Para muitas, não passam de peças obrigatórias. Para outras, cumprem mais do que o papel de cobrir e proteger o corpo. Acessório básico no guarda-roupa de toda mulher, as lingeries ajudam a fortalecer a autoestima e revelam não só a importância do autorrespeito, como promovem também o autocuidado. 

Aficionada pelas peças, que coleciona, a psicanalista Luiza de Oliveira e Almeida, de 29 anos, não esconde a relação íntima que guarda com os cerca de 40 conjuntos e outras dezenas de acessórios avulsos que tem. Para ela, a escolha do modelo, da cor, do tipo de estampa e até da renda representa amor e respeito por si mesma. 

“É o cuidado mais íntimo que uma mulher pode ter consigo. Assim como a roupa é uma declaração, é a forma como nos apresentamos ao mundo, a lingerie diz muito sobre como nos apresentamos a nós mesmas”, diz Luiza, que vê nas peças íntimas oportunidade de reverenciar o corpo, independentemente de estar ou não na melhor forma física. 

“Todo mundo tem suas inseguranças, aquelas coisinhas que mudaria, mas, quanto mais a gente se identifica com o corpo, mais sente prazer em vesti-lo, sobretudo a primeira camada (peça íntima). Hoje, muito apropriada dele e da história que conta, é ainda mais gostoso escolher uma lingerie”, comenta.

Vínculo

A dentista Karoline Soares Gamaliel Melo, de 35 anos, compartilha desse gosto. Herança da mãe, a paixão pelas lingeries, que ocupam quatro gavetas e outra parte importante do guarda-roupa, falou ainda mais alto após ter o primeiro filho, Théo, hoje com 3 anos. “O período de amamen-tação foi bem difícil. Por mais que já existissem peças bacanas, sentia-me desconfortável só com sutiãs pretos, beges e brancos. Passada essa fase, me joguei para renovar o estoque. Gosto do que vejo no espelho, sou feliz com meu corpo e faço das peças íntimas aliadas dessa boa relação”, detalha. 

Fundadora e designer da marca belo-horizontina Potti Romã, Luiza Borges conta que a empresa surgiu com o propósito de despertar e fortalecer o vínculo da mulher com o feminino. “Conectamos cada uma com seu íntimo. Potti é intimidade, autoconhecimento e transformação”, diz.

“Virar a chave da autoaceitação transforma nossa relação com o corpo. A partir daí, comprar uma lingerie bonita e olhar-se no espelho passa a fazer ainda mais sentido” - Karina Mendicino, psicóloga especializada em atendimento a mulheres

Mudança de olhar

Especialista no atendimento a mulheres, idealizadora do projeto Ser Inteira, em BH, a psicóloga Karina Mendicino acredita que a paixão por lingeries pode representar uma tentativa de flexibilizar padrões. A profissional reforça, no entanto, que a relação com o corpo só se transforma de verdade quando aprendemos a nos olhar de forma mais amorosa e menos julgadora. 

“Essas mulheres podem, sim, estar buscando flexibilizar um padrão, sobretudo quando escolhem uma peça e se acham bonitas, mesmo não tendo um corpo de revista. Mas a transformação passa por olhá-lo de forma mais amorosa, percebendo que somos mais que uma bunda flácida ou um peito pequeno. Somos humanas e estamos aqui para construir uma vida que nos faça felizes”, afirma.

Lingeries autoestima feminina Mariana Cyrne

ACEITAÇÃO - “Quando encontramos uma peça que valoriza nosso corpo, olhamos para ele com mais amor e carinho”, diz Mariana, que integra um blog de empoderamento de mulheres gordas

Blogueira 'fora do padrão' usa web para promover debate sobre corpos 'imperfeitos'

Ela poderia se esconder atrás de roupas superlargas e jamais ousar fotografar-se em uma lingerie, que dirá publicar as imagens. Mas optou por fazer justamente o contrário. Jornalista, integrante do blog Garotas FDP (fora do padrão), a mineira Mariana Cyrne, de 32 anos, usa a paixão pelas peças íntimas como ferramenta para influenciar e encorajar outras mulheres que, assim como ela, exibem curvas “imperfeitas”.

No perfil que mantém no Instagram – rede social na qual contabiliza mais de 30 mil seguidores –, não é raro encontrar fotos dela exibindo as peças que compra, ganha e que servem mais do que para adornar o corpo, para valorizá-lo. “Gosto da textura, da informação de moda, gosto de comprar novas peças. No meu caso, é uma relação que nasceu e se fortaleceu com o propósito de mostrar a outras pessoas que existe corpo além do padrão publicitário e que está tudo bem nisso”, afirma. 

“Adoro o fato de que me preocupo o suficiente comigo para colocar uma lingerie linda e que só eu verei. Isso prova que já me considero demais” - Luiza de Oliveira, psicanalista

Na opinião dela, o surgimento, ainda tímido, de marcas de lingerie plus size também contribui para que mulheres gordas se aceitem. “Não são mais só aquelas peças que nossas avós vestiam, aqueles sutiãs muitas vezes feios e calcinhas imensas. Hoje, conseguimos encontrar peças bonitas que vestem nosso manequim e que fazem toda diferença para uma mulher gorda”, acrescenta. 

Onde há beleza

Sócia na GG.rie, Allyne Turano lembra que precisou passar pela experiência negativa de não encontrar uma peça íntima bacana para ter a ideia de criar uma empresa no segmento plus size. Para ela, grifes voltadas para mulheres gordas ajudam a propagar o respeito a qualquer corpo. 

“Todas as mulheres sofrem pressão estética em algum nível. A gorda, além disso, sofre gordofobia. Ter uma lingerie desenhada para esse tipo de corpo é ter uma ferramenta maravilhosa. O segredo maior da lingerie é esse: dar à mulher a sensação de ‘poxa, sou bonita, sou gata, sou amada e sou o que quero ser’. É muito mais do que vou ficar bonita para o crush. É ver beleza onde o mundo diz que não há”.

“É preciso ir contra o que a gente ouve o tempo todo, de que nosso corpo é errado. A gente pode usar o que quiser. E se tem uma coisa que gorda pode, essa coisa é poder" - Allyne Turano, sócia de uma empresa de lingerie plus size

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