O segmento de cervejas artesanais em Minas, que vinha crescendo a uma média de 20% ao ano, foi duramente castigado com o caso Backer, os fortes temporais que caíram no Estado no início deste ano e, agora, com o novo coronavírus. “Quando estávamos recuperando o fôlego, veio a pandemia, e realmente nos jogou totalmente no chão. Uma perda de arrecadação de 90%”, conta o cervejeiro Marco Falcone, vice-presidente do Sindicato das Indústrias de Bebidas em Geral de Minas Gerais (Sindbebidas), diretor da Associação Brasileira de Cervejas Artesanais (Abracerva) e um dos sócios da cervejaria Falke Bier, uma das pioneiras na produção artesanal no Brasil. 

Em entrevista ao Hoje em Dia, ele prevê que muitos fabricantes vão fechar as portas e sairão falidos após todas essas dificuldades. “Quem sobreviver, sai bem fortalecido, porque a gente aprendeu uma série de outras modalidades de fazer economia e de chegar ao público consumidor”, disse. Neste período de pandemia, o setor teve que se reinventar, inclusive ampliando as vendas pelo delivery, já que os bares e pontos de venda na capital se encontram fechados.

Em relação à recente afirmação de representantes da Backer, na Câmara Municipal de BH, de que todas as cervejas têm “traços” de mono e dietilenoglicol, Falcone, que também é professor da Escola Superior de Cerveja e Malte de Blumenau (SC), afirma que o Sindibebidas já está atuando para a expulsão da marca do sindicato. “Essa acusação foi uma tentativa de morrer atirando em todo o setor”, lamenta. 

Como o setor tem reagido a essas crises? As vendas chegaram a cair muito depois do caso Backer e agora com a pandemia do novo coronavírus?
Gosto de dizer que 2020 é o ano que não deveria ter existido, porque o nosso setor foi profundamente afetado. Vinha crescendo, talvez o mais pujante da economia mineira e nacional. É um setor que crescia 20% ao ano, apesar de todas as crises. Nós abrimos o ano com a crise da Backer, que foi realmente o nocaute que nós tivemos, porque as pessoas se assustaram, num primeiro momento, com tudo aquilo. Felizmente, fomos bastante positivos e mostramos para o setor que aquilo era um caso pontual, um caso à parte, uma coisa que aconteceu uma única vez no planeta. Um acidente que aconteceu à parte, em uma cervejaria, que não tinha nada a ver, e que isso não contaminaria o setor. Nosso público é muito desenvolvido, bastante fiel e realmente sabe discernir as coisas. Ele não se afastou. Tivemos uma perda, às vezes de novos entrantes, porque todos se assustaram com esse problema da Backer. Nós conseguimos consertar isso, mostramos que podiam confiar no setor e, realmente, as vendas não chegaram a cair naquele momento. Naturalmente, não houve uma expansão também, porque foi o pior baque que nós tivemos. Depois, veio a questão dos temporais. Minas Gerais ficou debaixo d’água. Logicamente, isso fez reduzir o consumo. E, por fim, quando nós estávamos recuperando o fôlego veio essa pandemia, que realmente nos jogou totalmente no chão. Uma perda no faturamento bruto de 90%.

Com essa questão do isolamento social para evitar a disseminação da Covid-19, houve um aumento do consumo de cervejas?
A gente acha que, pontualmente, sim, houve um aumento no consumo nos lares. Mas a diminuição, a perda de vendas que nós observamos, foi muito grande. Porque, você imagina, uma cidade que tem 18 mil bares, todos eles fechados... A Falke tinha mais de 150 pontos de venda, todos fechados. O nosso próprio bar, que é a Casa Falke, fechado. Então, o consumo de cerveja diminuiu violentamente. Naturalmente, o delivery teve um aumento bastante relevante. Pode dizer que nosso delivery, pelo que era antes, aumentou 60%. As pessoas se acomodaram em casa e, casualmente, vão beber um pouco mais, mas se olhar o consumo de cerveja no geral, a redução foi muito grande, uma coisa bastante significativa mesmo.

Neste momento de pandemia do novo coronavírus, que medidas foram tomadas para tentar minimizar os impactos nas vendas? Houve a adoção de medidas sanitárias?
Tivemos que inovar, usar a criatividade. Nós turbinamos o nosso aplicativo de delivery, que passou a ser o principal canal de venda. Então, a pessoa recebe em casa, com entrega gratuita. Tem uma série de promoções, os preços caíram para poder atrair as pessoas e, com isso, realmente acho que a gente sai para uma possibilidade futura de manter esse contato mais próximo com o público. E, com relação a medidas sanitárias, não há o que se proceder com relação ao consumo de cerveja neste momento.

