Livros infantis, juvenis e de autoajuda em queda. Romances, como “1984”, “Admirável Mundo Novo” e “Ensaio Sobre a Cegueira” e histórias em quadrinhos em alta. Esta é a nova ordem instaurada no Brasil em tempos de pandemia, segundo aponta pesquisa realizada pelo GfK (Growth from Knowledge), disponibilizada ao Hoje em Dia pela Associação Nacional de Livrarias.

O levantamento, feito junto a livrarias físicas e on-line, aponta os romances como as obras mais procuradas durante a quarentena, com HQs, comics e mangás em segundo lugar (confira a lista).

Essa mudança no perfil do leitor pode ser explicada de diversas formas, como destaca o escritor e professor da faculdade de Letras da UFMG Wander Melo Miranda. Uma das razões, na opinião dele, é o fato de o “romance permitir que a pessoa, hoje confinada em casa, sem poder se deslocar dali, possa sair de seu lugar por meio da leitura”.

“Neste momento de confinamento, a pessoa tem a necessidade de se deslocar. E uma maneira encontrada é por meio da leitura de romances, que fazem o leitor ir para outro universo. O texto literário permite esse tipo de coisa, de você viajar”, destaca Miranda, que escreveu um artigo para o Suplemento Pernambuco sobre o leitor na pandemia.

Ele aponta, inclusive, algumas obras com esse poder. “Você lê, por exemplo, o ‘Grande Sertão:Veredas’ (Guimarães Rosa) e vai para o sertão mineiro. Ou pega um livro da Clarice Lispector e de repente está no Rio de Janeiro. Ou vai para o Nordeste por meio do Graciliano Ramos. E olha que estou citando apenas obras brasileiras. Creio que, no geral, as pessoas estão mais atraídas nesse sentido”, diz.

“Para editoras, a queda de preços é boa, pois quanto maior a tiragem, mais barato se vende, e mais se vende”, afirma Wander Miranda

Na visão dele, não é à toa que o aumento do interesse por romances esteja diretamente ligado à queda da procura por livros de autoajuda. “É a necessidade de conhecer novos mundos. Então as pessoas não estão lendo apenas autoajuda ou coisas relacionadas à psicologia. O romance permite essa viagem”, comenta.

Pandemia

Entre os livros mais buscados pelos brasileiros atualmente estão obras relacionadas a pandemias, como “Ensaio Sobre a Cegueira”, de José Saramago.

“A literatura fala de pandemia há séculos. Há grandes obras, como ‘A Peste’, de (Albert) Camus, e ‘Decameron’, de (Giovanni) Boccaccio. ‘Decameron’ traz dez jovens que saem de uma cidade, em meio a uma pandemia, uma peste, e passam o tempo contando histórias. Neste momento de pandemia que vivemos, a melhor maneira de aproveitar o tempo é lendo”, sugere. “A televisão e os filmes, você assiste até certo ponto, mas não aguenta o dia inteiro, ao meu ver. Então você vai para o livro, que, para mim, é mais rico que uma televisão ou um filme”, avalia Miranda.

Preço

Outro ponto interessante na pesquisa é com relação aos valores de mercado dos livros, que sofreram uma diminuição. O preço médio antes da pandemia era de R$ 54 nas lojas on-line e R$ 46 nas físicas. Com adaptação ao período de quarentena, caíram para R$ 43 e R$ 34, respectivamente.

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