Com o mundo lá fora em frenesi, sendo quase impossível manter-se longe das redes sociais, a sala de cinema voltou a ser um espaço de “desligamento”. O que vale não só para filmes de diversão pura, como também para clássicos e obras de repertório. “Trabalhar um festival é um pouco isso: cooptar o espectador para o cinema”, registra Francesca Azzi, que está à frente da 17ª edição da Mostra Indie, com início nesta quarta-feira em Belo Horizonte.

“O cinema lhe obriga a sair de casa, a sair de sua redoma. Ele tem uma coisa social, de ser um programa coletivo. É importante resgatar isso, principalmente nesta loucura que vivemos hoje”, analisa Azzi.

O Indie selecionou 44 bons motivos para fugir para a sala escura, entre produções independentes premiadas, como o francês “Jovem Mulher”, Camera d’Or no Festival de Cannes deste ano, clássicos e retrospectiva dedicada ao cineasta Philippe Garrel.

O momento pode ser bom para filmes alternativos, já que as salas comerciais ganharam concorrentes de peso na disputa pelos blockbusters, como TV a cabo e sites de streaming, que já não demoram tanto a disponibilizar um lançamento em nossas casas. “A sala como centro de imagem e ideias tem papel importante num momento de pessimismo social e político”, escreveu o diretor Kleber Mendonça Filho, num artigo recente para a “Folha de S.Paulo”.

A aposta da mostra em clássicos, muitos deles disponíveis em formato digital, é vista como um investimento a longo prazo, já que “no Brasil, há muita angústia pelo retorno de bilheteria”, segundo Azzi.

Todos os cinco longas-metragens selecionados, como os cinquentenários “A Bela da Tarde”, de Luís Buñuel, e “A Primeira Noite de um Homem”, de Mike Nichols, entrarão em cartaz posteriormente, pela mesma Zeta que produz a mostra.

Com a queda do número de espectadores nas salas tradicionais, um clássico pode sobreviver para além de seu relançamento, sendo requisitado para mostras especiais. “No circuito comercial, eles não têm um grande espaço, mas logo vêm os convites do Brasil inteiro”, observa a coordenadora, que também reexibirá filmes mais “novinhos” como “Cidade dos Sonhos”, de David Lynch, de 2001.

“Passamos o filme de Lynch na Mostra Indie na época. Apesar de não ser tão antigo, marcou a nossa geração. E hoje, com o pessoal descobrindo o diretor pela série ‘Twin Peaks – The Return’ (<CF36>o último capítulo foi exibido no dia 3 na TV americana, pelo canal Showtime</CF>), é muito interessante rever esses filmes. E para nós, que já vimos e não entendemos muita coisa na época, também será bom”, destaca.

O ponto alto da Mostra, que ganhará as salas do Cine Humberto Mauro e do Sesc Palladium até 27 de setembro, é a retrospectiva de nove títulos de Garrel, escolhidos pelo próprio realizador. “Ele escolheu aqueles filmes que refletem o seu cinema de forma muito complexa, com os vários momentos da carreira dele. Quem assistir terá uma ideia do que foi e do que é o cinema dele”, afirma Azzi.

Ela lembra que Garrel começou fazendo filmes de baixo orçamento e que somente nos anos 70 conseguiu filmar com mais recursos, sem deixar de lado o estilo autoral. “Nos 2000, ele deslancha, tornando-se uma figura mítica do cinema internacional, ganhando mitos prêmios”, resume a produtora.

A programação completa está disponível no site indiefestival.com.br