O que o mercado cervejeiro artesanal projeta para este resto de ano? Há um planejamento também para o pós pandemia?
Projeção para o restante de 2020 é uma questão difícil de se fazer, porque nem as próprias autoridades sabem quando as coisas retornarão ao normal. Falavam que era meados de abril, já estão falando meados de maio. Outros já falam que é em junho. Eu acho que a gente não retoma à normalidade antes de agosto. Então, a nossa procura é realmente as fontes alternativas de venda. Acho que quando as coisas voltarem à normalidade, nem todos que frequentavam as aglomerações, os locais públicos, retornarão. Então, vai ser um trabalho de reconstrução, uma coisa lenta e gradual, para ver se a gente consegue chegar no fim do ano na normalidade que a gente parou no mês de fevereiro. Realmente, a situação é uma incógnita. Muitos vão sofrer. Nós teremos muitos fabricantes do setor falidos e fechados no final disso tudo, mas a gente acha que quem sobreviver sai bem fortalecido, porque a gente aprendeu uma série de outras modalidades de fazer economia e de chegar até o público consumidor.

Voltando ao caso da Backer, após a contaminação de lotes da Belorizontina por mono e dietilenoglicol, muitas pessoas deixaram de consumir as cervejas artesanais com receio? Isso ainda tem acontecido ou já é um caso superado?
No caso Backer, o que houve foi uma retração de novos entrantes. Tivemos um preconceito muito grande, às vezes de outros estados, inclusive. Vimos o pessoal de São Paulo, por exemplo, dizendo que toda cerveja de Minas era contaminada. Tivemos até repórter, apresentador de jornal famoso aí, falando “vamos a Belo Horizonte para ver o que está acontecendo com as cervejas de Minas”. Quer dizer, foi uma generalização absurda, que nós tivemos muita luta, muita mão de obra para poder reverter. Porque a desinfor-mação é o grande problema, mas eu acho que com relação a isso já está superado. Nós fizemos um bom trabalho, retomamos a confiança do consumidor, e o caso Backer, para mim, é coisa do passado, apesar de ter impactado e marcado bastante o setor.

Após esse episódio da Backer, as artesanais estão se precavendo mais e dando mais transparência ao processo de fabricação para atrair o consumidor?
Procuramos, a todo momento, após o caso Backer, expor para o público consumidor o nosso processo de fabricação, mostrando a segurança, como que a gente é cuidadoso, como que o nosso setor prima pelo esmero, pela qualidade. E mostrando que aquilo não era possível acontecer se a gente mantiver esses procedimentos, com todo esse cuidado. Então, essa confiança é plenamente retomada e o público, que já nos conhece, que é maduro, acredita e sabe que nosso processo de fabricação é bastante atrativo e cuidadoso.

Recentemente, na Câmara de BH, houve uma declaração de representante da Backer de que toda cerveja tem traços de dietilenoglicol. Isso causou indignação no setor?
A afirmação da Backer, na Câmara dos Vereadores de Belo Horizonte, dizendo que todo o setor tinha o dietilenoglicol foi algo absolutamente irresponsável, mentiroso, calunioso, porque as cervejarias não utilizam o dietilenoglicol. Utilizamos o etanol, justamente por segurança alimentar. Então, essa acusação foi uma tentativa de morrer atirando em todo o setor. Realmente, causou uma indignação muito grande, a ponto de o Sindbebidas já estar agindo em prol da expulsão da Backer do sindicato, porque realmente os nossos pares, os nossos 86 associados do Sindbebidas, são todos de muita responsabilidade e não aceitaram. Ficaram realmente transtornados com essa acusação injusta e irresponsável.

E que mensagem o senhor deixa para os fabricantes de cerveja artesanal e para o público consumidor?
De otimismo, de força, que a luta continua. Vamos sair fortalecidos desse episódio todo. E o público consumidor, que demorou anos para ser cativado, para ser catequizado ou evangelizado para a nova realidade, que era a cerveja artesanal, um produto puro e saudável, feito com matérias primas nobres, foi uma conquista muito difícil, muito valorosa que foi obtida. Que o público tenha confiança, continue consumindo nossos deliveries e aguarde. Assim que a coisa se restabelecer, receberemos todos de braços abertos, nos bares, nas nossas fábricas, com toda exposição dos nossos processos.