Vinte e sete anos após abrir o restaurante Acaso 85, em Ouro Preto, Maria das Graças Alves decidiu fechar o estabelecimento: “Há poucos dias, antes de (a Covid-19) chegar ao Brasil, eu conversei com um grupo de franceses sobre os problemas que (a pandemia) traria...”, justifica, referindo-se aos impactos econômicos provocados pelo coronavírus.

Quem depende do comércio local, em qualquer cidade, já lamenta os prejuízos. Mas o baque é maior para aqueles que têm os turistas como principais clientes. As prefeituras ainda não arriscam dizer o tamanho da perda, mas estimam que será grande e freará um setor que estava em crescimento.

A última edição do Observatório do Turismo em Minas Gerais, formado por órgãos públicos, iniciativa privada e sociedade civil, apurou que 27,9 milhões de pessoas visitaram o Estado em 2019 e deixaram por aqui R$ 20 bilhões. Em 2018, R$ 18,2 bilhões.

“O turismo representa a maioria dos empregos em Ouro Preto. Os atrativos, como museus e minas, estão todos fechados, também hotéis”, lamenta Felipe Guerra, secretário de Turismo do município.

A cidade recebe, a cada ano, cerca de 500 mil visitantes. Eles desapareceram e, assim como as ladeiras, hotéis também estão vazios. Até porque os programas que atraem visitantes, como passeios e parques, estão inoperantes.

É o caso da Maria Fumaça que leva turistas de Ouro Preto a Mariana e vice-versa. A linha férrea de turismo é operada pela Vale. A companhia informou que “não há previsão para o retorno das atividades”, mas que eventuais bilhetes adquiridos serão ressarcidos em dinheiro ou terão a viagem remarcada, a critério do consumidor.
“Vivemos um momento em que ninguém deve se atrever a fazer turismo”, resumiu Efraim Rocha, secretário de Cultura e Turismo de Mariana, a cidade mais antiga de Minas Gerais, com mais de 300 anos.

O município, conhecido como a primeira das sete vilas do ouro, não sabe qual será o tamanho do prejuízo na área de turismo, até porque, segundo ressalta o secretário, ninguém sabe quanto tempo a pandemia irá impor restrições ao comércio e à prestação de serviços. Em Tiradentes, ônibus de turismo estão proibidos de entrar na cidade. O mesmo ocorre no balneário de Capitólio.

Diante do prejuízo causado pelo coronavírus, a Federação dos Circuitos Turísticos de Minas (Fectur), que representa 47 regiões e 600 municípios no Estado, encaminhou ofício ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e ao governador Romeu Zema (Novo) pleiteando medidas para amenizar impacto no setor.

“Temos indicação no mês de março que taxas de cancelamentos de viagens já ultrapassam 85%. Se considerado o ano de março do ano passado, que apresentou faturamento de R$ 19,2 bilhões, os impactos são reais, incontestáveis e tristes, dificultando qualquer visão de sustentabilidade dos negócios, haja vista a imprevisibilidade de novos faturamentos”, disse a presidente da entidade, Degislaine da Silva Souza, que também é presidente do Circuito das Águas, no Sul de Minas.

A Fectur pleiteia um seguro desemprego para o período de quarentena imposta pelo poder público para desonerar as empresas e manter empregos. Também linhas de crédito de capital de giro para micro e pequenas empresas com carência de 24 a 30 meses, com juros subsidiados pelo governo.

Além disso, crédito emergencial para micro e pequenos empreendedores, com carência de 18 meses e amortização em cinco anos. “Pedimos a criação de programas de financiamento pós-crise para investimento e ampliação da disponibilidade dos programas acima com recursos do BNDES”, disse a presidente da Federação.