Os mais jovens talvez nem façam ideia do que sejam videolocadoras. Afinal, a grande maioria delas, muito comuns até a década de 1990, praticamente desapareceu com o surgimento das plataformas de streaming, como Netflix e Amazon Prime Video. Mesmo com perda de público, alguns desses espaços, onde é possível alugar filmes em DVD e blu-ray, resistem bravamente aos novos tempos. Para isso, cultivam clientela restrita, mas apaixonada e fiel.

As videolocadoras que sobrevivem se reinventam e buscam criar experiências únicas para seus clientes que não podem ser encontradas no formato digital. Os argumentos de quem prefere continuar com o aluguel de filmes em DVD são variados. Júlio de Souza é educador social e cliente da locadora Star Vídeo, na divisa dos bairros Coração de Jesus e Luxemburgo, em Belo Horizonte. É raro um mês em que ele não alugue de 15 a 20 filmes, entre clássicos e lançamentos. Júlio explica que sair de casa para ir à locadora é uma atitude que garante convivência e sociabilização com as pessoas.

“É uma oportunidade importante para conversar, trocar uma ideia com o atendente ou outros clientes que viram os filmes, ouvir as impressões deles. São coisas que a internet não nos proporciona”, avalia. Apesar da comodidade das plataformas de streaming, Júlio não desiste de ir semanalmente à loja ver os filmes espalhados pelas prateleiras. “Gosto de olhar a capa do DVD, ler a sinopse do filme e só então escolher o que vou levar para casa. Assim como há pessoas que gostam de escolher os filmes nas telas da Netflix, Prime Vídeo, Disney, prefiro estar presente na locadora. É o mesmo que acontece com os livros: há pessoas que não renunciam ao livro físico. No meu caso, é um prazer ir a cada seção. É disso que gosto”, admite Júlio.

“É uma oportunidade importante para conversar, trocar uma ideia com o atendente ou outros clientes que viram os filmes, ouvir as impressões deles. São coisas que a internet não nos proporciona”, avalia Júlio de Souza

Randolfo Paiva é o proprietário da Star Vídeo, locadora frequentada por Júlio. O negócio foi fundado em 1992 e mantém acervo precioso, de 30 mil títulos, entre clássicos, coleções inteiras de faroeste, box de filmes da década de 1980, bem como títulos vencedores de grandes premiações internacionais, além dos lançamentos.

TV a cabo
O empresário, que já trabalhou como representante comercial de distribuidoras de filmes, explica que a última década marcou o fechamento de grandes redes, que viveram o apogeu com a popularização dos aparelhos de DVD à derrocada ocasionada principalmente pelo acesso à TV a cabo, o consumo pirata, e, mais recentemente, os serviços on demand. “Além da redução do número de clientes, as locadoras sofreram muito com o esvaziamento do mercado cinematográfico. Algumas distribuidoras diminuíram os lançamentos, outras fecharam. O movimento caiu em torno de 80%”, afirma Randolfo.

Outra locadora que ainda resiste ao tempo e às mudanças do setor é a Art Vídeo, que funciona há 28 anos no coração da Savassi, região Centro-Sul de BH. Proprietária da casa, Marlene Lisboa Rosa Almeida Gomes conta que em 2015, para não ter que vender seu negócio, que já não dava lucro significativo, precisou se readaptar. A locadora, que ocupava duas lojas na rua Fernandes Tourinho, passou a ter metade do tamanho e o espaço passou a abrigar também uma galeria de arte e um antiquário. “Não conseguiria sobreviver apenas do aluguel dos filmes. A pandemia ajudou a piorar o cenário para nosso negócio; tinha três funcionárias e agora estou trabalhando sozinha e em horário restrito”, revela.

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