Elas poderiam ter seguido o caminho convencional de buscar emprego ao concluir a faculdade ou mesmo ter feito carreira no serviço público, mas optaram por fugir à regra e abrir o próprio negócio ou levar o empreendimento da família adiante. Luiza Borges e a xará, Luísa Dias, Lara Lima e Bianca Santos nem se conhecem, mas compartilham a experiência de, antes mesmo de chegarem aos 30 anos, serem donas do próprio nariz. 

Pesquisa recente mostrou aumento de 50% para 57% no número de pessoas com idades entre 18 e 34 anos empreendendo no Brasil. Este mês, relatório apresentado pelo Sebrae também comprovou a farta participação de brasileiras jovens (25 a 35 anos) no cenário nacional. Atualmente, somam 21% de total de empreendedoras.

Machismo

Proprietária da Criare, loja de produtos personalizados em Belo Horizonte, Luísa Dias comemora seis anos do próprio negócio – fruto de uma empreitada iniciada aos 19. Dentre os desafios de ser dona de uma empresa com tão pouca idade, destaca o machismo enfrentado ao negociar mercadorias e liderar equipes, por exemplo. 

Mulheres jovens empreendedoras Luísa Dias, da Criare

DE BRINCADEIRA A GANHA PÃO - Luísa, da Criare, começou a empreender aos 19 anos, na faculdade, quando vendia lembrancinhas

“Muita coisa melhorou, mas minha maior dificuldade na hora de negociar com fornecedor é passar credibilidade por ser novinha. Diante disso, procuro me posicionar e mostrar o volume de vendas da Criare. Quanto a funcionários e prestadores de serviço, às vezes esbarro nessa questão, dependendo da tarefa, mas, em geral, as pessoas que me ajudam também são jovens”, comenta. 

Independência

Para dar conta de levar o negócio adiante e incrementar o faturamento ano a ano, Luísa trabalha em média 14 horas por dia, incluindo sábados, domingos e feriados. Dentre as aspirações para os próximos dois anos estão distribuir tarefas que hoje são feitas só por ela, como confeccionar as encomendas, e garantir, assim, mais autonomia à empresa. “A ideia é que eu consiga estar fora e que, ainda assim, a Criare possa caminhar”, resume.

Fundadora e designer da Potti Romã, grife belo-horizontina de lingeries femininas, Luiza Borges, de 29 anos, também integra o time de jovens que abraçaram o desejo de ter e conduzir o próprio negócio. Desde 2011, gerencia a empresa ao lado de uma equipe com cinco profissionais e mais de 80 revendedoras. A expectativa para 2019 é crescer 15% em relação a 2018. 

Das mais de 11 milhões de mulheres que tinham um negócio com até 3,5 anos, em 2018, 56% empreenderam por oportunidade, conforme mostra Pesquisa GEM

Mulheres jovens empreendedoras Luiza Borges, da Potti Romã

DE FAMÍLIA - Fundadora da Potti Romã, Luiza herdou da mãe, Maria Cecília, a Cila, o tino para o negócio próprio: “Sem dúvida, foi a primeira a acreditar, apoiar e arriscar no meu projeto”

Herança materna

Filha da proprietária da Cila, pioneira em moda praia no mercado mineiro, herdou da mãe o tino para os negócios. “Muita coisa mudou em termos de maturidade do time. Naquela época, o desafio era conduzir uma equipe toda mais velha que eu, o que sempre me exigiu inteligência emocional. Hoje, tenho um negócio mais maduro e equilibrado”. 
Para os próximos cinco anos, a jovem empresária quer crescer mais de 200% tanto nas vendas no varejo quanto no e-commerce. Também pretende ter uma fábrica própria, independente da confecção da mãe. 

Útil ao agradável

Apaixonada por viagens e óculos, Lara Lima, de 29 anos, também aderiu à ideia de unir o útil ao agradável e transformou o hobby em dinheiro. Há oito anos abriu a Moon Eyewear, naquela época ainda sem plano de negócio. Hoje, comemora parcerias de sucesso com marcas conhecidas internacionalmente, como Iorane e Swarovski. 

“Sinto-me mais segurança, mas tenho mais responsabilidades. Empreender não é fácil, requer jogo de cintura, enfrentamento de crises. A principal mudança nesse tempo foi em relação a público e produto. Antes, conversava com pessoas de 21 a 24 anos que não tinham tantos recursos para investir em óculos caros. Com fabricação própria ganhei um novo consumidor, de 35 a 60. Mudança impactante”.

