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Em quase todas as cenas de corrida de “Ford vs. Ferrari” não há acompanhamento musical – ingrediente muito comum neste tipo de filme, usado para triplicar a adrenalina das pistas. O longa protagonizado por Christian Bale e Matt Damon, em cartaz nos cinemas, prova que a trilha sonora é um elemento completamente desnecessário em relação ao que acontece num cockpit.

Não falta o barulho do carro, das pisadas no acelerador, das mudanças de marchas e daquele som que vem dos motores. O diretor James Mangold busca reproduzir com realismo o que se passa na mente solitária de um piloto diante dos inúmeros riscos ao dirigir um carro a mais de 300km, especialmente numa pista como a de Le Mans.

Transcendência

A pista francesa, uma das mais tradicionais e perigosas do automobilismo, é a grande protagonista do filme. É o que torna “Ford vs. Ferrari” diferente de outras obras do gênero, conseguindo transmitir a relação daqueles pilotos diante de tantos perigos, ao buscarem um instante de transcendência, abrindo-se outra dimensão em que parecem infringir as leis do espaço-tempo.

Em busca deste nirvana sobre quatro rodas, Ken Miles (Bale) e seu mentor Carroll Shelby (Damon) são mostrados como perfeccionistas que vão até o limite de si próprios para alcançarem a volta perfeita.

A história desta parceria é real e, entre os aficcionados por automobilismo, será lembrada para sempre como quando dois gênios interromperam o ciclo vitorioso da Ferrari em Le Mans, durante os anos 60. A narrativa lembra a todo momento que uma conquista não se constrói apenas com dinheiro. A Ford, na tentativa de dar uma lição na Ferrari após esta, em situação financeira difícil, ter preferido se juntar à Fiat, compreende esta equação num primeiro instante, mas cobra da dupla um preço muito alto, em que a imagem corporativa é mais importante.

Se a trama não fosse baseada em fatos verídicos, seria fácil imputar à mente imaginosa de um roteirista os conflitos de Miles com um diretor de marketing da Ford, incansável na tentativa de tirar o piloto indisciplinado da equipe. As ações dele chegam à beira da caricatura, como numa luta maniqueísta entre bem e mal, mais comum de ser ver dentro na pista, entre pilotos de escuderias diferentes.

Assim, o verdadeiro embate do filme envolve gênios e lendas que de alguma forma a mentalidade capitalista insiste em enquadrar, matando-os assim que lhes tira os ovos de ouro. Miles é instintivo, como um animal selvagem que domina o ambiente onde vive justamente por ser livre, falando diretamente às máquinas. Apesar de o título chamar atenção às marcas, “Ford vs. Ferrari” faz justiça aos verdadeiros campeões.