Comum na vida real, a mentira tem estado mais presente – e aparente – no mundo virtual. Pesquisa norte-americana mostrou que mentimos até cinco vezes mais por e-mail do que nos comunicando cara a cara, por exemplo. A razão, dizem especialistas, tem a ver com a falta de sincronicidade da conversa pela web e com uma certa necessidade de nos protegermos do julgamento alheio. 

“Online ficamos menos contidos. Nossos sinais faciais e comportamentos verbais não podem nos delatar e, por isso, fica mais fácil enganar. Além da distância física, a tecnologia proporciona uma distância psicológica, que também torna mais fácil mentir”, justifica um dos pesquisadores da Universidade de Massachusetts Amherst, onde foi feito o estudo. 

Psicanalista clínica em Belo Horizonte, Simone Demolinari vai além. Segundo ela, o mundo virtual oferece uma série de subterfúgios que nos permitem ser mais verdadeiros conosco mesmos, mas menos sinceros com o outro. “Temos ao nosso dispor o ‘kkk’ sem precisar estar rindo, posso escrever ‘saudade’ sem de fato estar sentindo ou posso interromper uma conversa alegando que vou tomar banho, mesmo que não vá. Fico muito mais próxima de quem sou de verdade, pois não quero rir nem continuar aquele papo. Mas, ao vivo, não conseguiria sustentar aquela verdade”, explica a profissional, colunista do Hoje em Dia.

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Autoengano

Reiteradas, situações como essas podem levar ao enfraquecimento da autoestima, alerta a psicanalista. “A preocupação é com o autoengano, o pior deles, pois leva à frustração consigo mesmo, já que olha-se no espelho e não se vê aquilo que se está fazendo parecer ser”, explica Simone, reforçando que as redes sociais podem ser ainda mais danosas. 

“Estamos num momento em que quem vende melhor o peixe passa a imagem de que está melhor. Mas, na verdade, isso não diz nada. Não significa a saúde mental da pessoa, não significa que ela toma ou não tarja preta ou que ela dorme bem à noite. É só uma avaliação artificial que está influenciando a nossa vida”, afirma. 

Relações rarefeitas

Coordenadora do curso de Psicologia das Faculdades Promove, a psicóloga Maria Rita Tupinambá interpreta o aumento da mentira como espécie de estratégia para sustentar relações, cada vez mais rarefeitas no mundo virtual.

“Muitas vezes, o que chamamos de mentira não é uma afirmação contrária ao que se sabe, mas o sujeito tentando medir até onde pode falar ou o que e como pode falar, pois as relações, hoje, se desfazem com muita facilidade. Muitas vezes, o sujeito mente para responder a algo de que ele mesmo não dá conta”, explica a profissional. 

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Limite entre saudável e nocivo deve ser avaliado por cada um​

Embora pareça natural concluir que a mentira é sempre nociva, independentemente do contexto em que apareça, distinguir um comportamento entre saudável e doentio nem sempre é tão simples, afirmam especialistas. Coordenadora do curso de Psicologia das Faculdades Promove, em Belo Horizonte, Maria Rita Tupinambá diz que a mentira pode ser uma forma de se adequar ao meio. 

“A gente sempre pensa que o mentiroso está enganando alguém e isso vem da ideia de pessoas que usavam da ilusão para ludibriar e levar vantagem. Mas é preciso deixar esse questionamento muito medicalizado do cotidiano segundo o qual tudo precisa ser saudável ou não saudável, doença ou não doença. Às vezes, a pessoa tem tanta carência para se identificar com alguém que cria algo para dar conta daquilo”, justifica. 

Conforme a profissional, cabe a cada um balancear ganhos e perdas que se tem mentindo. “Mesmo que incomode o outro, a mentira serve a quem conta, portanto, é uma relação de perda e ganho individual. E este limite é subjetivo, não tem fórmula”. 

Proteção do ego

Fundadora do espaço Sentir Mulher, na capital, a psicóloga Daniela Bittar reforça que a mentira pode ter um viés de proteção das relações. “Será que dou conta do julgamento? Por que quero que me vejam desta e não de outra forma? As pessoas têm medo de se mostrar, mostrar que estão com depressão, que se sentem gordas. É o medo da aceitação, medo de serem vistas como realmente são”. 

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Palavra do Especialista

“Pode ser que existam mentiras consideradas inocentes, que sejam só para florear o currículo, por exemplo. Ainda assim, mentira é mentira e, neste contexto, nenhuma delas é justificável. Talvez a gente minta, aumentando o nível do inglês, por exemplo, no ímpeto de querer melhorar. Mas, como diz o ditado, mentira tem perna curta e uma hora a verdade é revelada. A empresa vai buscar informações e descobrir que aquilo não é verdade. A própria entrevista vai desmascarar o candidato e se houver alguma mentira, a pessoa ficará prejudicada. Não é algo interessante para a imagem de ninguém falar que tem inglês, quando não se tem, ou mencionar uma experiência em Excel, se não vai ser capaz de fazer uma prova usando a ferramenta. Coerência entre currículo e realidade é fundamental. Do contrário, ficará uma mancha na carreira daquele profissional, pois o mercado conversa. Não é algo que termine ali, naquele momento”.

Eliane Ramos
Presidente da Associação Brasileira de Recursos Humanos – Seção Minas Gerais (ABRH-MG)

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