Depois de um período de poucas oportunidades, principalmente nos últimos quatro anos, em razão da crise econômica, veio o respiro: 2018 promete ser o ano da retomada dos concursos públicos. Segundo a Associação Nacional de Proteção e Apoio ao Concursos (Anpac), a expectativa é de que, este ano, com a redução de restrições a contratações no serviço público, sejam confirmadas em edital 162 mil vagas no país, mais que o dobro de 2017 (73 mil) e a maior quantidade anual da última década.

Levantamento feito pelo Hoje em Dia aponta que, em Minas Gerais, os editais publicados somam, só neste mês, cerca de 19,5 mil oportunidades, contabilizadas prefeituras e câmaras municipais (2,3 mil vagas no total, sendo 102 no legislativo da capital) e empresas e órgãos como a Cemig (108 vagas), a UFMG (56 vagas) e o próprio governo estadual, que oferece de uma vez 16,7 mil postos para professores da educação básica – as inscrições vão de 26 de fevereiro a 8 de março.

“Não podemos dizer que houve menos concursos nos últimos anos, mas, sim, que menos vagas foram oferecidas, em razão de fatores como a crise fiscal. Agora, com a ligeira recuperação econômica e com muitos órgãos esvaziados e correndo até risco de colapso, o poder público não tem alternativa a não ser oferecer um maior número de oportunidades”, afirma o presidente da Anpac e professor Marco Antonio Araújo Júnior.

Há quem diga que a conta da Anpac é exagerada, tendo em vista que 2018 é ano eleitoral, o que restringiria os concursos, e que o governo Temer, apesar de anúncio recente de aumento de verba para reposição de vagas federais, estaria preocupado com o inchaço da máquina pública. Exemplo disso foi o decreto presidencial, publicado em 10 deste mês, extinguindo 60,9 mil cargos públicos considerados dispensáveis.

Marco Antônio, contudo, garante que esses fatores não prejudicam a estimativa. “Em ano eleitoral, vale lembrar que concursos podem ser abertos. A única limitação é a de nomeação do servidor nos três meses antes do pleito e até a posse dos eleitos”, diz. “Em relação aos cargos eliminados pelo governo, acreditamos que haverá uma espécie de compensação nos números, já que há necessidade de reposição e de novas vagas”, acrescenta.

No cálculo das vagas a serem abertas no país neste ano, a Anpac levou em conta aspectos como a Previsão Orçamentária do governo federal, aprovado no final de 2017, com mais de R$ 600 milhões para concursos, e o aumento da procura dos servidores federais pela aposentadoria, temendo a reforma previdenciária. Foram mais de 20 mil pedidos no ano passado, contra 15 mil, em média, nos anos anteriores, a partir de 2012.

“A previsão do próprio governo a é de que, até 2022, 40% dos funcionalismo, ou 216 mil pessoas, peçam aposentadoria na União”, diz Marco Antônio.
 

Preço médio da mensalidade de cursinho em BH é R$ 1 mil

O mercado de cursinhos está aquecido com a perspectiva de mais concursos no setor público em 2018. Este mês, segundo o coordenador do Mega Concursos, de Belo Horizonte, Marcelo Cury, o volume de matrículas subiu 40% em relação a 2017. “Estamos com cerca de mil alunos e, no decorrer do semestre, com novos editais, a tendência é que o número cresça ainda mais”, diz ele, lembrando que o custo total da preparação para estudantes depende da carga horária e do tipo de concurso, mas a mensalidade média custa R$ 1 mil.

A maior procura no Mega, explica Cury, tem sido pela qualificação às provas da Secretaria de Estado da Educação, com as mais de 16 mil vagas para professores e pedagogos. Mas também é grande o volume de inscritos para tentar cargos na Câmara Municipal de Belo Horizonte - com inscrições já encerradas -, Cemig e UFMG.

Nacionais

Além disso, há muitos candidatos, em cursinhos ou estudando por conta própria, que pretendem fazer concursos nacionais como o da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), cujo salário é de até R$ 16,6 mil, e outros, autorizados ou em vias de autorização, como os da Receita, Banco Central, polícias Rodoviária Federal e Federal, INSS, Câmara dos Deputados e Senado, polícias dos estados e opções no Judiciário, o que inclui tribunais e Ministério Público.

Conta própria

Apesar da preparação para concursos requerer organização, disciplina e orientação de bons professores, muita gente tem optado por estudar por conta própria.

A técnica em cosmetologia Marilia Gomes de Souza Correia, de 33 anos, estuda para concursos há quatro anos. De lá pra cá, já fez seis tentativas, todas no Judiciário. Frequentou cursinhos, mas hoje prefere estudar sozinha, pelo menos até às vésperas das provas.

“Deixo para fazer matrículas nos cursinhos apenas na proximidade dos testes. É mais produtivo e menos oneroso”, diz. Ela tomou a decisão depois de gastar um bom dinheiro com cursinhos - o custo de preparação para cada concurso costumava ser, segundo ela, de R$ 2,5 mil.

A advogada Nathalia Araújo Cipriani, de 31 anos, também deixou de lado os cursinhos e hoje estuda em casa. “Tenho muito material e é mais prático fazer meus próprios horários”, afirma.

Além de tentar vagas no Judiciário, inclusive para a magistratura, ela tem focado as atenções em certames para ser delegada de polícia. “Já há concursos autorizados para a Polícia Civil em vários estados, inclusive em Minas, onde serão mais de 70 vagas para delegados. Em geral, são remunerações interessantes e há boas perspectivas na carreira”, diz.


SAIBA MAIS

De acordo com o professor e especialista em gestão pública Claudio Alfradique, da Fundação Getúlio Vargas e da Faculdade IBS, de Belo Horizonte, é provável que boa parte das vagas abertas este ano seja para repor aposentados ou para ampliar serviços da Justiça.

A explicação é que, conforme o princípio da divisão de poderes e a Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF), que limita gastos do setor público, o Judiciário, assim como o Legislativo, tem mais recursos disponíveis para preenchimento de vagas, novas ou não.

“Ao contrário do que ocorre no Executivo, esses poderes estão, de modo geral, ainda dentro dos limites da LRF e, por isso, têm menos restrições para novas contratações”, diz.

Alfradique também acredita que concursos devem ser abertos em outros setores, como governos estaduais, mesmo que as condições financeiras e fiscais estejam longe do ideal. “Não é uma questão de escolha. É para evitar que a máquina pública pare por falta de pessoal”, afirma.

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