Uma conversa bem-humorada, de cerca de uma hora, para falar sobre a relação do ser humano consigo mesmo. É com leveza que Monja Coen, representante do zen budismo no Brasil, encara assuntos que permeiam a vida: ansiedade, depressão, autoconhecimento, amor próprio. Palestrante, escritora e uma das colaboradoras do MOVA, canal no YouTube com mais de 1 milhão de inscritos, ela conversou com o Hoje em Dia sobre as possibilidades que nos tornam capazes de transformar a nossa realidade e o mundo.

Quando percebeu a necessidade de uma virada de chave?
Fui jornalista profissional e isso foi grande abertura de consciência. A gente encontra pessoas das mais diversas maneiras de ser no mundo e acaba reconhecendo que todos são igualmente humanos. Saímos um pouco do pensamento de minha família, meu bairro, minha cidade e começamos a perceber que nossas necessidades são semelhantes. Meu despertar começou por aí, mas, claro, já existiam questões na adolescência. Por que estamos aqui? Por que nascemos? Por que morremos? O que acontece após a morte? O que é Deus? Onde se manifesta? Tudo isso rondava minha cabeça. Na Inglaterra, descobri a meditação. Mas foi nos Estados Unidos, na Califórnia, que comecei com práticas meditativas. Parecia que todas as respostas estavam lá. Tinha 28 anos e havia me decidido que era o que queria. Fui ordenada no Japão, em Nagoya, onde passei 12 anos num mosteiro feminino.

O que significa ser uma monja budista e como foi voltar ao Brasil? Tinha receio de não conseguir colocar todos os conhecimentos em prática?
É fazer voto de estar disponível a ajudar todos os seres. É estudar, transmitir e praticar os ensinamentos de Buda. Quando voltei ao Brasil, pensei: será que vou poder transmitir para os brasileiros as coisas preciosas que aprendi no Japão? Será que alguém vai se interessar? Mas as pessoas começaram a chegar. Nunca fiz grande divulgação, propaganda. Fazia palestras para 50, 80 pessoas e, com o tempo, não cabia mais gente. Faço palestras públicas em São Paulo e trabalho em outros estados e empresas.

A que a senhora atribui essa procura grande e também o sucesso do seu canal no YouTube, o MOVA?
Tem havido muita depressão, síndrome do pânico, o suicídio tem aumentado. As pessoas estão confusas, desacreditadas de si mesmas, do mundo. A solicitação de palestras, de encontros, tem a ver com voltar a apreciar a vida. Tenho trabalhado muito.

“Fazer a travessia entre a vida e a morte com tranquilidade e respeito. É a isso que vou chamar de felicidade ou contentamento pela existência, o nirvana”


Percebo que as pessoas têm questionado mais a própria existência, buscado o autoconhecimento e, com isso, surgem as mudanças – de emprego, de cidade, de parceiro. Como identificar se essa busca por mudança é genuína ou fruto de uma cobrança colocada pelos outros?
Esse questionamento existe em nós, seres humanos. Que sentido posso dar à minha vida, à minha existência? O que acontece é que muita gente põe isso embaixo do tapete e vai atrás de ganhar dinheiro, ser rico, famoso, seguir uma profissão de sucesso. Mas sabemos que não é isso que faz bem ao ser humano. Quando se tem propósito de vida, vive porque sente prazer no trabalho, no estudo, as coisas dão certo. Mas se você casou por interesse, se está num trabalho que não gosta, vai ser infeliz e vai começar a se questionar. 

E como perceber que é chegada a hora de mudar de rumo?
As pessoas não podem simplesmente se atirar de uma coisa para outra. É preciso criar causas e condições para se ter uma vida saudável e para que aquilo que se produz possa beneficiar outras pessoas. Não é só “cansei de trabalhar aqui e agora vou embora porque encontrei sentido na vida”. Vamos mudar nosso valores e princípios, mas não com raiva, com rancor. Você é um elemento de transformação do mundo. Por isso o livro com o (Leandro) Karnal é muito bom. O inferno somos nós, não o outro.

