O trabalho, muitas vezes, é anônimo – recebe aplausos apenas de quem está diretamente envolvido na causa. Também não dá status, muito menos retorno financeiro. Mas para quem nasceu com o espírito de ajudar o próximo, ser voluntário e fazer a própria parte para mudar o mundo vai além da busca por holofotes e recompensa. 

A representante comercial Daiane Dias, de 29 anos, é movida pela necessidade de transformação – de si e do outro. Poderia ter se contentado com a confortável condição financeira que tem e com as oportunidades que a vida lhe deu, mas decidiu ajudar o outro. Há três anos, inspirada por um amigo, fundou o Banho Solidário. Bancado por doações e dinheiro do próprio bolso, o projeto oferece banho, comida, apoio psiquiátrico e psicológico e orientação a usuários de crack da Pedreira Prado Lopes. Localizada na região Noroeste de Belo Horizonte, no bairro Lagoinha, a comunidade tem uma das maiores concentrações de usuários de drogas da capital mineira. 

Mulheres voluntárias trabalho voluntário

EMPATIA E COMPAIXÃO - Daiane Dias, Dai, como se apresenta, aprendeu em casa a ajudar o outro. “Meu pai sempre teve um amor muito grande por moradores de rua e minha mãe por idosos. Então, diversas vezes, os acompanhei, ainda criança, a asilos ou mesmo servindo refeições a desabrigados”, relembra. Ela encabeça o projeto Banho Solidário, do qual é fundadora. Com suporte de mais de 200 voluntários, oferece banho, alimentação, atendimentos psicológico e psiquiátrico a dependentes químicos da Pedreira Prado Lopes, em BH. Mais informações: instagram.com/banhosolidarioficial

A experiência, que acontece mensalmente num espaço alugado pelo grupo, proporciona mais que a chance de ofertar algo a quem tem pouco ou quase nada: dá a oportunidade de repensar a própria existência e a forma de pertencer ao mundo. 

“Desde que me entendo por gente faço trabalho social. De uns tempos para cá, tenho entendido o verdadeiro sentido, a essência do voluntariado. No social, encontrei minha alma”, revela.

12% foi o crescimento do total de brasileiros que fazem trabalho voluntário, entre 2016 e 2017, conforme levantamento realizado pelo IBGE

 

Não à indiferença

Administradora de empresas, Alexia Muzzi Dubois, de 50 anos, acabou conhecida em BH pelo trabalho que realiza na OPA Bichos – grupo formado por outras 13 mulheres, que resgatam cães, gatos e outros animais de pequeno porte da rua e os encaminha para atendimento veterinário. 

Movida pela incapacidade de ficar indiferente ao problema, reconhece que o ofício demanda tempo, dinheiro e sacrifícios pessoais, mas é gratificante. 

Mulheres voluntárias trabalho voluntário

UNIÃO QUE FAZ A FORÇA - Alexia Muzzi Dubois (última, à direita) é uma das fundadoras e integrantes da OPA Bichos – Organização de Proteção Animal. Ela e outras 13 mulheres, incluindo Fernanda, Paula e Jenifer (acima), resgatam e dão encaminhamento a animais de rua. Muitas vezes, é um desapego completo até da nossa própria vida. “Brigamos com os maridos, os filhos pedem mais atenção, mas, apesar de tudo, seguimos em frente, vencendo as dificuldades, rindo e brincando”, comenta. Mais informações: instagram.com/opabichos_

“Estou quase 24 horas por dia disponível, sempre pensando no que fazer, mandando uma mensagem, movimentando o grupo no WhatsApp. Ligada o dia inteiro. Além do amor pelos bichos, o voluntariado parte da sensibilidade de ver o sofrimento deles na rua. É um sentimento de não conseguir passar sem olhar”, justifica. Pelo menos um animal é retirado das ruas por uma das integrantes do grupo todos os dias.

Parceiro de uma clínica veterinária em Contagem, na Grande BH, o grupo contabiliza inúmeras histórias felizes, de animais reabilitados ou salvos de problemas de saúde, mas acumula uma dívida que chega a R$ 10 mil. “É um trabalho difícil, mas feito de coração. A gente se sustenta, dá o ombro para a outra chorar”, diz Alexia. 

