Muita gente tem curiosidade em saber quem foi numa outra vida: um milionário, parente de um atual conhecido ou mesmo alguém que morreu jovem, por exemplo. Mas uma ferramenta desenvolvida há décadas possibilita mais do que a oportunidade de mergulhar num passado distante. Caminho de cura, ajuda a elucidar e resolver conflitos ou situações inacabadas que reverberam no presente. 

Método terapêutico, a regressão em memórias de vidas passadas (ou paralelas) transporta o paciente a um nível profundo da mente, de onde traz fatos capazes de solucionar problemas emocionais ou físicos, bloqueios ou sofrimentos de diferentes naturezas. Ao contrário de técnicas que utilizam hipnose, as sessões, que podem durar até 45 minutos, são feitas com total consciência, e sempre de olhos fechados. 

Psicoterapeuta há mais de 20 anos, Solange Rolla diz que não existem “contraindicações” para passar por uma sessão, desde que o paciente tenha um grau de consciência mínimo e esteja comprometido com a própria história. “A base do trabalho é a expansão de consciência. Se não houver propósito, os resultados serão rasos e dificilmente irão durar”. 

Sem crenças

A profissional – que fez formação em Deep Memory Process (Processo de Memória Profunda, na tradução) com o psicoterapeuta britânico Roger Woolger – reforça que não é necessário ter crenças específicas, sobretudo religiosas, para experimentar os efeitos do método. Verdade, porém, é que duvidar da possibilidade de existirem outras vidas pode prejudicar a eficácia do processo. 

Na cadeira do consultório, com ajuda de comandos lançados pelo terapeuta, o paciente é convidado (e não induzido) a buscar experiências que possam auxiliar em conflitos presentes. Antes, é feita uma anamnese, que ajuda a definir questões a serem trabalhadas. 

“Não faz diferença entender o motivo de aquele conteúdo (a memória, propriamente dita) ter vindo à tona. Não importa se é real ou fantasioso. São apenas formas de ajudar o ego a perder a resistência de enxergar aquilo que foi traumático”, explica a terapeuta. 

Na regressão, assim como acontece na produção de um filme ou na elaboração de um livro, quanto mais conhecimento, vivências, a pessoa tiver, maior será o repertório e, portanto, a gama de histórias que conseguirá contar.

Apegar-se à existência de vidas passadas, no entanto, foge à proposta da ferramenta, reforça Solange Rolla, esclarecendo uma das curiosidades que envolvem o método terapêutico. 

Integração

Durante a consulta, embora conte com o auxílio do profissional, é o paciente quem fornece as informações necessárias para que imagens e acontecimentos do passado sejam interpretados à luz do presente. Ao fim do encontro, conduzido no ambiente mais silencioso possível, é feita a sessão de integração, na qual a experiência é elaborada e pode, assim, ser mais bem assimilada. 

“Voltamos a vidas consideradas inacabadas, ou seja, que terminaram sem que tivessem de fato sido concluídas naquela existência. É como se aquilo tivesse ficado inconclusivo lá, mas continuado existindo aqui, criando uma espécie de realidade paralela. Quando ressignifico o passado, um sintoma ou problema que manifesto no presente deixa de existir”, detalha a psicoterapeuta.

A regressão é realizada somente com pacientes próprios ou encaminhados por outros profissionais e custa R$ 680. Quem não estiver em processo terapêutico deve passar, antes, por uma sessão de terapia com a profissional. O preço é R$ 350. 

Imagens e acontecimentos trazidos do passado não precisam, necessariamente, ser reais. Mesmo quando são fantasiosos, criados pelo paciente, ajudam a desarmar o ego, possibilitando elucidar conflitos e resolver problemas que se manifestam no presente

Arte regressão a vidas passadas

Voltar à infância ajuda a eliminar crenças limitantes

Psiquiatra, especialista em hipnoterapia ericksoniana, Sofia Bauer utiliza a regressão não a vidas passadas, mas à infância, para eliminar crenças limitantes que nos impedem de ter uma vida plena. Diretora clínica de um centro que leva o próprio nome, em Belo Horizonte, explica que a maior parte das travas que carregamos estão ligadas a nossos pais. 

“Voltamos à infância para identificar a fraqueza do paciente e mostrar que é ele o dono do próprio futuro, que não precisa mais repetir o que os pais ou avós, por exemplo, disseram ou fizeram. Levamos à progressão”, diz.

“Pessoas que não conseguem ganhar dinheiro, que não têm sorte no amor, que acreditam que homem não presta. Essas são crenças comuns, geralmente associadas a um bloqueio adquirido por se acreditar numa historinha inventada pela mente infantil”, acrescenta Sofia.

A psiquiatra explica que elucidar como e de que forma os padrões foram construídos permite introduzir uma visualização de futuro diferente. “É dar-se permissão para ser feliz”, enfatiza. 

Frases negativas

O caminho até o mergulho completo à infância é natural. No consultório, durante a consulta, são identificadas, nas falas do paciente, frases negativas que, por si só, revelam crenças limitantes apreendidas no passado e que impactam na forma de vivenciar o presente. “Homem não presta” e “não vou conseguir casar” são algumas delas.

Durante o processo, que utiliza técnicas de hipnose, o paciente é levado à origem dos pensamentos. Lembra da primeira vez em que ouviu determinada afirmação com viés negativo e quando a constituiu como verdade. “Costuma ser rápido. Em cinco minutos a pessoa já está lembrando de uma cena intoxicante ou retomando situações que levaram a ela”.
Embora seja um método suave, a regressão à infância é certeira, reforça Sofia Bauer. A técnica ajuda, inclusive, a resolver dores físicas, algumas doenças crônicas e autoimunes. “Mais do que limpar traumas, é uma forma de acalmar a mente”, acrescenta.

Uma consulta com a profissional, independentemente de haver ou não a regressão, custa R$ 800.

EU EXPERIMENTEI - Por Patrícia Santos Dumont

Era para ter sido uma sessão demonstrativa, na qual eu teria a oportunidade, antes mesmo da entrevista, de entender como é conduzida uma experiência de regressão a vidas passadas. Mas a terapeuta, Solange Rolla, havia me contado de situações em que o encontro contrariou as expectativas, transformando-se numa experiência completa. Ou seja: eu poderia, sim, mergulhar tão profundamente em minhas memórias que o processo se tornaria mais do que uma “degustação”. Não deu outra!

Eu nunca havia me consultado com ela, tampouco contado algo a meu respeito que pudesse sugerir ou influenciar na construção das imagens que vieram à tona naquele dia. Fizemos tudo “no escuro”. Talvez por isso, a impressão inicial tenha sido a de que aquilo não passava de fruto da minha imaginação. Pouco importa. Relaxada, me senti meio que num transe, imersa na realidade daquelas pessoas, personagens da realidade que construí. Deixei aflorar os recados que minha mente desejava dar.

Teve choro, suor frio nas mãos e um pouco de inquietação, principalmente da metade para o fim da sessão – que durou uns 45 minutos. Mas o mais legal foi perceber, enquanto ainda estava no processo, o quão reais aqueles acontecimentos eram em relação ao que vivo hoje. Perceber e identificar que partes de mim estavam presas lá atrás me fez entender que lugar de passado é no passado mesmo. Dali em diante, me permiti viver no presente e dei por encerrada aquela existência, até então, inacabada. Que cada coisa fique no seu próprio contexto.

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