Conseguir reconhecer aquilo que buscamos passa por autoconhecimento?
Autoconhecimento é a libertação do ser. Já dizia Sócrates, na Grécia: conhece-te a ti mesmo. O budismo vai dizer a mesma coisa. Tem uma frase do fundador da minha ordem que é assim: estudar o caminho de Buda é estudar o Eu (com letra maiúscula). E estudar o Eu é esquecer o eu (com letra minúscula). É ir além do euzinho, que Freud chama de ego. 

Um dos temas que a senhora tem abordado muito nos últimos tempos, inclusive em passagem recente por Sete Lagoas, é a depressão. Embora a raiz da doença seja a ansiedade, a senhora diz que todos somos ansiosos – a senhora mesmo, inclusive. Como identificar a ansiedade que adoece, gatilho para outras doenças?
A ansiedade é maléfica quando a tristeza não é passageira. Se você está há uma semana triste, procure ajuda, é depressão! E sabe por que acho a meditação importante? Para percebermos o que está acontecendo com a gente. Meditação não cura, não é milagrosa, mas faz você perceber aquilo que precisa. O mundo tem coisas maravilhosas, mas estamos acostumados a ver só a podridão, o lixo. É o vício da mente que nos leva à depressão. Daí o livro “O sofrimento é opcional”. Não é sair dela, é lidar, buscar ajuda, tratar. 

Monja Coen


O que a senhora quer dizer por vício da mente? Significa que estamos destreinados para enxergar o lado bom das coisas?
Sim. Nossa atenção é sempre puxada para o que não é benéfico. Mas a gente precisa transformar uma coisa em outra.

“O mundo tem coisas maravilhosas, mas estamos acostumados a ver só a podridão, o lixo. É o vício da mente que nos leva à depressão”


Mas ansiedade também tem muito a ver com pensar lá na frente, com esperar que as coisas aconteçam rapidamente... 
Sim. Se fico ansiosa, quero que mude, que seja diferente. Mas as mudanças são muito lentas. Nós, humanidade, quanto tempo levamos para nos transformar no Homo sapiens, para os pelos caírem, para o formato da cabeça se transformar? Estamos num processo contínuo de transformação, mas não percebemos isso a cada cinco minutos. As coisas vão acontecendo a nós, como espécie, não só como indivíduo. Assim veio o livro “O sofrimento é opcional – como o zen budismo ajuda a lidar com depressão”, não é sair, é lidar, reconhecer.

O ano passado foi muito pesado em termos de notícias, de acontecimentos trágicos. E, em 2019, já há quem esteja na contagem regressiva para começar os próximos 365 dias. Onde, na opinião da senhora, estamos errando ao construir uma realidade da qual queremos nos ver livres?
A quem interessa dar notícias prejudiciais? Só falamos sobre o que está ruim, sobre corruptos. E os bons, onde estão? É o que Martin Luther King dizia: “o que mais me preocupa é o silêncio dos bons”. O mal está em alta, está em tudo. Mas as pessoas não são nem boas nem ruins o tempo todo – como diz o livro com o professor (Mário Sérgio) Cortella: “Nem anjos nem demônios”. Temos as possibilidades e as escolhas. Por isso Buda dizia que a mente humana deve ser mais temida que cobras venenosas e assaltantes vingadores. Não é que eu seja enganada pelos outros. Eu mesma posso criar delusões, falsidades sobre a realidade.