6,3 horas semanais: média dedicada por cada um ao trabalho escolhido, segundo pesquisa do IBGE; ao todo, são 7,4 milhões de brasileiros voluntários

O nome de Shirley Pereira dos Santos Vieira, de 58 anos, também é sempre lembrado em grupos de trabalhos voluntários realizados em BH. Assistente social, transformou o dom do acolhimento em um espaço destinado a pacientes com doenças crônicas. No Instituto Casa do Caminho, ajuda a desviar o foco da saúde para dar visibilidade, amor e carinho a quem luta pela vida. 

Mulheres voluntárias trabalho voluntário

OMBRO AMIGO - Shirley Pereira dos Santos Vieira transformou a profissão de assistente social em algo maior que um ofício. Fundadora e presidente do Instituto Casa do Caminho, proporciona atendimento integral a pessoas com doenças crônicas. “Respeitamos a pessoa em sua integralidade, além do cuidado com a doença. Oferecemos atendimento psicológico, assistência socioeconômica, oficinas de entretenimento e de trabalhos manuais”, detalha. Mais informações: institutocasadocaminho.org.br

“Tenho como ideal incluir não a doença, mas o doente na integralidade, tirando essas pessoas da invisibilidade com que são tratadas e oferecendo um acolhimento fraterno e uma escuta profunda, respeitosa”, afirma. 

Mantida por doações e recursos angariados em bazares realizados esporadicamente, a casa, fundada em 2017, tem oferece 33 leitos e tem capacidade para receber 90 pessoas por mês, incluindo acompanhante.

Solidariedade batendo de porta em porta

Mudar o mundo, para ela, não é mera força de expressão. Filha de um médico que se dedica, voluntariamente, a populações carentes, aprendeu, ainda criança, o valor de ajudar o outro. Idealista, como se declara, não gosta de eleger causas sobre as quais atuar. Espera que a necessidade de ajuda bata à porta e, assim, que a transformação aconteça. 

Renata Zarnowski tem 39 anos, é casada e mãe de uma menina, Luiza, de 7 anos. Empreendedora e executiva de marketing, poderia ter uma rotina convencional, compartilhada entre família, amigos e colegas de trabalho, mas encontra tempo e energia para partilhar carinho e solidariedade também com quem sequer a conhece.

“Participo de projetos desde muito pequena. Naquela época, meu pai nos colocava para caminhar num trilho de trem por três quilômetros até a periferia de Sabará onde distribuíamos alimentos. Sou idealista, sempre quis mudar o mundo. Já subi morro de favela, tirei roupa do corpo para entregar a outra pessoa, acolhi morador de rua e participei de várias ações, a última delas em Brumadinho. Serei heroína mesmo quando conseguir influenciar todos à minha volta para que ajam como eu”, coloca. 

Mulheres voluntárias trabalho voluntário

LONGE DA ZONA DE CONFORTO - Empreendedora e executiva de marketing, Renata Zarnowski não elegeu uma área para a qual doar amor e solidariedade. Humana, no sentido mais amplo da palavra, procura dar continuidade ao que lhe foi ensinado pelo pai. “Estou sempre com o radar ligado para onde e quem estiver precisando de mobilização humanitária. Solidarizo-me naturalmente, envolvo-me com causas que me provocam empatia”, explica. Mais informações: instagram.com/rezarnowski

Dentre as ações mais significativas, Renata cita a ajuda a vítimas de uma das maiores enchentes que já aconteceram em Minas, em 1995. Ainda adolescente, mobilizou vizinhos da rua e moradores do prédio onde morava, com 140 unidades, para arrecadar donativos.

“Naquela época, não existia rede social, era tudo de porta em porta. Foi preciso um caminhão para distribuir as doações às vítimas”, relembra, orgulhosa. Na bagagem de anos dedicados ao voluntariado guarda gratidão e as oportunidades que teve de oferecer ajuda. “Sempre saio de uma missão melhor que entrei. Mudança vem de exemplo e o meu começou em casa. Quero engajar pessoas a começarem de onde for. Construir um mundo melhor depende disso”, afirma. 

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