Mulheres jovens empreendedoras Lara Lima, da Moon Eyewear

DE VENTO EM POPA - Lara Lima, da Moon Eyerwear, transformou o gosto por óculos diferentes em negócio superlucrativo: faturamento da empresa cresceu 600% em oito anos

Herdeira de um negócio de família que fez mais aniversários que ela própria, Bianca Dias dos Santos, de 25 anos, também encarou o desafio de gerenciar um negócio que sobrevive a gerações. Relações Públicas da Fantasias BH, loja com mais de 30 anos de mercado, concentra esforços para alavancar os negócios. “Desde que assumi consegui aumentar em 30% o estoque. Para o ano que vem, pretendo implementar o e-commerce e aumentar a capacidade de atendimento”, planeja. 

Para empreender, não há limite de idade nem de sonho

Mulheres que passaram dos 30 anos também provam que empreender não tem idade. Fisioterapeuta especializada em microfisioterapia, Graciela Petermann colhe frutos de um negócio inovador. Desde que abriu as portas do consultório e criou a empresa que leva o próprio nome, viu subir em 40% o número de pacientes atendidos.

Em dez anos, o número de empreendedores no Brasil saltou de 14,6 milhões para 49,3 milhões, crescimento superior a 300%, conforme Pesquisa GEM divulgada pelo Sebrae em 2017

Mulheres jovens empreendedoras Bianca Dias dos Santos, da Fantasias BH

TRADIÇÃO - Bianca faz parte da terceira geração à frente da Fantasias BH, na capital mineira; negócio criado pela avó dela deve ganhar e-commerce em breve

“Quando o negócio é nosso, conseguimos flexibilidade, mas não podemos nos afastar de repente, nem por tanto tempo. Estou com um bebê de 5 meses, mas voltei a trabalhar há dois. É provável que tenha que colocar alguém ajudando”, comenta, adiantando que disponibilizou marcações online para facilitar a rotina. 

Farmacêutica por formação, Giselle Apicela, de 36 anos, apostou fichas num negócio próprio no segmento de estética. Ao lado do marido, que deixou o emprego para gerenciar a empresa com ela, cuida da Estética Giselle Apicela, no Belvedere, Zona Sul de BH. O carro-chefe são as extensões de cílios. O maior desafio é acompanhar a expansão do negócio. “Precisei assumir a identidade de empreendedora e crescer. Quero dobrar a receita este ano e aumentar equipe e espaço”, adianta. 

Leidiane Oliveira, de 31 anos, também transformou a veia empreendedora em algo maior que a consultoria de beleza. Sócia na CM Estética Avançada, no Prado, Oeste de BH, viu no negócio próprio oportunidade de consolidar um plano de carreira. “O maior desafio é tirar a ideia do papel. Passado isso, é hora de inovar para atrair e fidelizar clientes”.

Dona da Toque Final, saboaria artesanal criada em 2017, Adriana Micheline Costa Brant Rabello, de 46 anos, seguiu pelo mesmo caminho. Ao lado da filha, Larissa, busca agregar valor ao produto artesanal. “Por se tratar de uma loja virtual, outro grande desafio é ter visibilidade para conquistar o público”. 

Além disso:

A pouca idade também não foi empecilho para os sonhos de Ana Sales, que, hoje, aos 21 anos, é dona de um bem-sucedido estúdio especializado em microblading (micropigmentação de sobrancelhas) em BH. Apaixonada por estética desde os 13 anos, quando atendia amigas no pequeno salão de beleza da mãe, a jovem relembra a trajetória até chegar onde está. “Fazia as sobrancelhas das amigas, e, assim, as pessoas iam me indicando. Também oferecia meu trabalho em espaços de terceiros, mas ganhava muito pouco. Uma vez, trabalhei 2 meses direto, produzi R$ 6, R$ 7 mil, mas só recebi R$ 4 mil. Ali, tive certeza de que precisava ter um espaço só meu”, conta. 

Ana Sales MicrobladingTRAJETÓRIA - Dona de um estúdio especializado em micropigmentação de sobrancelhas, Ana Sales começou a empreender com 13 anos, no salão de beleza da mãe

Atualmente, Ana Sales está à frente do Ana Sales Studio & Academy, que funciona dentro de um salão de beleza no bairro Cidade Nova, região Nordeste da capital. Para se ter uma ideia da quantidade de clientes atendidas por ela, a agenda de março foi preenchida seis meses antes. Apoiada pela mãe, que trabalha no estúdio, a moça mantém um time de cinco funcionários e, recentemente, contratou uma equipe de finanças para reorganizar as contas da empresa. “Mesmo tendo cinco funcionários, ganho 250 vezes mais do que naquela época. E isso vai aumentar. Este ano ainda pretendo ter meu próprio lugar e quero ser reconhecida no mundo todo”, adianta. 

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