Por falar em sermos enganados, vivemos a era de redes sociais, de likes e compartilhamento de acontecimentos, que, muitas vezes, não traduzem a realidade. Como nos desvincular de todas essas expectativas que criam sobre nós e agirmos conforme nosso propósito? 
De novo, vem o autoconhecimento. Posso ser manipulada pelas redes sociais, pelo meu ego, mas também posso ter conhecimento e usar as redes sociais, a inteligência artificial e a tecnologia a favor do bem coletivo. Mesmo que esteja só querendo aparecer feliz, dentro de mim sei que há uma grande insatisfação. Ao mesmo tempo, às vezes, falar de coisas boas ao mundo também me faz ser abençoado por isso. Então, ao invés de querer brigar, ofender para aparecer, ser visto, faça o bem, faça ações que beneficiem alguém. A gente pode usar as redes sociais de forma educacional, para nós e os outros, mostrando coisas boas que possam ser melhoradas na nossa vida e no nosso mundo, ao invés de colocar os outros para baixo ou só ficar nos exibindo. Isso faz parte de um processo e essa é a realidade em que vivemos. Temos que nos preparar para viver nesse mundo que vai ser mais virtual que real sem ser engolidos. As redes sociais aceleraram nosso processo mental. Precisamos tomar cuidado com as escolhas. O que escolho?

Mas como viver conforme a realidade que desejamos, sem considerar tanto a opinião e o julgamento alheios?
Como nos ligarmos a nós mesmos? 

Exatamente.
Como é que entramos em contato com aquele que é nosso eu verdadeiro? Precisamos compreender que todos queremos ser amados, incluídos, vistos, reconhecidos. Algumas pessoas fazem isso até pela raiva: vou provocar, vou insultar e você vai me perceber. Isso faz parte da psique humana. Alguns têm isso exagerado, outros pequenininho. Temos que observar qual é o ponto de equilíbrio. O livro “Verdade” é sobre frases que a gente repete. Repito frases, jargões, clichês? São verdadeiros? Será que estou repetindo e de tanto repeti-los acabo acreditando numa coisa falsa? Brinco muito com a frase maravilhosa tatuada no pescoço do Neymar: “tudo passa”. E é verdade. Tudo passa. Quando a gente percebe isso, que nada é permanente, mas que está em rede, tudo fica mais fácil. Não tem depressão, pânico, alegria nem satisfação que sejam permanentes. E a gente aprende a não ter medo desse fluir, porque você flui junto. Como diz o Dalai Lama, o coração, a essência, a ternura, a sabedoria, a compaixão, o cuidado amoroso, não o rechaço, a ridicularização, a aversão ao outro.

Tudo sobre o que falamos, ansiedade, depressão, busca por propósitos, tem a ver com felicidade. Mas, afinal, o que é felicidade e como alcançá-la?
Criamos uma fantasia sobre o que é a felicidade, como se fosse um estado permanente de alegria e contentamento com a existência. No budismo, chamamos isso de nirvana. Significa que mesmo quando estamos tristes, quando as coisas não vão bem, temos sabedoria suficiente para saber que nada é permanente e que se pode fazer algo para transformar. Quando nos cuidamos, temos pensamentos altruístas, ações e atitudes que são mais de doação do que de recepção, quando saímos do “euzinho” que reclama, resmunga o tempo todo, encontramos o estado de plenitude, a sabedoria, o nirvana. Felicidade é saber e compreender que tudo está se transformando e que somos um elemento nessa transformação. É diferente da ideia de ter um estado de bem-estar inabalável. 

Mas como encarar que as coisas nem sempre são positivas ou como esperamos que fossem?
Certa vez, um professor foi visitar um monge que estava acamado e falou: nossa, o que está acontecendo com o senhor? E ele disse assim: Buda face sol, Buda face lua. Ou seja, é sempre Buda, sempre um estado de iluminação, de compreensão, mas, às vezes, a gente está na luz, às vezes, na sombra. Às vezes é dia, às vezes noite. Às vezes alegria, às vezes tristeza. Às vezes é saúde, às vezes doença. Fazer essa travessia entre a vida e a morte com tranquilidade e respeito. É a isso que vou chamar de felicidade ou contentamento pela existência, o nirvana.

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