Em um momento mundial em que a prioridade é a aquisição de itens de alimentação, higiene e saúde, fazer parte da indústria da moda constitui grande desafio. De acordo com a Câmara de Comércio Internacional, esta é uma das três áreas que mais sentirão os impactos da queda de vendas durante e pós-pandemia. As outras duas são aviação e turismo. Mas, para além das questões financeiras – a moda é uma das indústrias que mais empregam mão de obra no país –, o atual momento preconiza uma mudança real do consumo.

“Já podemos perceber que um novo ethos (espécie de síntese dos costumes de um povo) fashion está se forjando e o uso de streaming será uma condição sine qua non para se adaptar à era de recessão pós-coronavírus, que também vai exigir uma diferente percepção e ousadia para construir uma economia de base circular, com outros valores e formas de lidar com a produção, transporte, distribuição e varejo”, analisa a jornalista Valéria Said, professora de Ética e pesquisadora em Moda e Política.

As confecções já se movimentam para repensar os negócios daqui para a frente. Conforme a diretoria da Associação Mineira das Empresas de Moda (Instituto Amem), o calendário de lançamentos precisará ser alterado frente à nova realidade do mercado, além da otimização dos processos produtivos e a adequação dos canais de distribuição.

“As equipes de estilo têm pela frente o grande desafio de criar produtos que traduzam uma lógica de consumo mais consciente e responsável. Para além do medo, temos a sensação de que as pessoas estão em busca de algo que tenha um pouco mais de substância. Quando você vê imagens de Veneza com canais limpos, isso faz você questionar tudo. Temos que reinventar o futuro, e a moda pode fazer parte deste processo”, declarou o grupo ao Hoje em Dia.

Agregar valores sociais à compra de roupas é essencial para sobreviver

Esse processo de reformulação da moda passa, principalmente, segundo especialistas e a própria indústria, pela agregação de outros valores à compra de peças de roupa que sejam diferentes de um bom tecido e de um acabamento impecável. É preciso criar sentido, acreditar nele, e comunicar.

“ A vestimenta precisa ser ressignificada, ela se transforma em um objeto de resistência, de autocuidado e de conexão com a nossa essência. Essa percepção é crucial e pode ser trabalhada pelas lojas e pelas marcas na comunicação de vendas”, coloca o Instituto Amem.

E o impulsionamento de vendas on-line deve ir além de descontos e frete grátis, coloca a pesquisadora Valéria Said. “Penso ser necessário a marca ou a empresa estar vinculada a ações de solidariedade, por exemplo, na confecção de máscaras para distribuição gratuita ou destinar parte de suas vendas à produção de álcool em gel para ser doada a comunidades carentes, como acompanhei algumas iniciativas semelhantes nos grupos dos quais participo”. 

Para Aldo Clécius, trend hunter e professor do curso de Moda do Centro Universitário UNA, a mudança do setor está em curso. “Já é um consenso entre cientistas sociais que a Covid-19 é um marco para este século, para o modelo atual de capitalismo, e com certeza para moda, que já vinha na UTI faz tempos. Uma outra moda está nascendo e isto está sendo acelerado pelo vírus”, prevê.

Mais que defender que as confecções e os estilistas precisam fazer um reload desta estação e não fabricar a próxima, dando vida maior aos produtos já fabricados, o especialista elenca algumas tendências que poderão ser vistas no setor pós-pandemia. “Teremos menos compra de roupas no mundo, mais foco em peças duráveis, a experiência de consumo será mais importante que o produto, o varejo de moda diversificará o mix de produtos e o sistema atual de fabricar seguindo estações vai sofrer um forte abalo e ter mudanças radicais, focando mais em pequenas coleções e menos produtos ao longo do ano”.

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