Quando o assunto é comida portuguesa, não há como negar: o primeiro prato que vem à cabeça é o bacalhau. O que nem todo mundo sabe é que a cozinha dos nossos colonizadores vai muito além do pescado, estrela por aqui na Semana Santa. Caracterizada pela simplicidade, guarda semelhança com a nossa pela alquimia de sabores e temperos e pela fartura de ingredientes. 

Ao lado do peixe de águas geladas, outro “parente” que faz sucesso é a sardinha, popular, mas pouco aproveitada no Brasil. Em território europeu, o ingrediente vira parte nobre do escabeche, molho à base de azeite, vinagre, salsinha, cebolinha e alho, servido geralmente com pão, como entrada.

Portuguesa radicada em Belo Horizonte há 56 anos, Tereza Baltazar explica que o segredo de tudo é ser simples. Proprietária da Taberna Baltazar, no bairro Serra (Zona Sul), um dos restaurantes típicos mais tradicionais da cidade, conta que a iguaria pode ser preparada na brasa, junto com batatas ao murro e pimentões coloridos.

“É um prato muito rápido. Se tiver uma frigideira boa dá para fazer nela”, ensina a cozinheira, reforçando a importância do tempero certo. Ao lado de outros sete estabelecimentos da capital, Tereza participará da 9ª Festa Portuguesa, que acontece neste fim de semana na cidade (leia mais no fim da matéria).

Polvo

Pouco familiar aos mineiros, em função da baixa oferta, o polvo também é matéria-prima comum nas cozinhas portuguesas, influenciadas pela culinária mediterrânea. Preparado na pressão ou em panela comum, vira ingrediente especial junto ao arroz agulhinha – o mais comum no Brasil. “Eu gosto de salsinha, mas, lá, o forte é o coentro”, comenta a dona da Taberna Baltazar. 

À frente do Tugas Culinária Portuguesa – cozinha itinerante que percorre festas e eventos de BH e região –, Humberto Papel também é fiel à simplicidade da culinária da terra natal. Embora reconheça a influência por trás de cada prato, reforça que o segredo está mais na escolha dos ingredientes do que na quantidade do que vai na panela. 

“Não é tão simples como grande parte das pessoas pensa. Os portugueses visitaram diversos países: Japão, Tailândia e muitos na África. Na minha opinião, não há outra gastronomia no mundo tão diversificada. Trabalhamos com misturas, variedades e texturas”. 

Frango

Da cozinha do Tugas sai, dentre outros pratos tradicionais, o frango piri-piri ou frango no churrasco. A fast-food é encontrada em qualquer canto do país europeu, mas se diferencia conforme a região onde é preparada. “Na Bairrada, usa-se muita pimenta do reino e caril, o curry português”, avisa o cozinheiro. 

Servido inteiro, separada ao meio, como se faz com a rã, por exemplo, o prato costuma ser feito no calor do carvão aceso, assim como o nosso churrasco. Normalmente, são servidas porções individuais de até 900 gramas da carne branca. A receita também será servida na Festa Portuguesa. 

Culinária portuguesa

POLVO - Fartura de frutos do mar no país faz do molusco uma das iguarias mais apreciadas pelos portugueses. Na Taberna Baltazar, tradicional em Belo Horizonte, ingrediente é servido com arroz bem temperado

Secular, confeitaria tem ovos e açúcar como ingredientes-base

Capítulo à parte na história da gastronomia portuguesa, a doçaria conventual também tem particularidades. Originária do século 15, época em que era elaborada de dentro dos conventos (daí o nome), é delicada, diversificada, mas, sobretudo, saborosa. 

Feita à base de muita gema de ovo e açúcar, conforme explica o proprietário de uma das confeitarias portuguesas queridinhas em Belo Horizonte – a Doces de Portugal–, tem pelo menos uma dezena de “ícones” que já conquistaram o paladar dos mineiros. 

“É confeitaria de tradição passada de pai para filho e a gente procura manter com a máxima originalidade possível. Tem como base as gemas, usadas pelas freiras para engomar hábitos, e o açúcar, bastante comercializado na época de expansão das colônias”, detalha Nuno Afonso Oliveira.

Ícones

Levemente adaptado aos ingredientes brasileiros, o quindim é um dos carros-chefes da confeitaria lusitana. Pouca gente sabe, mas a receita tradicional, desenvolvida séculos atrás e batizada de brisas do Lis (em alusão ao rio português de mesmo nome), leva amêndoas no lugar do coco. “Um doce brasileiro de origem conventual”, define Nuno.

Completam o time de delícias regionais pastel de Belém (ou de nata), o mais famoso representante, crocante, fofinho e recheado com creme branco; o travesseiro de Sintra, que tem massa folhada e recheio cremoso de ovos e amêndoas; e o toucinho do céu, torta que tem os mesmos ingredientes e estética impecável. 

Na Doces de Portugal, com cinco unidades em BH, são servidas cerca de 15 variedades de sobremesas, dentre as clássicas, reproduzidas do país de origem, e as abrasileiradas como tortas à base de frutas.

Culinária portuguesa

CONFEITARIA CONVENTUAL - Ovos e açúcar são a base dos doces mais tradicionais do país europeu, tais como o pastel de nata (ou de Belém) – o mais conhecido deles – e o quindim, receita abrasileirada do brisas do lis, que leva amêndoas no lugar do coco

Além disso:

A oitava edição da Festa Portuguesa acontece neste sábado (8), em Belo Horizonte. Assim como nos anos anteriores, o entorno do Museu Abílio Barreto, no bairro Cidade Jardim (Zona Sul), se transformará num típico reduto lusitano. Para que os visitantes da festa possam experimentar um pouco dos sabores da culinária local haverá barraquinhas de oito estabelecimentos: Taberna Baltazar, Armazém Medeiros, Caravela, Restaurante do Porto, Tugas Culinária Portuguesa, Doces de Portugal, Casa di Maria e Alento Sorvetes Artesanais.

Além de pratos típicos salgados como bolinho de bacalhau, alheiras (embutido) e sardinhas assadas, serão servidas sobremesas e vinhos com DNA português. Inspirado na candidatura de Belo Horizonte à Rede das Cidades Criativas da Unesco na categoria gastronomia, o concurso gastronômico desta edição irá premiar os pratos e sobremesas que melhor traduzirem a influência da cozinha portuguesa na mineira.

A Festa Portuguesa é realizada pela Câmara Portuguesa em Minas Gerais, Consulado de Portugal, Centro da Comunidade Luso Brasileira (CCLB) e Elos Clube. O evento vai das 10h às 22h. A entrada é gratuita e quem quiser pode doar alimentos não perecíveis e produtos de higiene pessoal. A comunidade lusitana em Minas Gerais é formada por cerca de 10 mil pessoas, dentre nascidos em Portugal e que adquiriram nacionalidade. 

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