Atire a primeira pedra quem nunca criticou um mal-humorado. Ranzinza, de mal com a vida, cara amarrada são só alguns dos apelidos nada carinhosos usados para classificá-lo. O que poucos sabem é que a condição, da qual muita gente procura escapar, sobretudo na era em que mais importam os posts e likes, nem sempre é tão negativa assim. 

Pesquisa feita na Austrália mostrou que o mau humor, quando passageiro e moderado, não só promove pensamentos mais detalhados como ajuda a ter uma percepção mais atenta sobre a vida. O motivo é que o sentimento funciona como uma espécie de alarme automático e inconsciente para a reflexão. 

“Se estou bem, alegre, por quê me preocupar com o entorno? Já se estou irritado, com medo ou triste, tenho que pensar no que fazer para modificar a situação. Esse é o estado adaptativo das emoções, que servem para nos ajustar ao mundo”, explica o psiquiatra Paulo José Ribeiro Teixeira, membro da Associação Mineira de Psiquiatria.

Fora da zona de conforto

Sob o “guarda-chuva” do bad humor – como o sentimento é descrito na pesquisa – estão variações como tristeza, raiva e irritabilidade. Já o clima positivo, com sentimento de alegria e felicidade, normalmente indica situações seguras resultando em um estilo de processamento menos detalhado e atento.

“Sentir-se triste ou de mau humor nos ajuda a nos concentrar melhor na situação em que nos encontramos e, assim, aumenta nossa capacidade de monitorar e responder com sucesso a situações mais exigentes”, diz a publicação. 

Conhecida entre os amigos por ser brava, a dentista Bárbara Rezende Neves, de 34 anos, concorda com as ponderações do estudo australiano no que diz respeito às decisões que toma. 

“Não me considero mal-humorada, mas brava e irritadiça, tendendo a ficar séria. Ao tomar uma decisão, peso prós, contras, implicações e consequências”, diz. “Mas estou aprendendo que é possível não julgar tanto”, afirma, confirmando a influência dos sentimentos tidos como negativos na autorreflexão. 

Soluções

Psicóloga com atuação em psicologia positiva, Marina Lima reforça que o papel dos sentimentos mencionados na pesquisa é preparar nosso organismo para encontrar soluções. Segundo ela, que atende na Clínica Sofia Bauer, em Belo Horizonte, a ideia é estimular uma performance melhorada, mais reflexiva. 

“É como se nosso cérebro trabalhasse em câmera lenta. Nos tornamos, então, mais detalhistas, tendo uma visão panorâmica e absorvendo todas as situações possíveis, analisando nelas as melhores possibilidades”, detalha a profissional. 

De acordo com ela, é fundamental vivenciar todos os sentimentos e sensações possíveis. “Se não nos permitimos ver e entender o que está acontecendo, perdemos a possibilidade de trazer um novo sentido para a vida, de encontrar saídas e de aprender coisas importantes. Emoções negativas podem ser nossos grandes gatilhos de crescimento e evolução”, diz. 

"Situações difíceis, de mau humor e tirsteza, podem ser nossas grandes escadas para alcançar objetivos e obter aprendizados diferentes. São oportunidades de ressignificar a vida e encontrar novos caminhos" - Marina Lima, psicóloga na Clínica Sofia Bauer

Ilustração mau humor Mal-humorados

Cenário persistente e que impede aprendizados pode mascarar doença e exigir ajuda médica

O alerta vermelho só deve ser ligado se o quadro de mau humor, irritabilidade ou raiva persistir por tempo considerado longo demais pela própria pessoa, familiares ou amigos. Nesse caso, os sentimentos negativos afetam a vida de tal forma que fica impossível desfrutá-la com prazer. 

A recomendação, diante desse cenário, é buscar ajuda médica, orienta a psicóloga Daniela Bittar. “A medida está sempre no tempo de permanência. A pessoa que só anda triste, mal-humorada, que não recebe nenhum movimento da vida de outra forma que não com negativismo está doente”, reforça. 

Foi o que percebeu o autônomo Gustavo*, de 38 anos, após um longo período praticamente confinado diante da impossibilidade de conviver com o que não o agradava. “O alerta veio de várias pessoas que me fizeram perceber que aquele sentimento negativo com tudo já não era mais saudável. Resultado: depressão”, conta. 

Graças ao tratamento conduzido por psiquiatra e psicólogo, Gustavo conseguiu modificar o próprio olhar diante da vida e passou a conviver com o que, muitas vezes, simplesmente não o agradava. “As coisas não precisam ser do nosso jeito. O que nos cabe é refletir sobre a melhor maneira de conduzi-las para que não virem um problema”. 

Misto de sentimentos

Daniela Bittar lembra, ainda, que a condição normal da vida inclui sentimentos discrepantes. “Ora estamos tristes, ora estamos felizes. Algumas vezes gostamos, outras não. Afinal, muitas são as variáveis da vida”, explica. 

Um bom “termômetro” para identificar o limite entre o bad humor (como define a pesquisa australiana) como alavanca para uma reflexão sobre a vida e um quadro doentio, ensina, é a possibilidade que o mau sentimento tem de promover aprendizados. 

“Se todas as situações que levam à tristeza denotam um sentimento de que nada foi aprendido, aí sim há algo de errado”, diz. 

*Nome fictício

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