A corrida aos postos de combustível desde o último fim de semana e o desabastecimento de parte deles em função da alta demanda são provas do estrago que boatos nascidos no WhatsApp, hoje a principal ferramenta de comunicação virtual, podem causar na vida real. Nem o fato de representantes dos caminhoneiros terem negado, pelo terceiro dia seguido, nova paralisação da categoria demoveu belo-horizontinos da ideia de encher o tanque do carro por pura precaução. O resultado foi justamente o que todos temiam: bombas secas e, para piorar, aumento do preço da gasolina e do diesel para o consumidor final. 

Dos 14 postos procurados pelo Hoje em Dia na manhã de ontem, seis estavam desabastecidos e com preços ultrapassando R$ 5 em algumas unidades. 

O motivo, de acordo com o Minaspetro, seria o aumento repentino da demanda. “O desabastecimento não possui nenhuma relação com o estado de greve. Aconteceu porque uma quantidade imensa de pessoas foi aos postos durante o fim de semana, muitas com o objetivo de estocar combustível, e as unidades não conseguiram repor imediatamente esse fluxo por uma questão de logística”, informou a instituição, por meio da assessoria.

A situação se regularizou à noite, jogando por terra os rumores de greve. Mas, àquela altura, muita gente já tinha passado parte do dia na fila de postos. Como o motorista profissional Mário Gomes, de 71 anos. “Não quis arriscar ficar sem combustível”, explicou.

Entidades negam greve

Ao contrário dos boatos que tomaram o WhatsApp no último fim de semana, a greve não foi confirmada por nenhuma entidade que representa a categoria.

Entre os alertas mais recorrentes estava uma nota fake da Polícia Rodoviária Federal e um comunicado da União dos Caminhoneiros do Brasil (UDC). Ambos informando paralisação por tempo indeterminado a partir de 8 de setembro. 

A PRF negou a autoria da nota. A União dos Caminhoneiros do Brasil não tem site oficial ou telefones para contato. 

O Sindicato Interestadual dos Caminhoneiros de Minas Gerais, a Federação das Empresas de Transportes de Carga do Estado de Minas Gerais (FETCEMG) e a União Nacional dos Caminhoneiros (Unicam) garantiram não ter conhecimento sobre uma possível greve.

A Associação Brasileira dos Caminhoneiros (Abcam) também afirmou não haver nenhuma paralisação programada e afirmou desconhecer a existência da UDC. “Pedimos que a população fique tranquila, pois estamos em constante diálogo com o governo. As demandas da categoria foram atendidas e qualquer ajuste que se faça necessário será realizado em acordo com os órgãos governamentais”, afirmou, em nota. 

Fake news

De acordo com Virgílio Augusto Fernandes Almeida, professor do departamento de Ciências da Computação da UFMG e responsável por estudos sobre a propagação de fake news no ambiente digital, esse tipo de viralização acontece porque as pessoas são mais propensas a espalhar más notícias. 

“Uma pesquisa desenvolvida pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts mostra que as novidades negativas tendem a atrair a atenção das pessoas e que são maiores as chances de passar uma mensagem falsa para frente do que uma notícia verdadeira”, afirma. 

Para evitar o compartilhamento de informações falsas, o sociólogo Silvio Salej afirma que é preciso ficar atento e duvidar antes de repassar uma notícia.

“Não podemos ser ingênuos, especialmente no meio de uma campanha política, quando existem grupos organizados e com recursos tecnológicos para construir e fabricar boatos. É preciso estar atento, suspeitar e ser criterioso antes de passar para frente”, afirma. Além disso, ele sugere evitar o compartilhamento de notícias alarmistas, especialmente quando não há certeza de que é verdadeira. 

Com corrida aos postos, consumidor pagou mais caro por gasolina e diesel

Os boatos podem não reproduzir fielmente os fatos, mas seus impactos sobre a economia são reais. Pesquisa divulgada ontem pelo site Mercado Mineiro mostrou que vários estabelecimentos aumentaram o preço da gasolina no fim de semana. 

Em alguns postos, o valor ultrapassou os R$ 5, como em um localizado no Vila da Serra, em Nova Lima, onde o litro estava sendo vendido no domingo a R$ 5,09 – um aumento de 6,25% em relação ao praticado há 15 dias.

Ainda segundo o estudo, o preço médio da gasolina subiu 1,31% nos últimos 15 dias em Belo Horizonte e região. Se na última quinzena a média do litro desse combustível custava R$ 4,677, passou a ser R$ 4,738. 

O valor do diesel, foco da greve dos caminhoneiros realizada em maio, também sofre alta. O preço médio aumentou 2,8% nos postos da capital, um acréscimo médio de R$ 0,11 no litro, segundo a pesquisa. 

Sindtanque

Em estado de greve desde ontem, o Sindicato dos Transportadores de Combustíveis e Derivados de Petróleo de Minas Gerais (Sindtanque-MG) informou que, por enquanto, os combustíveis estão sendo entregues normalmente. A entidade descartou paralisar as atividades pelo menos até o encontro agendado com a BR Distribuidora, previsto para ocorrer hoje, no Rio de Janeiro.

Investigação

Em nota, o Ministério da Segurança Pública informou que a Polícia Federal investigará as mensagens que circulam no WhatsApp e que, por causa dos danos à economia e da desordem causada, os responsáveis poderão responder criminalmente.

“Desmentida pela Associação Brasileira dos Caminhoneiros (Abcam), entre outras representantes da categoria, as mensagens se enquadram na categoria de fake news e seus autores e veiculadores podem responder por crime contra a economia popular e por publicidade enganosa”, afirmou a nota da organização. 

Outros casos

Essa não foi a primeira vez que a rede social é utilizada para causar alarde.Em junho deste ano, uma onda de ataques a ônibus em Minas Gerais também teve início no WhatsApp. Em seis dias, foram 64 ônibus incendiados, 94 presos e 22 menores apreendidos em 37 cidades mineiras. 

Durante as apreensões em Araxá, no Alto Paranaíba, um dos mandantes dos atentados foi preso e, com acesso aos dados de um aparelho celular apreendido, descobriu-se um grupo de WhatsApp que era utilizado para articular os ataques.

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