Há 25 anos caía um dos mais importantes símbolos da Cortina de Ferro e da dicotomia que tomou o mundo entre o fim da Segunda Guerra e o dia 9 de novembro de 1989. O Muro de Berlim, símbolo da divisão da Alemanha em uma metade capitalista e outra comunista, vinha abaixo.

Marca concreta da opressão e do antagonismo, o muro ruiu aos olhos do mundo. Passado um quarto de século, quais são suas consequências? A Alemanha é, hoje, um país coeso? Enrique Luz, doutorando do Centro de Pesquisas sobre o Antissemitismo da Universidade Técnica de Berlim, já morou em ambas as metades da cidade.

“No aspecto político, a principal mudança foi a queda do comunismo e a transição para a democracia. No aspecto social, destaca-se o desemprego em massa nos ‘novos estados’ durante os primeiros anos da reunificação, causado pela brusca mudança da estrutura econômica alemã. No aspecto econômico, apesar da intensa injeção de capital nos ‘novos estados’, ainda é possível notar uma diferença nos indicadores econômicos, especialmente nos índices de desemprego e de produtividade, além dos salários e do PIB per capita, que é cerca de 25% inferior na antiga República Democrática Alemã (RDA)”, explica Enrique.

Para equalizar as diferenças foram necessários grandes investimentos. O sociólogo Klaus Schroeder, da Universidade Livre de Berlim, calcula quase € 2 trilhões.

Um quarto de século mais tarde, pesquisa do jornal Berliner Morgenpost, realizada em parceria com o canal de televisão RBB, mostra que 75% dos moradores de Berlim se sentem cidadãos de uma cidade unida.

A unificação ajudou a consolidar o país como o principal expoente da zona do euro, respondendo por 27% de toda a produção do megabloco. Hoje, Frankfurt é um dos principais centros financeiros da Europa, rivalizando com Londres.

Berlim unificada ainda guarda os sinais de dois mundos à parte

As diferenças entre as antigas Alemanhas Oriental e Ocidental podem ser percebidas de várias formas. Algumas são visíveis, literalmente. A arquitetura das duas partes de Berlim, que apesar de localizada na parte Oriental também foi divida, é bastante diversificada, uma mais moderna e outra mais simplória. A diversidade populacional também é bastante grande. Jovens e estrangeiros estão em sua grande maioria na porção que antes era a capitalista.

Em contrapartida, o desemprego na antiga parte comunista é superior. “Alguns argumentam que pouco dinheiro foi investido no sentido de estimular o crescimento econômico, melhorar infraestrutura e desenvolver o sistema educacional, principalmente aquele voltado à formação e capacitação profissional”, argumenta Enrique Luz, doutorando do Centro de Pesquisas sobre o Antissemitismo da Universidade Técnica de Berlim.

Outros levantamentos do jornal alemão Die Zeit em sua versão on-line mostram que algumas características oriundas do comunismo ainda perduram na porção oriental: o maior número de crianças em creches, de pessoas imunizadas contra a gripe e a quantidade muito menor de lixo per capta.

“Na antiga RDA, muitos aspectos da vida social eram centrados no ambiente de trabalho. O trabalho definia o papel do cidadão na sociedade, e sua perda provocou um choque social enorme”, analisa Enrique.

Uma das características que a divisão de Berlim em duas cidades trouxe foi a diferença de perfil dos moradores de ambas as metades. Apesar de uma mudança que vem acontecendo nos últimos anos, com o processo de reforma dos prédios mais simples e o aumento do valor dos aluguéis, a capital germânica ainda vive “duas vidas”.

Os mais ricos moram na parte ocidental e os mais pobres, grande parte de estudantes e imigrantes, moram na parte oriental.

Os restaurantes de luxo se concentram na parte oeste, e os restaurantes de culinária étnica são maioria no lado leste. Essas diferenças também se refletem em aspectos menos palpáveis e mais ligados ao cotidiano. Atualmente, todos os 18 clubes que disputam a primeira divisão do Campeonato Alemão são provenientes da antiga Alemanha Ocidental.

Depoimento

Eu tinha 15 anos no dia da queda do muro de Berlim. Esse dia 9 de novembro parecia uma quinta feira como as outras no final do outono, nublada, fria, cinzenta. Eu, meus pais e meu irmão assistimos as notícias a noite na televisão e não podíamos acreditar no que estávamos vendo. O Muro de Berlim tinha sido aberto e tinha uma fila enorme de alemães orientais passando para Berlim ocidental. Todos nos, ate os jornalistas se perguntavam se aquilo realmente estava acontecendo. As imagens daquelas pessoas saindo pelas ruas, reencontrando amigos e famílias (depois de várias décadas), celebrando com espumante ficaram na minha memória, junto com as imagens das filas de „Trabi“ (o carro típico da DDR) passando pelas fronteiras e sendo recebidos pelos alemães ocidentais com palmas. A noite virou dia. Muitas pessoas conseguiam subir no muro, outras tentavam quebrar pedaços dele. Esse dia 9 de novembro, que sempre foi uma lembrança trágica por causa da Reichspogromnacht em 1938 (noite em que os nazistas destruíram milhares de sinagogas, lojas e casas de judeus) virou uma data de esperança na Historia da Alemanha. A queda do muro simbolizou o fim de uma Alemanha dividida e realizou o sonho de liberdade de milhares de alemães ocidentais.

Algumas semanas depois, eu e dois amigos fomos de carro para Alemanha oriental. Passamos pela fronteira do estado de Hessen para a Turíngia. Me lembro da paisagem triste ; todas as casas velhas, cinzas e marrons, mas as pessoas eram o contrário, elas nos saudavam com muito calor, com faixas de boas vindas e macas (a fruta que eles tinham). Em uma lojinha eu comprei um cartão postal para mandar para meus avós e perguntei à vendedora quanto custava um selo pra Alemanha. Ela sorriu e disse: olha menino, aqui também é Alemanha!

Frederik Roos, 40 anos, médico residente em Mainz, casado com a brasileira Eugênia Teixeira, de belo Horizonte

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