Natal inspira solidariedade e traz à tona histórias de quem pratica o bem

Izamara Arcanjo
Especial para o Hoje em Dia
20/12/2021 às 20:40.
Atualizado em 08/02/2022 às 13:50
 (Valéria Marques)

(Valéria Marques)

Natal é época que se traduz em união, comunhão e solidariedade. Apesar de os brasileiros terem vivido os últimos dois anos em meio à pandemia da Covid-19, muitos buscaram contornar as tragédias enfrentadas no período promovendo ações para minimizar os problemas do próximo. Espírito de generosidade que se intensifica na reta final do ano, quando as ações de um exército de voluntários ganham maior visibilidade.

Renata Medeiros, de 47 anos, é administradora de empresas e faz parte de um grupo de pessoas dedicadas a acolher e fazer o bem. Em meio ao tratamento de um câncer descoberto já em estágio avançado, em 2012, ela reparou que muitos pacientes que se submetiam a quimioterapia no Hospital da Baleia não tinham dinheiro nem para o café da manhã.

Renata não pensou duas vezes e, com o benefício por incapacidade temporária – o antigo auxílio-doença do governo – comprou pães com manteiga e café para gente que nunca tinha visto antes. 

“Naquela época, apesar do câncer, eu me sentia abençoada, porque tinha uma família que me apoiava. Muitos daqueles pacientes abandonaram o tratamento, porque não tinham dinheiro nem para um cafezinho”.

A solidariedade de Renata não durou os dois anos e meio do próprio tratamento. Ela começou a pedir ajuda na internet e há oito anos distribui café da manhã, de segunda a sexta-feira, no mesmo hospital em que se curou da doença. São 165 kits por dia, com suco, pão com manteiga, biscoitos e fruta. “É preciso entender a dor do outro. Ao ajudar aquelas pessoas, eu é que estava sendo curada”.

Chamado “Amor que Cura”, o projeto chegou ao Hospital das Clínicas, Santa Casa, Alberto Cavalcanti e Hospital São Francisco. Também cresceu. “Somos 15 voluntários. Visitamos pacientes internados, coletamos doações, como produtos de higiene pessoal, fraldas, roupas e o que for necessário para dar tranquilidade a quem está fazendo tratamento ambulatorial na área oncológica”.

Na pandemia, os hospitais suspenderam a presença de voluntários, e Renata passou a ir à casa dos pacientes entregar doações. Percorre diariamente, na capital e região metropolitana, cerca de 150km. “Meu sonho é ter uma casa de apoio para acolher quem vem do interior se tratar”.

Pessoas como Renata fizeram o Brasil subir 14 posições no Ranking Global de Solidariedade em 2020, segundo a pesquisa World Giving Index 2021 (WGI), feita pela Charities Aid Foundation (CAF). Neste ano, o país ficou em 54º lugar numa lista de 114 nações.

O ranking do WGI revela que a pandemia produziu uma onda global de solidariedade. O índice de pessoas que ajudaram um estranho é de 55%, o mais alto já registrado.

Fogo de palha?

Não se trata de “solidariedade de pandemia”. Como Renata, a psicóloga Joice Silva Rodrigues Cardoso se dedica o ano todo a buscar condições de vida mais dignas para moradores dos Vales do Mucuri, Jequitinhonha e Norte de Minas, onde 300 mil pessoas vivem em extrema pobreza. 

A busca de donativos acontece o ano inteiro. São beneficiadas 11 comunidades nos municípios de Caraí, Padre Paraíso e Novo Oriente de Minas. 
“Ao ajudar as pessoas, estou me ajudando também. Nesse tipo de trabalho há algo mágico”, pontua.

A psicóloga é idealizadora do projeto “Semear no Vale”, que atende a 300 famílias cadastradas. Os donativos são colocados em pacotes de 70 quilos: duas cestas básicas, doces, chocolates, itens de higiene pessoal, de limpeza e panetones – iguaria desconhecida por vários dos contemplados. Em algumas casas há 15 filhos. “Não tem preço a gente ajudar a dar visibilidade aos que são invisíveis. Vemos a potência da vida brilhar nos olhos das pessoas”, conta.

Amor multiplicado

Na comunidade Alterosa, em Ribeirão das Neves, Maria José Pereira vive com os filhos Gabriel, 22, Sabrina, 24, e um neto de 8.

Por muitos anos, Maria foi voluntária na região de Nova Contagem, em Contagem, onde vivia. Hoje, é a filha Sabrina, desempregada e grávida de 8 meses, uma das assistidas pelo Programa Alimentar – Vida Sem Fome, idealizado pelo Sistema Divina Providência. 

“Vamos ter um Natal mais farto e humano graças à solidariedade de outras pessoas. É uma onda de calor humano que se espalha, que se multiplica. Quem está em melhores condições naquele momento vai fortalecendo o próximo”, comemora.

“É uma onda de calor humano que se espalha, que se multiplica. Quem está em melhores condições naquele momento vai fortalecendo o próximo” Maria José Pereira

Comida na mesa permite traçar planos para nova vida

Maria tem mesmo motivos para se alegrar. O filho caçula, Gabriel, fez o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e foi aprovado em Direito, na UFMG. O jovem reconhece que, com o apoio dos programas de voluntariado e assistência, as famílias têm mais estrutura para permitir que os filhos permaneçam focados nos estudos.

“A gente sempre tem este dilema: ou trabalha para se alimentar ou estuda. Se há ações que nos ajudam e evitam que tenhamos que nos preocupar com o que vamos comer, acabamos ficando mais preparados para enfrentar os desafios impostos pela vida”, diz Gabriel.

Kátia Cristina de Lima também é moradora da comunidade Alterosa. Foi a solidariedade que a fez se recuperar de uma depressão e outros problemas de saúde. 

“Desde que o Programa Alimentar chegou aqui, há uns dois meses, consegui me recuperar. Sou cabeleireira e durante a pandemia, sem poder trabalhar, fui ficando cada vez mais prostrada, mais doente e sem dinheiro. Foi aí que veio a ajuda”.

Kátia mora com a filha Érika, de 29, e dois netos: Paulo Henrique, de 8, e Ana Júlia, de 5. Por meio do programa, recebe assistência médica, odontológica e uma cesta básica a cada 15 dias e acompanhamento de uma assistente social. 

Com os mantimentos que recebe, economiza para investir em um negócio: produção caseira de brigadeiros e bolos no pote. “Renasci. Sinto vontade de me levantar, de trabalhar todos os dias de manhã”. 

Para a assistente social responsável pelo Alimentar, Márcia Zimmermann, é muito gratificante fazer parte de um projeto em que se pode estar disponível para ajudar o próximo.

Segundo Márcia, a generosidade faz com que as pessoas cresçam e passem a ver o mundo de maneira mais humana. “Pela solidariedade conseguimos criar uma corrente do bem e um mundo melhor. Entender que a nossa ação pode mudar a vida de alguém nos aquece a alma”, diz.

“Pela solidariedade conseguimos criar uma corrente do bem e um mundo melhor. Entender que a nossa ação pode mudar a vida de alguém nos aquece a alma” Márcia Zimmerman
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