Junto com o agropecuário, o setor de construção civil foi o que mais cresceu em meio à pandemia da Covid-19. Em Minas, os canteiros de obras mantiveram-se ativos, já que a atividade foi considerada essencial – e, por isso, não sofreu interrupções –, gerando empregos e renda para milhares de trabalhadores. Nesta entrevista exclusiva ao Hoje em Dia, o presidente do Sindicato da Indústria da Construção Civil no Estado (Sinduscon-MG), Geraldo Linhares, explica que a boa performance do segmento, com recordes de vendas de unidades novas, deveu-se também a outros fatores.

Ele destaca, por exemplo, a flexibilização de regras dos financiamentos, pela Caixa, a taxa Selic de 2%, a mais baixa da história e que estimulou os investimentos em ativos imobiliários, mais vantajosos que a renda fixa e outras aplicações. Sem mencionar o fato de que, com a quarentena, muitas pessoas viram-se estimuladas a trocar de casa.

Linhares fala ainda das perspectivas da indústria da construção para este semestre e para 2021 e revela qual perfil do futuro prefeito da capital, a ser eleito em novembro, seria mais positivo para o segmento que ele representa.

Apesar de perdas no início da pandemia, a construção civil e a agropecuária foram as atividades econômicas que mais avançaram à medida que a crise  prosseguia. A que isso se deveu, no caso da construção?
A construção civil foi beneficiada por ter sido considerada atividade essencial pelo governo estadual, mantendo as atividades normalmente. O Sinduscon-MG instruiu as associadas quanto aos protocolos de saúde e prevenção contra a Covid-19 e teve o apoio dos sindicatos laborais, o que resultou em um aditivo à convenção coletiva.

Quais estratégias do segmento mais asseguraram o bom desempenho (adaptação de canais de venda, atendimento digital etc.)?
Depois do impacto inicial, em março e abril, com a evolução dos trabalhos home office, as empresas evoluíram rapidamente as vendas e o marketing por meio de plataformas virtuais com grande sucesso.

Nas vendas, parece que houve recordes, como no caso dos apartamentos de luxo. Como foram no geral e por segmentos de consumidor as comercializações em Minas e em BH/Nova Lima?
O mercado imobiliário cresceu positivamente, a partir de junho, por vários motivos: flexibilização da Caixa para os mutuários com pagamento da primeira parcela do empréstimo em 180 dias, a baixa dos juros e comprometimento no SBPE (financiamento com recursos da poupança) e taxa Selic de 2%. Além disso, a necessidade das pessoas de possuírem uma casa mais adaptada à pandemia e as baixas taxas de retorno das aplicações financeiras também contribuíram para esse cenário. Os investidores identificaram que a melhor aplicação de mercado é o imobiliário. As altas dos apartamentos de alto luxo comprovam essa tese. Em setembro, tivemos a maior velocidade de vendas (aproximadamente 14%) desde de 2015.

“Mantivemos 225 canteiros de obras ativos na pandemia e, com o crescimentos das vendas dos lançamento, iniciamos novas obras, possibilitando novas contratações de pessoal”

O setor também se destacou em BH como responsável pela maior geração de vagas de emprego. O senhor poderia detalhar esse aspecto?  
A manutenção dos empregos e abertura de novas vagas sempre foram a nossa maior preocupação. Mantivemos 225 canteiros de obras ativos durante a pandemia e, com o crescimento das vendas dos imóveis de lançamento, iniciamos novas obras, possibilitando novas contratações de operários. A construção civil é um grande propulsor da economia. Quando iniciamos uma obra, ativamos outros 97 setores da economia, que também vão proporcionar novos postos de trabalho.

Passados alguns meses de pandemia, houve elevação significativa de preços de insumos da construção. O que explicou esse fenômeno?
Tivemos uma alta improcedente dos nossos insumos, na maioria dos materiais, sem nenhuma justificativa, com clara ação de manipulação de preços. O Sinduscon-MG entrou com uma ação no Procon e no Ministério Público sobre esses abusos e estamos aguardando a conclusão do processo. Além dos aumentos, o desabastecimento resulta em atrasos das obras, o que pode levar à necessidade de corte de gastos, provocando, inclusive, demissões no setor. As empresas vão cumprir com os compromissos, porque são idôneas, mas a pressão do custo sobre a venda é preocupante.

Os preços dos imóveis novos tendem a aumentar em função disso, nos próximos meses?
Sim. Com essa alta, a tendência é uma majoração nos preços dos novos empreendimentos, penalizando a sociedade, impedindo que várias pessoas consigam realizar o sonho da casa própria.

Como o senhor avalia a redução de juros e as facilidades ao crédito imobiliário no país, nos últimos meses? O que foi feito? Está a contento ou pode melhorar?
As medidas de redução de juros e facilidade de crédito foram perfeitas e vieram em boa hora. O governo federal tem que achar um caminho para que os mais vulneráveis tenham acesso a casa própria, já que, nesse aspecto, ainda não temos uma solução e essa demanda é de aproximadamente 5 milhões de lares.

Para este semestre e para 2021, embora ainda sob incertezas em relação à crise da Covid-19, quais as expectativas do setor em Minas e no país?
Entendo que o setor está crescente. Pacificado o problema de alta de preços de materiais e desabastecimento, o mercado será perene com um crescimento superior aos últimos anos.

A liberação de saques nas contas do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) foi criticada por representantes da construção civil. O senhor acha que isso pode prejudicar os investimentos em moradias, a curto, médio e longo prazos, e ampliar a quantidade de submoradias, sobretudo nos grandes centros?
O ataque constante aos recursos do FGTS é inconsequente e prejudica a política de financiamento para as classes C, D e E. A falta de uma política habitacional de interesse social leva a submoradias e a ocupação de áreas sem nenhuma infraestrutura básica. Saneamento básico é sinônimo de saúde e de economia. O governo tem que respeitar a vocação do FGTS.

Que avaliação o senhor faz do programa Casa Verde Amarela, reformu-lação do Minha Casa Minha Vida?
Entendo que está em construção; depende da aprovação do Congresso. Achei as medidas muita tímidas. Houve uma pequena redução nos juros para as pessoas que ganham até R$ 2 mil e uma ação para regularização fundiária e melhorias das comunidades através dos agentes públicos. No restante, manteve as regras do MCMV .

Na campanha eleitoral, em BH, muitos candidatos têm defendido a revisão do Plano Diretor de BH, que estaria espantando projetos de empresas de construção da cidade. Como o senhor avalia essa questão?
A revisão do Plano Diretor é fundamental. O setor produtivo alertou a sociedade, de que teríamos uma debandada de investimentos na cidade, principalmente do setor imobiliário. Independentemente de quem ganhar a eleição municipal, se tiver interesse em retomar investimento em Belo Horizonte, deve abrir o diálogo com o setor produtivo para refor-mulação do Plano Diretor.

Sem citar nomes de candidatos, qual seria o perfil ideal do próximo prefeito de BH, segundo os anseios dos empresários da construção civil?
O prefeito ideal é o que mantenha diálogo com a sociedade, que escute todos os setores. E o caminho para esse grande diálogo é o Conselho de Desenvolvimento Econômico (Coden), praticado em várias cidades do Brasil, em que a prefeitura participa em paridade com a sociedade e o melhor para a município é discutido republicanamente. Belo Horizonte precisa reagir economicamente e, para isso, é importante que o futuro prefeito interaja com a sociedade.