Pra postar e, depois, comer! Restaurantes investem em pratos 'instagramáveis'

Patrícia Santos Dumont
pdumont@hojeemdia.com.br | @patriciafsdumont
23/01/2020 às 13:32.
Atualizado em 27/10/2021 às 02:23
 (Victor Schwaner/Divulgação)

(Victor Schwaner/Divulgação)

Foi-se o tempo em que cozinhar bem era sinônimo apenas de agradar o paladar. Na era das redes sociais em profusão, em que, pra muita gente registrar os momentos é tão ou mais importante que vivenciá-los, criar e apresentar receitas bonitas, que abrem o apetite assim que chegam à mesa – ou aparecem na foto –, é mais que fundamental. Obrigatório! Não à toa, derivada da rede que mais cresce no mundo – o Instagram –, surgiu a expressão “instagramável”. Na “tradução”: o que, ao ser compartilhado, fará sucesso no feed, sobretudo em função do apelo estético.Osvaldo Castro/Divulgação

D'AGOSTIM DI PARATELLA
Escolha da louça escura foi proposital, revela o chef e proprietário Paratella Matheus, já que faz brilhar o Paglia e Fieno al ragu d’anatra (palha e feno ao ragu de pato, na tradução). Montagem da receita também faz toda diferença no resultado, ou melhor, no clique final: enroladinho e milimetricamente posicionado no centro do prato

Proprietário e chef do D’Agostim di Paratella, Paratella Matheus sabe disso. Adaptou, inclusive, o jeito de trabalhar. “É extremamente importante que o chef esteja atento ao visual, à combinação de cores. Somado à sensação olfativa ao receber o prato, gera estímulos no cérebro e desperta o desejo de comer”, justifica o cozinheiro do restaurante italiano, localizado no bairro Santo Agostinho, Zona Sul de Belo Horizonte.

“Não podemos esquecer que o momento mais esperado pelo cliente é quando o garçom levanta a cloche”, acrescenta o chef, que aposta nos contrastes de cores para fazer sucesso na vida real e, claro, na virtual também. Débora Gabrich/Divulgação

LA VINICOLA WINE BAR & FINGERFOOD
Releitura da tradicional sobremesa italiana, o Canolli Toscani, com recheio de ragu de linguiça no lugar do creme de ricota, propõe contraste de cores perfeitas para serem fotografadas: “o bege vivo da massa combinado ao verde brilhante da couve e à pimenta biquinho torna o prato muito interessante”, garante o chef Victor Pacheco

Para ganhar curtidas

Outro que até elegeu as criações prediletas para ganharem a internet foi Vitor Pacheco, chef do La Vinicola, em Lourdes, também Zona Sul de BH. Para ele, a dupla Cannoli Toscani e Gorgonzola & Filet Bread (panhoca recheada com filé mignon ao gorgonzola) são apostas certeiras para quem quer angariar curtidas. 

“A massa crocante fica com uma cor muito bonita, um bege/dourado vivo, que somado ao verde brilhante da couve e ao vermelho da pimenta biquinho torna o prato super fotogênico, tanto para lentes de um profissional quanto para o celular de um amador”, ressalta, descrevendo a interpretação da sobremesa italiana.

No Gomez Restaurante, no mesmo bairro, até pratos simples, como a lasanha de berinjela, viram estrelas pelas lentes de quem curte postar o que está comendo. Segundo o consultor do estabelecimento, Rudolf Tschoepe, 80% dos clientes costumam comer os pratos mornos. “Ficam entretidos com o visual ao recebê-los”, justifica, reforçando que o primeiro contato é essencial. Victor Schwaner/Divulgação

GOMEZ RESTAURANTE 
Simples, mas sofisticado. Contraste entre o vermelho intenso do molho de tomate, dourado do legume assado e o verdinho dos brotos faz da lasanha de berinjela prato cheio para as fotos do Instagram: “estética do primeiro contato precisa ser agradável”, diz o consultor do estabelecimento recém-inaugurado em BH

Além disso

Fotógrafa em BH, especialista em cliques de gastronomia, Débora Gabrich virou expert no assunto há pouco mais de quatro anos, quando aposentou as lentes para imagens de eventos e ensaios de pessoas para capturar, com exclusividade, tudo o que é feito e sai da cozinha. Em fevereiro, ela abrirá vagas para a quarta turma do workshop que ministra sobre o assunto. Mais informações aqui.Lucas Prates/ Hoje em Dia 

Confira 5 dicas da profissional:

1- Observe a mensagem que o alimento que passar: “Num restaurante, como é sentar à mesa, as sensações que o local proporciona, o sentimento ao experimentar a comida. É preciso enxergar cada ingrediente”.
2- Comida precisa ter cara e cor de comida: “O Instagram nos dá uma liberdade criativa grande, a possibilidade de brincar com cores, filtros. Mas é preciso lembrar que quando o assunto é comida, tudo precisa ter característica real, natura, senão afasta as pessoas”.
3- Aposte na luz certa e fuja do excesso de filtros: “Procure ficar perto de uma janela para usar a luz natural. O flash do celular deixa a foto muito chapada, tira a textura e muda as cores. Se for o caso, use a luz de outra pessoa. Tente não abusar dos filtros”. 
4- Escolha ângulos que chamam mais atenção: “O top view (vista de cima) e o 3/4, que é como enxergamos a comida quanto estamos sentamos à mesa, são bem interessantes”.
5- Não confunda produção com excesso de informação: “A produção é boa para contar uma história. Mas é importante tomar cuidado para não colocar um monte de coisas sem sentido, apenas para preencher buraco”

Leia mais:

Confira, na galeria a seguir, cliques da fotógrafa Débora Gabrich. E, mais abaixo, fotos também de Victor Schwaner, Osvaldo Castro e Fernanda Motta:

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