Pode ficar mais difícil o passe livre para políticos. Não em ônibus, como querem os que iniciaram há um mês as manifestações de rua, mas em aviões da Força Aérea Brasileira. A FAB tem 15 aeronaves, com capacidades variando de oito a 50 passageiros, à disposição de ministros e dos presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado.

O ministro da Defesa, Celso Amorim, se reuniu com o ministro Jorge Hage, da Controladoria-Geral da União, para discutir o uso desses aviões. O que decidirem será divulgado nesta semana. Antes da reunião, o senador João Capiberibe, do PSB do Amapá, enviou ofício solicitando a relação de voos da FAB requisitados por autoridades dos três poderes. A transparência deve inibir os abusos, como os descobertos pela imprensa.

O presidente da Câmara dos Deputados, Henrique Eduardo Alves, usou um avião de 50 lugares para viajar de Natal ao Rio, levando sete parentes, para assistirem à final da Copa das Confederações no Maracanã. Também compareceu a esse jogo, usando avião da FAB de oito lugares, o ministro Garibaldi Alves, da Previdência Social. Este ministério não tem recursos para reajustar a aposentadoria de quem recebe mais de um salário mínimo, mas comprou passagem em voo comercial para que o ministro se divertisse no Rio. No entanto, Garibaldi, que se reelegeu senador em 2010, preferiu viajar num avião da FAB, dando carona para um empresário que é sócio do seu filho Bruno.

Antes disso, o presidente do Senado, Renan Calheiros, requisitou um avião de 50 lugares para assistir em Trancoso, na Bahia, ao casamento da filha do senador Eduardo Braga, do PMDB do Amazonas. Ele viajou acompanhado da mulher, Verônica, no dia 15 de junho, um sábado, de Maceió a Porto Seguro. Por volta de 3h da madrugada de domingo, depois de assistirem também ao show do cantor Latino, embarcaram no mesmo avião para Brasília.

Depois de descobertos pela imprensa, os presidentes da Câmara e do Senado devolveram aos cofres públicos R$ 9,7 mil e R$ 32 mil, respectivamente. Henrique não titubeou, mas Renan primeiro disse que nada pagaria, para recuar no dia seguinte. Garibaldi ainda não se manifestou sobre devolução. Ele alega que tem direito de usar avião da FAB para deixá-lo onde quiser ficar. Não é o que determina o decreto 4.244, de 2002, que disciplinou o uso de aviões da FAB por autoridades.

Ao justificar o recuo, o presidente do Senado se declarou “sensível à nova agenda e aos novos tempos”.