tipo de mobilização da moda, tem que haver consciência de indivíduos. Minha marca quer saber quem matou Marielle, quer sabe da CPI da Pandemia, está sempre se posicionando. Perdi contratos por isso, mas não dá para acender uma vela para Deus e outra para o diabo”, avalia.

Para Ronaldo Fraga, enquanto faz “papel de morta”, a moda brasileira vai perdendo espaço, vai morrendo.